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O elemento químico

Por Wagner Hilário

As meninas riem, lêem as notícias na tevê do metrô e brincam de super trunfo – na minha época, acho que só os meninos brincavam de super trunfo. São umas cinco. Estou curioso para ver os carros, acho que identifiquei uma Benetton do tempo do Piquet na mão de uma delas. Disfarço para não ser pego na bisbilhotice. Quando percebo que me flagram, finjo que elas são apenas um tropeço da minha visão e aponto o olhar para as janelas.

De repente, um senhor com bastante idade, rugas até na orelha, onde há também pêlos grossos como barba, provavelmente porque os raspa, levanta-se do assento e se aproxima das meninas com cara de menino levado. Estranho a atitude e temo que seja um pedófilo perigoso, que esconde sob a senilidade uma força que só os criminosos têm. Penso no que dirá às adolescentes e afio os ouvidos para desmascarar aquele velho tarado…

– Vocês estão no colegial? – diz com cara de vovô carinhoso.

Elas pensam um pouco, talvez porque a palavra colegial lhes soe estranha; afinal de contas, há alguns anos, colegial virou “ensino médio”. Não parecem nada constrangidas com a abordagem do velhinho. A verdade é que uns três segundos de silêncio depois da pergunta, duas delas respondem.

– Sim, sim, estamos no colegial.

– Então me digam que elemento é C-H-O-P2.

– Péra aí… C é carbono… – diz uma.

– Ó é oxigênio… – diz outra, atropelada pelas vozes menos vigorosas das colegas. – Espera! P…

– H é hidrogênio – mais uma mostrando conhecimento.

– Posso falar? – interrompe a assembléia química o velhinho.

– Pode – diz a mais preguiçosa da turma, que não havia identificado elemento nenhum.

– C-H-O-P2 é chopp.

As meninas explodem numa sincera gargalhada e batem palmas sem nenhuma vergonha para o bom velhinho, que pede silêncio enquanto ri constrangido pela homenagem em público que as jovens prestam à sua simpatia. Em seguida as portas do metrô se abrem, ele se despede e vai embora.

Cadê Silvia?

Por Maria Lígia Pagenotto

Desaparecidos. Na cidade de São Paulo, existe delegacia especializada em gente que, de repente, sem que ninguém saiba exatamente por que, some sem deixar rastro. Alguns certamente por vontade própria. Outros porque têm distúrbios mentais e se perdem e outros, ainda, talvez a maioria, especialmente crianças e adolescentes, porque são vítimas de violência.

Em qual desses critérios para desaparecer se encaixaria Silvia? Por alguns dias, ela engrossou as estatísticas da Prefeitura de São Paulo, que contabiliza o desaparecimento diário de cerca de 30 pessoas. No Brasil, estima-se, 40 mil crianças somem por ano. Um número terrível, que dói. Onde estará esta gente toda?

Sílvia não é criança – tem 41 anos, é de Maceió, Alagoas, e veio para São Paulo morar com sua irmã e dois sobrinhos. Silvia queria viver e trabalhar em São Paulo. O serviço? Tanto fazia. O sonho de Silvia era mesmo morar na “maior cidade da América do Sul”, como dizia à irmã com orgulho.

Conseguiu. Logo que chegou foi indicada por um amigo da irmã para trabalhar num escritório de contabilidade.

Seria a recepcionista e secretária do lugar. Silvia logo se animou com a perspectiva de fincar raízes em solo paulistano. E, comunicativa, sorridente e prestativa, logo conquistou a confiança de todos. Também se empenhou como pôde no trabalho.

Só não contava que iria se apaixonar tão facilmente por um cliente do seu patrão. Muito menos podia imaginar que o moço, casado, esconderia dela esta condição por alguns meses. Quando não podia encontrá-la, dizia que estava viajando a serviço, o que quase sempre ocorria nos finais de semana. Ingênua, acreditava.

Será que foi quando soube do estado civil do rapaz que Silvia resolveu se perder pela cidade? Talvez, arriscam alguns no cochicho no corredor de um hospital.

