O nariz adunco suspende o véu. Tem ramos de flores amarelas e brancas como auxiliares a suportar… De onde estou sentado, consigo perceber os olhos fechados e já não espero o inchaço do peito. Não espero um sorriso ou um abano, mas algo interno sabe que há vida e ela ressoa.
A imagem me faz lembrar o crepúsculo em uma serra no Alto do Caparaó, na fronteira MG-ES: a matéria, o perfil, junto à luminosidade do dia que finda ou principia…, compõem algo mais vasto do que alguma possível cadeia de palavras pode alcançar.
A voz solene do arcebispo de Botucatu, vestido de preto e faixa púrpura no ventre, abençoam, acomodam o sagrado no velório de Laurival de Luca. Enquanto isso, meus olhos tentam captar o que extravasa da dor da esposa, dos filhos e dos presentes que também orbitam sua vida.
O corpo e o sangue de Cristo é compartilhado, é acolhido e parece confortar alguns espíritos dilacerados pela perda, tremenda ainda que inevitável, dada a gravidade da doença.
Os braços se projetam dos ombros e se encontram, pelas mãos, sobre o ventre. Grandes mãos. Limpas, confortáveis na aparência, aconchegantes. Instrumentos de trabalho. Mãos que partem deixando tantos paridos. As mãos de um obstetra experiente, de uma alma vibrante. Mãos que ajudaram a brotaram tantas vidas, tantos universos de possibilidades, inclusive a vida destes dedos que ousam prestar esta homenagem.
“As pessoas não morrem, ficam encantadas”, assegura o mestre Guimarães Rosa. Pois então, Laurival fica encantado no dia 21 de setembro, dia da Árvore, vésperas da entrada da primavera. Daqui uma semana completo meu aniversário. Há 27 anos, fui puxado por suas mãos, as mesmas que estão ali… encantadas. Serenas mãos sobre seu ventre irradiando satisfação.
Nunca conversamos. Nunca usamos palavras. Dissemos pelo grito e pelo silêncio.
Sempre ouvi de terceiros sobre sua bondade, atenção, compromisso, entusiasmo, seu brilho ao falar, ao transmitir coragem para as mães, seu encanto. Nunca de sua boca. Tantas vezes ouvi sobre como foi essencial aos três partos de minha mãe. Felizes partos e posteriores ao primeiro traumático. Foi força pura e confiança segura a mentes esgotadas pelo medo, a dor e o sofrimento.
Nunca conversamos, mas os berros retumbam em sua garganta encantada e brilham de modo especial nas mãos em paz.
Antes de sair, um aperto de mão à esposa, sentada ao lado do marido:
- Meus pêsames.
- Obrigada. Quem é você?
- Sou um dos rebentos do homem! – e disse meu nome e sobrenome.
Seus olhos ficam brevemente um pouco mais abertos, como se sua alma tivesse rapidamente inflado e extravasado por um cintilo do olhar:
- Jura?!… Nossa… Mas como ele tinha orgulho de ter trazido vocês três…
Trouxe sim. Não conversamos, mas nos comunicamos.
Enquanto sou rebento, ele é paz, confiança, mão para apertar e amassar. Posso imaginar sua felicidade ao me ver (assim como tantos outros…) vivo e gritando. Posso imaginar seu toque em minha perna, a me pendurar de cabeça para baixo.
Posso agora notar seu encantamento sereno. Posso acreditar que o berro inicial, de vida radiante, esteja se transfigurando nestas palavras sinceras. Posso crer que estas simples letras sejam o toque de coração e gratidão em um silêncio de sabedoria e imensidão. E assim o faço, por que não?


A Mão do obstetra te trouxe aqui, biusão. E suas mãos agora o traz, para o torpor de nossos espíritos…Abração, meu amigo!
Grande Felipe,
adoro o seu estilo e acho muito corajosa escrever sobre um velório. Na minha terra não tem velório e fiquei assim muito impressionada/chocada com o meu primeiro aqui no Brasil, uns meses atrás, um amigo um pouco mais velho do que eu. Senti um frieza, um distancianomento entre as pessoas que não sinto no seu texto. Por incrível que parece, na minha lembrança os nossos enterros permitem mais emoção/adeus.
