Por ANA PAULA DO REGO
O culto da Renovação Carismática Católica começa por volta das 20h10, todas as noites de quinta-feira, em uma igrejinha de bairro chamada “Comunidade Pe João Bosco Burnier e Nossa Senhora da Conceição”, na Vila São José, periferia da zona Leste de São Paulo.
Localizada em uma rua levemente íngreme e pouco iluminada, esta igrejinha torna-se discreta devido às casas que se agrupam à sua direita e esquerda, fazendo os menos observadores nem notarem sua presença durante o dia. Mas à noite, principalmente nessas quintas de cultos, ela se torna majestosa e sua cruz, pouco iluminada pelas luzinhas esverdeadas que a formam, alerta os fiéis do bairro que ela está ali, ávida para acolhê-los.
Sob suas lajotas esbranquiçadas e assistidos pelos anjos que, desenhados na parede do altar, segurando suas coroas de flores e flautas, rodeiam Cristo crucificado e abençoam o Santíssimo, as pessoas vão chegando aos poucos, sendo recepcionadas por um casal de senhores que, já na porta principal, sempre sorridentes, dão as boas-vindas.
Algumas senhoras rezam o terço em volta da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que está um pouco abaixo do altar, em cima de um suporte de madeira e iluminada pela única vela acesa naquela hora. Vozes já cansadas das repetitivas palavras, mas reavivadas pelo entusiasmo do que logo vai começar.
Ainda no altar, suspenso por dois degraus, dois músicos, um deles também coordenador desse grupo de oração chamado “Imaculada Conceição”, ajustam seus instrumentos, guitarras e amplificadores de som. No meio, uma mesa de madeira coberta por uma toalha branca rendada e, logo atrás, debaixo dos anjos, três cadeiras vermelhas de estofados aveludados se distinguem em meio aos bancos de madeira que seguem o comprimento da igreja, estão dispostas lado a lado, lembrando que ali, aos domingos, a missa também é celebrada.
Reinaldo, um senhor de 59 anos, com seus 1,69 de altura, jeito alegre, simpático, não possui cabelos brancos, mas uma imperceptível calvície começa a despontar na parte detrás de sua cabeça, bronzeado pelo sol das muitas horas que passa em seu jardim, que fica próxima à comunidade e que faz, freqüentemente, pessoas pararem na frente de sua casa para admirá-lo.
Com seus 10 anos de Renovação Carismática, é um dos freqüentadores mais antigos desse grupo de oração.
- Sempre fui católico, e quando ia nas missas aos domingos, o “Seu” Alfredo me convidava para participar da Renovação Carismática que acontecia na sua casa, eu nunca tinha ouvido falar nisso, até que um dia comentei com a minha esposa que estava sentindo falta de uma religião mais espiritual, mais forte, aí minha mulher comentou da igrejinha que fazia orações, era diferente, eu disse ‘vamos lá ver’, ‘ah, não sei é diferente’, eu insisti e fomos, no começo achei estranho, gesticulavam, batiam palma, eu não estava entendo nada, mas gostei e fomos freqüentando, depois de 2 meses, o “Seu” Francisco convidou a gente pra fazer parte da Interseção, ‘mas o que é isso?’, ‘Ah é oração, é a preparação para o culto.
Essa nova vertente do catolicismo tradicional tem como força motriz de sua fé o Espírito Santo, que quando aclamado faz com que seus “louvadores” desenvolvam os dons carismáticos: oração das línguas, entusiasmo, renovação, dom da cura e louvor. Surgiu em 1966 na Universidade de Duquesne (EUA), onde vários professores, estudantes e sacerdotes reuniam-se freqüentemente para momentos de oração fervorosa, fazendo com que o Espírito Santo operasse conversões e curas no meio dessas pessoas. À ação do Espírito Santo dá-se o nome de Pentecostes.
Ultimamente, a única coisa que tira Reinaldo de casa durante a semana, depois de um dia estressante de trabalho em uma metalúrgica, onde exerce a função de torneiro mecânico, é o grupo de oração. Nos outros dias da semana, depois do jantar, estira-se no sofá e, com o seu radinho de pilha de estimação ao pé do ouvido, dorme enquanto espera seus dois filhos chegarem – a moça da pós-graduação e o rapaz do curso técnico de informática. Há cinco anos, ele tornou-se pai e mãe, depois que sua esposa, que o acompanhava nessa caminhada de fé, faleceu de aneurisma cerebral.
Ele tem muitas histórias para contar, histórias comoventes, histórias de quem vive, como o próprio diz “em comunhão com Deus”, por isso nesta quinta, entra na igreja com sua bíblia debaixo do braço, escolhe os bancos do fundo, abre a bíblia, ajoelha e reza.
Esta é uma reportagem seriada, dividida em três partes. No dia 2 agosto, você verá a continuação dessa história (“Em nome do pai, do filho, do Espírito Santo, amém”), com o culto carismático, o fervor dos fiéis e histórias de fé de nosso personagem.
Ótimo tema, Ana!
Estou ansioso para ver em que vai dar a história do Reinaldo.
Gostei das descrições e da forma como introduziu o personagem.
Aguardemos o próximo trecho.
Ana, gostei do seu relato sobre o envolvimento de Reinaldo com os carismáticos. Fiquei curiosa pra saber como essa história de vida – mais uma entre tantas! – se desenrola sob o seu ponto de vista.
Beijos
Lígia
Ana!! Que texto gostoso! Consegui ler “ouvindo”, como se você tivesse de fato falando o texto. Também quero ver como essa história continua…
Bjos,
Fred
Aninha, gostei muito! Religião é uma tema fascinante, especialmente quando são deixados de lado todos os preconceitos e os aspectos negativos que as próprias pessoas criam. Quero saber muito mais do seu personagem, que certamente tem muita história a contar! Vou aguardar as próximas partes!!!
Beijão!
Sil
Ana, como é gostoso saber que um grupo se propoe em escrever sobre a humanidade, e por meio deste instrumento informa, forma e gera uma conscientização sobre as coisas boas que a sociedade nos fornece, as midias em geral relata um mundo da maldade.
Parabens para voce e continue recheando o universo com suas poesias, que tranforma.
Douglas mansur
Ana, querida!
Que legal seu texto. Você passeou por um campo complexo e está fazendo isso com leveza! Parabéns amiga! Aguardo os desdobramentos…
Suzana.
Concordo com o comentário do Wagner. Ótimo tema! Sou duplamente suspeito para comentar esse texto. Primeiro porque sou um aficcionado pelo estudo das religiões e segundo porque já conheço essa narrativa. Nada como ser o namorado da autora, não é mesmo?
Escrever sobre religião não é tarefa fácil. Ela traz consigo, a meu ver, dois grandes perigos implícitos e muitas vezes negligenciado por quem se arrisca a discorrer sobre o tema: o preconceito e o proselitismo. Um dos maiores méritos desse texto foi ter conseguido evitar, com sutileza e elegância, os dois extremos.
Só me resta ser redundante e parabenizá-la mais uma vez pela habilidade em extrair o profundo do simples.
Paulo.
* ERRATA
negligenciado = negligenciados