POR SILVIA NOARA PALADINO
Parece mais humano do que inteligente sofrer de algumas paranóias. Umas mais crônicas, outras que se dissolvem aos solavancos de uma expiração mais áspera. Qualquer um está sujeito, afinal, a se perder da realidade de vez em quando, ou não?
Por volta das onze e tantas de uma noite comum da semana, dirigindo de volta para casa, Gabriela pouco enxergava através da janela do passageiro do carro, seja pela atenção ao volante, pelos vidros protegidos com ‘insulfilm’ ou, mais provável, pela resistência tímida em encarar o estranho admirador que conduzia o automóvel ao lado. Pista expressa, poucos semáforos. Por alguns quilômetros, se fez passar por desentendida. Pouco mais adiante, passou mesmo foi o seu número de telefone.
– Me dá o seu celular? – arriscou o rapaz, agitando o seu próprio aparelho no ar.
Gabriela desceu o vidro elétrico (só até a metade) e, antes de dizer qualquer coisa, radiografou braços, mãos e rosto alheios. Nenhuma orelha de abano, aliança de compromisso ou tendências psicopatas. Ao contrário disso, surpreendeu-se ao mapear os cabelos de tom loiro escuro, com lisos fios acompanhando a longitude do pescoço; os ombros largos e fortes, expostos pela camiseta regata; o maxilar quadrado, feito os guerreiros da era medieval, ou pelo menos aqueles retratados no cinema; e o limitado espaço do Peugeot 206 para a sua estatura.
– Anota aí! – rendeu-se ela, ditando pausadamente cada dígito.
André tem um metro e noventa e três de altura, como disse precisamente à Gabriela no primeiro encontro, e ela se arrependeu por não ter optado por seu maior salto alto. Lamentou-se também pelo vestido nada apropriado para uma noite típica de verão e pouco sedutor – em seu julgamento – para um menino tão bonito: malha espessa e mangas na altura dos cotovelos; colo encoberto pela gola careta; e saia de comprimento nem charmoso, muito menos ousado, deixando apenas joelhos e panturrilhas à mostra. Gabriela decretou em pensamento: “Certeza que isso só vai durar uma noite”.
Aos seus vinte e seis anos e com gostos refinados, Gabriela, por outro lado, nunca se sentiu à vontade em jantares românticos à luz de velas e em relacionamentos mais adultos do que cômicos. Encantou-se ainda mais com André quando este confessou ter vinte e dois anos, não entender nada de cervejas e não ter concluído formação superior, até então. Sem falar na pequena cicatriz no lábio superior, na força das mãos – às vezes, descontrolada – ao redor de sua cintura e nas histórias sem qualquer glamour.
É evidente que Gabriela não acredita em príncipes. Exceto pelo porte físico de André, como o de personagens da mitologia humanizados na escultura grega – ou perto isso –, ele não teria o menor talento para o papel. Mas, ao terceiro encontro, Gabriela queria mais é ser Gata Borralheira. Ela acharia graça ao vê-lo embarcar pela primeira vez em um avião, teria orgulho ao apresentá-lo a seus amigos de infância, e revelaria gentilmente a ele o que mais a satisfaz. Ela o ajudaria no trabalho de conclusão de curso e até toleraria a molecagem da turma de amigos. Era fato.
Mas o quarto encontro não aconteceu. André disse que ligaria no domingo, mas só apareceu na segunda-feira, culpando a chuva pela preguiça invencível. No sábado, Gabriela voltou mais cedo de viagem com plano traçado – eles assistiriam a um lançamento que, em situações comuns, ela jamais tocaria na prateleira da locadora, ficariam largados sobre o tapete da sala, entre travesseiros e almofadas coloridas, e fariam amor ali mesmo. Perderiam o final do filme e dormiriam só perto do amanhecer. Mas André preferiu não contrariar a mãe, que queria o filho em casa. Chegado mais um final de semana, Gabriela tornou-se segunda, até terceira opção, atrás de compromissos importantes de André. Primeiro, ela questionou o que seria verdade ou mentira entre todas as desculpas. Mas o fato é que isso não fazia diferença. As duas respostas estavam erradas.
A ilusão de Gabriela teria virado prato principal do dia, mas foi esmagada como o alho que nem mais se percebe no arroz depois de cozido. E ela diz, novamente, que tal estupidez jamais irá se repetir.

5 comments
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May 14, 2010 at 7:48 pm
Suzana
Silvia,
Seu texto me soa como uma crônica da vida da mulher moderna. Fantástica incursão ao mundo feminino! Apesar da dor de tantas Gabrielas…
Sua viagem, ao que não se confirmou, mas um dia existiu na mente de Gabriela, é muito legal, muito real.
Suzana.
May 17, 2010 at 4:28 pm
Wagner Hilário
Sil, minha esposa leu seu texto no meu blog e achou, por um momento, que eu o havia escrito. Ela não havia lido o nome da autora no início do texto.
Disse-me que durante a leitura pensou: “Nossa, eu não conheço muito meu marido. Que sensibilidade! Como ele consegue se colocar no lugar de uma mulher e pensar como uma mulher.”
Quando viu que eu não era o autor, descobriu que não estava tão equivocada sobre quem sou.
Eu, é claro, dei uma resposta: “Minha sensibilidade foi ter colocado o texto no blog. Tá bão demais. Além disso, nenhum homem seria capaz de texto igual, nem o Chico Buarque”.
Beijos e parabéns.
March 1, 2011 at 1:04 pm
T
adorei o texto, parabéns.
May 3, 2011 at 8:49 pm
Rafael Trivella
Silllll!! Que coisa mais linda esse texto, sério!
Que delícia a fluidez dessa história mega envolvente!!
QUERO MAAAIS!
Super beijo com saudade!
September 10, 2011 at 9:41 pm
Luis Otavio Moraes
Não resisti e entrei no seu blog. Bem bacana sua “história de amor”. Mas o que será que Gabriela não tinha para que o André não se apaixonasse por ela?
Beijos
Luis Otavio