Cabeleira farta na altura do ombro, Silvia é alta e magra. Tem a pele morena e traços que lembram os de uma índia. Seus olhos chamam a atenção: são cor de mel, grandes. . Um tipo que não passa despercebido. Tanto é assim que quando entrou de cadeira de rodas no pronto-atendimento do Hospital Bandeirantes, no bairro da Liberdade, em São Paulo, logo foi notada.

Ela vestia jeans, botas no joelho, uma blusa de lã marrom e estava largada na cadeira, pescoço dependurado para trás, cabelos em desalinho. Foi rapidamente atendida, passou pela triagem e encaminhada à sala de repouso, com soro na veia.

De longe, em outro box, um observador atento – um ouvido na história de Silvia, outro no paciente que acompanha – quer saber tudo sobre aquela moça cujo silêncio intriga enfermeiros, médicos e até então sua única acompanhante, uma mulher de uns 50 e poucos anos que com ela chegou ao hospital.

- Eu sou chefe da Silvia, pedi a ela que fosse ao banco na terça passada, fazer um depósito, e aí ela não voltou mais. Ficamos desesperados, buscamos em todos os lugares no entorno e nada da Silvia. Mas o depósito foi feito.

Passaram-se 10 dias e Silvia foi encontrada suja, com a roupa rasgada, olhar perdido, vagando em torno do prédio em que mora com a irmã. O porteiro, já avisado do sumiço da moça, a avistou e foi ao seu encontro. Ela nada dizia. Só olhava para o infinito. O homem, então, que tinha o telefone do trabalho de Silvia, ligou avisando que estava com ela, naquele estado.
 
A chefe foi buscá-la, avisou a irmã e levou-a logo ao hospital. Não sem antes passar em sua casa e dar um banho nela, trocar suas roupas. Tudo feito sem Silvia dizer uma palavra.
 
E assim foi que ela chegou ao Hospital Bandeirantes. Na cama, seus olhos fitam o teto, sempre abertos. Sua expressão é triste. Ela emagreceu, comenta a colega de trabalho, que depois de explicar pela terceira vez a uma enfermeira o que havia acontecido com Silvia, abre um papel toalha em suas mãos e mostra, para surpresa de quem olha, algum objeto.

- Olha o que estava na orelha dela quando o porteiro a encontrou.

- Nossa, isso estava na orelha dela?, pergunta a médica, assim como já perguntou o enfermeiro, a outra atendente etc…
 
Os amigos, vários, do trabalho e alguns vizinhos, e a família (a irmã e um dos sobrinhos) chegam ao hospital e se revezam em torno de sua cama. Todos olham o objeto, espanto geral. Alguns choram, outros a acariciam, a irmã suplica para ela falar, o sobrinho também. Outros a abraçam, com pena e carinho.

E Silvia se cala em sua mudez, olhos no teto, expressão triste.

A amiga arrisca que a decepção ao descobrir que o moço por quem se apaixonara era casado foi que provocou seu sumiço. A irmã duvida um pouco, mas diz que prefere que seja “só” isso, “só” uma depressão, do que algo mais grave.

No corredor, os amigos comentam sobre ela. Mas ninguém esclarece o que Silvia tinha na orelha. Silvia foi encontrada, mas parece ainda perdida em seu mundo. Calada, parece não ter forças nem para fechar os olhos, muito menos para falar e andar.

Onde estará Silvia?

O tamanho do chiclete

por Wagner Hilário

Cheguei do trabalho dia desses e encontrei meu filho…

“Olha, pai… Chiclete.”

A cara de satisfação ao me mostrar o chicletes na embalagem verde, de limão, e os chicletes na embalagem vermelha, de morango – que eu, não sei por que, cismei que eram de canela –, quase me passou despercebida.

“Horra! Mas quanto chiclete. O pai não gosta dessa história de mascar chiclete toda hora.”

“Mas ele quase não come. Ele gosta de ter. Fica andando com eles para lá e para cá e quase nem masca”, interveio minha tia que cuida dele, enquanto eu e minha esposa trabalhamos fora.

É provável que ela tenha razão. Ele detesta que as coisas acabem, ainda mais quando gosta muito.