Me permito de colocar um texto curto meu para dialogar também:
Dois corpos
O corpo que se encontrou lá dentro nos jardins, logo foi isolado, identificado e coberto, e enfim, mais tarde retirado. A faixa, – REAJUSTE JÁ! – vermelho e agressiva, continua lá, inimpressionada. O corpo nem rendeu muita conversa pelos corredores, engrossará simplesmente a estatística triste. – De vez em quando alguém se joga de uma das inúmeras passarelas abertas, vertiginosas e estreitas que conectam em cada andar os diversos blocos concretados da repartição pública, cinzentos, erigidos uns 30 anos atrás, quase até o céu. Falando de céu: Poucos Brasileiros, um povo tão alegre, se matam a si próprio, como foi comprovado por estatísticas internacionais. Aqui se morre no trânsito, do tráfico ou de bala perdida.
O outro corpo lá fora, uma criança, um menino negro, será que ele cheirou cola? ainda está lá quando saio, horas mais tarde. Quase na mesma posição, três passos da guarita, logo na descida do metro estação Maracanã que traz como pano de fundo uma enorme favela encrostada ao morro. Os taxistas do ponto em frente também não se tocam, costumam dar fim às folhas das árvores enormes queimando-as. Em um portão do Maracanã escrito com letra enorme: O novo Maracanã é nosso e a copa 2014 também! De cima da passarela curvada observo o bando de meninos desacompanhados, alegres, os corpinhos nus até a cintura, nos pé sandálias de dedo.
Engrosso eu também a estatística. A estatística dessas pessoas que fecham os olhos e viram a cabeça para outro lado, apressando levemente o passo até podem descer lá no metro, que o proteja, que lhes leva embora. O que os olhos não vêem, o coração não sente.
Abraço
Susan
Parabéns, Felipe, belíssimo texto! Vc voltou ao Narravidas com tudo, gostei de ver! Espero que este seja apenas o primeiro de um looongo retorno! Achei muito interessante a idéia de escrever sobre o homem que te colocou no mundo. E muito legal vc ter prestado sua homenagem a ele no velório e em forma de narrativa, para muitos lerem. Vida e morte se contrapondo e fazendo parte de uma mesma coisa… é pra se pensar muuuuito!
Beijos
Lígia
Valeu Du, Susan e Ligia!
Foi mesmo de coração q escrevi!
Enquanto não escrevi o texto, depois de ter ido ao velório, parecia q estava falatando alguma coisa!
Sabe quando vc precisa fazer algo para q um ciclo se feche?
Foi bem assim!
Obrigado pelo carinho!
Felipe
Felipe,
fiquei emocionado pela sua narrativa tão intensa e sincera. Há tempos também tive a mesma necessidade de escrever para homenagear outra pessoa de Botucatu que foi marco em minha vida – Dr Raymundo Penha Forte Cintra – com quem trabalhei dos 11 aos 17 anos. Publiquei este texto no jornal de Botucatu e teve uma repercussão muito forte para a família, que surpresa, pois não esperavam este ato, me procuraram para agradecer a homenagem. Fiz pela minha necessidade. Não pude estar presente ao velório e tinha que registrar todo meu sentimento e gratidão por tudo que este homem significou em minha vida.
Imagino que tenha encaminhado este texto para a família. Trata-se de alimento para a alma daqueles ligados afetivamente ao homenageado.
Parabéns e espero poder conversar mais com você sobre aqueles planos que te falei.
Grande abraço
Nilson
Comovida, li sua homenagem… e revi no final pela foto, a figura marcante de um médico e amigo. Meus filhos vieram pelas mãos dele… mais tarde ele me acompanhou e me confortou numa cirurgia de sua especialidade. Inesquecível médico… grande amigo… figura marcante e doce a acompanhar nossos pensamentos e preces. Para sempre.
Bela homenagem, Fê!
Beijos