Para raros… para todos

 

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Foto: Fred Linardi

 

Por FRED LINARDI

 

A voz de Fernando Anitelli acompanha o rufar de um tambor e inicia uma poesia, quase um tratado. Vestido de palhaço, entra no palco. Sem horas e sem dores… Respeitável público pagão… a partir de agora, todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser; todo verbo é livre para ser direto ou indireto… Os versos seguem num ritmo calmo e claro, mas vai evoluindo dentro de um raciocínio que presa pela liberdade de viver e de ser.

 

Anitelli começa o show como uma criança num salão de festa, em rodopios errantes que fazem girar as tiras de panos coloridos e compridos amarradas na cintura. A calça preta destaca esses aparatos soltos que, com a velocidade dos giros, alcançam a linha horizontal até que ele ajeita o microfone e pendura o violão em seu corpo, mostrando estar preparado para sua apresentação. A cara é de palhaço: branca, com sobrancelhas triangulares, pontiagudas e simetricamente pintadas de preto. Sua boca tem lábios expressivos, pintados de tinta vermelha. A maquiagem sugere um palhaço questionador; alguém surgido entre o rufar ecoante de um tambor, entre a fumaça branca de um palco com panos coloridos e decorado com figuras infantis, como bonecos de brinquedo e bichos de pelúcia.

 

A poesia continua …nenhum predicado será prejudicado… nem tampouco a vírgula, nem a crase e nem frase e ponto final! Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas… e estar entre vírgulas pode ser aposto… Neste ponto, alguns da platéia já esboçam os mesmos versos, querendo acompanhar aquele ser que, para um outro tanto do público, ainda é desconhecido. Não é estranho haver uma dúvida sobre aquilo que vem a seguir. Afinal ele é um palhaço, mas entra com cara de esperto, sem fazer graça, bancando uma pose ereta e de respeito. …E eu aposto o oposto que irei cativar a todos, sendo apenas um sujeito simples. Um sujeito e sua oração…

 

Para um novato espectador do Teatro Mágico, a velocidade sutil dos acontecimentos não permite idéias preconcebidas e, por isso, à primeira vista é difícil classificar qual tipo de apresentação é essa. Até agora, nessa introdução, a única coisa que se vê são os músicos que entraram, enquanto Anitelli ainda declama o restante da poesia, e já o acompanham com acordes perfeitos. A sutileza da sua voz acompanhando o violino ao seu lado esquerdo vai ganhando tons baixos para, de repente aumentar e convidar à explosão sonora. Conclui sua entrada com a inevitável pergunta tem horas que a gente se pergunta por que é que não se junta tudo numa coisa só?

 

A música que estava em latência até agora, nesse breve início, é tão conhecida como os palhaços e bonecas que, de repente, entram no palco para acompanhá-la aos pulos e sorrisos. O vocalista solta a voz e convida a todos:

 

Vai, vai, vai, começar a brincadeira!Que a charanga vai tocar a noite inteiraVem, vem, vem ver o circo de verdadeTem, tem, tem picadeiro e qualidade…

 

A sutileza é trocada pela música frenética e pulos no palco. Tudo se acelera, mas conhecer essa canção do circo não elucida. Ela fala de circo, picadeiro, mas na verdade o Teatro Mágico está num palco de um teatro, com uma banda de rostos pintados de palhaços e atores bonecos pulando sob a atmosfera infantil conduzida por um poeta com um violão.

 

Os próximos minutos do show elucidam que este é, sim, uma apresentação de um grupo musical. Um grupo de músicos que atuam e de atores que aprenderam a arriscar acordes em instrumentos. Todos são parte de uma coisa só, combinando com a pergunta que acabou de atingir o público, que também é levado pela mensagem aos poucos.

 

Anitelli usa palavras simples para passar algo que muitos deixaram de perceber e, por isso, convence facilmente o público. Como resposta, os jovens pulam e sorrisos abrem nos rostos mais velhos. Muitas vezes, estes são os pais e avós vencidos pela incansável insistência dos filhos que, depois de terem ido com os amigos pela primeira vez, voltam para casa cantando as músicas do show com o inevitável “vocês precisam conhecer isso!”.

 

A mistura que foi se formando ao longo das apresentações não é de se estranhar, considerando que esta é a receita do Teatro Mágico. E, sendo a música regada de filosofia de vida, escrita e tocada por um “poeta-ouvidor-desenhista-músico-malabarista-comediante-o-que-for” de 32 anos, não há idade correta para se encaixar nas idéias que Fernando Anitelli se propõe a passar.

 

O aviso na entrada, de que é só para raros, é tão óbvia quanto a rapidez da sensibilidade do líder da trupe ao comemorar Se todo mundo aqui é um só, um diferente do outro, logo cada um é um ser em extinção. Somos todos raros! 

 

Veja, no dia 30 de julho, como foi descoberto que os opostos se distraem e os dispostos se atraem.

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