“Mas a mãe dele já deu pra ele chiclete no fim de semana passado. Agora ele ganha mais!”, justifiquei

Então, ela conta que a tia Cuca – nada a ver com a do Sítio do Pica-pau Amarelo –, tia-avó dele também, levou-o à venda próxima dali, naquele mesmo dia, e lhe deu R$ 2,00…

“Compra o que quiser.”

Ele não titubeou, pediu as gomas de mascar, sentindo-se homenzinho, proprietário do próprio destino, responsável pelo próprio consumo. Quando me viu chegar do trabalho, quis mostrar o quão independente ele poderia ser. Atribulado das idéias, sem abandonar o trabalho na redação, atropelei suas expectativas.

Fomos para casa, onde a mãe dele nos aguardava. O menino já chegou contando a boa-nova para a mãe que, menos chata do que eu, disse o infalível “que legal!”.

“A tia deu a ele R$ 2,00 e disse: ‘Compra o que quiser’… Ele escolheu os dois chicletes, foi ao caixa e pagou à mulher”, comentei com ela, lembrando que de manhã a psicóloga da escolinha havia lhe dito que a criança precisa entender que crescer é uma boa.

Segundo a psicóloga, estratégia interessante para estimular o amadurecimento dos pequenos é dar o dinheiro à criança e pedir que ela pague ao comerciante pelo produto comprado. Isso os faz sentirem-se mais homenzinhos, ou mulherezinhas.

Apesar de eu mesmo ter recapitulado toda essa passagem daquela manhã tão próxima e ao mesmo tempo tão distante, as palavras boiavam na superfície dos meus pensamentos, entulhados de trabalho e pragmatismo. Não estava submerso no instante, como é necessário para emitir opiniões sensatas em uma discussão… Dificilmente emito opiniões sensatas.

Então, resolvi pegar um de “canela”. Foi o ensejo para o redemoinho que me levaria ao fundo de uma compreensão que jamais imaginei um dia ter. Apanhei o tablete vermelho e tirei o chiclete. Ele me olhou com cara de pânico, e eu, rápido como só o sou diante do perigo, desembrulhei a goma, disse “vou pegar um, filho”, e coloquei a guloseima na boca. Ele protestou antes mesmo da primeira dentada, mas só depois de consumada a trituração, teve início o escândalo… Tomei um susto.

“Devolve!!! Vai acabar! Vai acabar!”

Ele chorava de soluçar. Não entendi nada. Achei um exagero. Disse-lhe que parasse de chorar.

“Onde já se viu! Que mesquinho! Não pode ser assim. É só um chiclete de ‘canela’. Se continuar assim, ninguém vai querer brincar nem dividir nada com você. Quando você quer brincar com o tênis do papai, o papai deixa. Agora você faz isso.”

“Eu quero ir embora, quero ir pra rua!!!”

“Pára já com isso. Se continuar assim, vou te deixar de castigo. Pára de chorar, se não vai ficar de castigo.”

Minha esposa, diante da demonstração de autoridade paternal, me chamou de lado sutilmente. Deixei-o em cima do sofá, em pranto, engasgando de lágrimas. Fui até ela, contrariado. Não queria ninguém me dizendo o que deveria fazer. Estava disposto a mandá-la catar coquinho e voltar à carga com a bronca.

“Wagner, calma. Calma…”

Ela me dominou, como o domador domina seus cavalos – para não citar outro eqüino.

“Imagina que alguém pega algo que para você tem um grande valor… O carro, por exemplo. Faz isso sem pedir, sem que você saiba, de repente, ignorando completamente o valor que dá àquilo e a autoridade que tem sobre… Você não viu que eu pedi um chiclete a ele e ele me deu sem resistência? Pedi, ‘por favor’.”

“Já entendi”, voltei para a sala.

“Espera…”

Não queria esperar. Queria limpar a cagada o quanto antes. Lembrei que sempre exijo dele que peça “por favor” para pegar algo, para fazer algo que julgo invasivo. Aí, vou e dou um exemplo contrário a tudo que prego… Depois, as crianças é que são difíceis.

“O Gabriel não tem nada sob seu controle”, continuou ela. “Não há nada que ele faça que não dependa da gente. Quando ele consegue dominar algo, e é natural que esse algo seja pequeno e insignificante para um adulto, ele quer ser respeitado por isso.”

Preferiria uma sessão de choque… Mas suportei como me cabia, cabisbaixo, a aula sobre o universo infantil. Universo que muitas vezes é um quarto repleto de brinquedos e lembranças – território pleno de alegria e desventuras. Universo em que um boneco se torna melhor amigo, confidente de segredos de uma intimidade incipiente e ingênua, desprovida de matéria, restrita à imaginação…

Universo em que um chiclete se torna objeto de poder, símbolo da existência de um reino, grandioso aos olhos do infante rei… Universo de encanto frágil, que se quebra sempre que o adulto menos sensível deixa escorrer de sua mediocridade o concreto anacrônico e cinza de seu cotidiano arrastado.

Voltei ao sofá e me sentei de frente para ele. Tirei o chiclete da boca e enrolei no papel de onde o havia desembrulhado. Era o máximo que poderia fazer para devolver-lhe a “mastigável” autoridade.

Ele ainda soluçava, com os olhos fechados e inundados de lágrimas. Disse-lhe que jogaria o chiclete fora e pedi desculpas por não ter pedido “por favor”. Não resolveu muita coisa. Gritava que queria ir para a rua, que queria ir ao mercado comprar outro chiclete, que queria voltar para a casa da tia. Provavelmente porque lá lhe respeitavam mais do que na própria casa.

Percebi que só me restava usar a infalível estratégia das histórias de terror. Poderia contar-lhe uma sobre o Trasno das Masmorras, personagem de o “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, ou sobre o lobisomem. Optei pelo lobisomem.

“Oh, o papai vai contar uma história de lobisomem. Cê quer ouvir?”

A palavra aterrorizante soou como a promessa de mais 20 chicletes naquele mesmo dia.

“Conta”, respondeu.

Pensei um pouco e comecei…

“Era uma vez um menino que tinha dois chicletes. Aí, o papai dele foi e pegou um sem pedir. O menino ficou muito triste, e o papai não entendeu por que. Mas depois pensou (pela cabeça da mãe) e percebeu que estava errado. Pediu desculpas. Mas o filho estava muito bravo e não queria nem saber. Pegou suas coisas e foi para rua, dar uma volta. O pai foi atrás, sem deixar que o menino o visse. O menino andava pela rua escura, já que estava de noite, até que ouviu um barulho: ‘Auauauauauuuuuuuuuuuu’…. Quem era?”

“O lobisomem”, respondia sorrindo, feliz pelo iminente, emocionante e atemorizante encontro imaginário.

“Aí o lobomau, quer dizer o lobisomem – sempre me confundo –, viu o menino e saiu correndo atrás dele… Sabe o que ele queria?”, perguntei, com ar de Dona Carochinha.

“Um chiclete?”

“Não,” – eis a vírgula, a nota de preparação para reconquistar o seu amor, imaginava – “todos os chicletes… Ele ia levar todos. Foi o que quase aconteceu. Ele alcançou o menino, mas quando pegou os chicletes o pai apareceu e derrubou o lobisomem no chão e pegou os chicletes de volta. Sabe o que fez ainda? Botou o lobisomem para correr.”

“Disse assim: ‘Sai, sai para lá se não eu arrebento a sua cara’…” Ele considerava a frase fundamental para a história e eu não estava em condições de discordar.

“Isso”, concordei. “Disse isso mesmo. E deu o chiclete de volta para o filho.”

História quase contada, fiquei esperando que ele dissesse:

“Aí, o filho deu um chiclete para o papai.”

Seria uma forma de ele me dizer, está perdoado. Mas ele nada disse, e eu falei:

“Fim”.

“Conta outra.”

Estava insaciável, e a consciência pesada me fazia incansável. Contei, a mesma história, mas, no final, o pai era derrubado pelo lobisomem e ele mesmo, o filho – o Gabriel disfarçado de menino da história – recuperava os chicletes e salvava o papai.

Ele riu de satisfação. Depois de um tempo, me procurou. Olhou-me, atencioso, como os pais devem ser com os filhos, e disse:

“Pai, qué um chiclete de canela?”

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