Por Maria Lígia Pagenotto

Com muito profissionalismo e paixão pelo que faz, equipe do CAPS II M’ Boi Mirim comemora 1 ano de existência

O dia está bonito, sem nuvens, mas a manhã paulistana ainda é um pouco fria. Na casa de dois pavimentos onde está localizado o CAPS II M’ Boi Mirim (Centro de Atenção Psicossocial), o sol convida todos a se exercitar ao ar livre.

É terça-feira, dia do Grupo de Corpo, coordenado pela Terapeuta Ocupacional Janaína L. de Amorim Leal. Lindinalva Freitas dos Santos e Beatriz Carvalho da Silva, Técnicas Educacionais do CAPS, também participam, junto com alguns dos freqüentadores da casa.

A movimentação leve, ao som de música, ajuda a esquentar os músculos e os ânimos. Quem está ali para os exercícios já tomou café da manhã com pão fresquinho na ampla copa-cozinha da casa.
Em março agora fez um ano que o CAPS II do M´Boi Mirim, região com 514.374 habitantes, na periferia da zona sul de São Paulo, foi inaugurado. O serviço é uma parceria da Secretaria Municipal de Saúde com a Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus.

Nada de muros

Acolher pacientes com transtornos mentais, como alternativa ao tratamento em hospital fechado, é uma das principais propostas dos CAPS instalados pela cidade. No CAPS II M’Boi Mirim não é diferente. Quem está ali não raro já passou pela dura rotina dos hospitais psiquiátricos. E, agora, na casa, busca acolhimento (e liberdade) acima de tudo.

A Assistente Social Isabel Takaes Santos, coordenadora do serviço, explica que a maioria dos moradores do bairro depende unicamente dos programas de saúde oferecidos pelo poder público – embora, frise, o serviço seja aberto a qualquer cidadão com transtorno mental, desde que receba indicação médica para freqüentar o local.

Como ocorre com todo paciente psiquiátrico, a co-responsabilidade da família ao tratamento é fundamental. E o CAPS vem para facilitar isso também – os parentes são convidados a participar de algumas atividades na casa e a maioria das pessoas que freqüenta o lugar mora nas imediações.

O atendimento prioriza o trabalho coletivo, com oficinas terapêuticas. Além do grupo de corpo, há outros grupos como: o de jogos; convivência familiar; psicodrama; caminhada; culinária; reencontro; terapia comunitária; grupo de filme; de atividades; grupos de família; grupo de história; de teatro; grupo sol; grupo de troca; oficina criativa e grupo de autocuidado. Os grupos são modificados de acordo com a entrada de novos pacientes e a necessidade de cada perfil dos mesmos.

Com tanto trabalho em equipe, quem não conhece o serviço pode achar que no CAPS falta espaço para o atendimento individualizado, o que não é verdade – há, segundo Isabel, o momento em que cada um recebe atenção especial, sozinho.
 

Lágrimas aflitas

Pacientes e funcionários se conhecem de fora, do bairro, o que facilita o trabalho de integração. Lindinalva, por exemplo, a Técnica Educacional, querida por todos, conhece alguns freqüentadores da sua vizinhança.

Com seu jeito manso e carinhoso, Lindinalva é um porto seguro para muitas das aflições dos pacientes. Rodrigo*, por exemplo, diz que só perdeu o medo de viver quando chegou ao CAPS e encontrou a mão amiga de Lindinalva para lhe dar apoio.

Ele tem a fala tranqüila, mas quando conta um pouquinho da sua vida não consegue camuflar sua dor. De seus olhos, escorrem lágrimas aflitas. Diz que já foi motorista de ônibus, mas conta que, de repente, um dia, sua vista escureceu. Desde então, freqüenta o CAPS.

“Eu tinha medo de tudo, quando cheguei aqui, achei que não ia agüentar ficar, queria pular os muros”, diz Rodrigo*. Hoje, afirma, tudo mudou. “Tenho crises, vontade de quebrar tudo às vezes, mas adoro o pessoal daqui.” Seu pavor é pelo o que vê: corpos mutilados, aviões que caem à sua frente. Ele conta e chora, chora. Tenho dificuldade em me manter serena vendo aquele homem chorar que nem uma criança perdida à minha frente. Disfarço e enxugo os olhos.

Janaína, a Terapeuta Ocupacional, revela que o mais difícil para quem chega ao CAPS, além de ter de enfrentar suas inquietações internas, seus medos, é ter de conviver com o outro, com o diferente.

Rodrigo* concorda. Diz que um dia alguém estava ouvindo música muito alta e ele não estava suportando o barulho. “Fiquei com vontade de esfarelar o rádio”, lembra. Beatriz dá risada. “Não precisava chegar a tanto, era só pedir para abaixar o som”, diz a Técnica Educacional.

Junto com Rodrigo*, estão, em abril, no CAPS II M’ Boi Mirim, Ana*, Cida*, Rose*, Bruna*, Claudia*, Junior*, Marcelo*, além de muitos outros. Segundo Isabel, a casa tem capacidade para atender até 45 pacientes, maiores de 18 anos, por dia. Dependendo do caso, eles ficam em regime intensivo – 5 vezes por semana, o dia inteiro – ou semi-intensivo, 2 vezes por semana.

Além do café da manhã, faz parte da rotina dos internos um almoço e um lanche vespertino. A medicação é fornecida durante o dia e, quando vão embora para os seus lares, levam os remédios que precisam.

Assim que chega em casa, Cida*, falante, de cabelos longos e cacheados, diz que tem muito trabalho para fazer, não lhe dão folga. “Eu sofria com dores muito fortes, agora estou melhorando”. Acha que as brincadeiras que faz no CAPS, os jogos, os passeios e as caminhadas têm colaborado para sua melhora.
 

Ouvidos sempre abertos

Rose* já ficou internada e diz que seu temor maior é o de morrer. “Mas quando estou aqui fico relaxada, não me preocupo com o que está lá fora”, afirma. Sua mente, diz, fica tranqüila. “Sou muito nervosa em casa, com minha família, mas aqui todo mundo é carinhoso comigo.”

Cida* conta que cobras querem pegá-la, Rodrigo* tem medo do que vê. A jovem e bonita Márcia* também teme a morte, diz que ouve vozes e que é ansiosa demais. “Mas melhorei muito vindo para cá”, diz entre lágrimas, de mãos dadas com Lindinalva.

“Sou muito tímida, tenho vergonha de tudo e de todos, mas agora estou melhorando, me sinto mais segura”. Seu maior medo, continua, o que mais a persegue, é o de ir embora deste mundo e deixar seus filhos sozinhos. Mas qual mãe não tem um medo destes?

No CAPS, afirma Bruna*, há pessoas com as quais ela pode desabafar suas angústias. O marido e os filhos nem sempre têm tempo e paciência para ouvi-la, sente-se isolada muitas vezes, incompreendida, mas o pessoal do CAPS, garante, tem sempre disposição para ela. “Só não gosto de algumas psicólogas e da outra terapeuta ocupacional”, revela.

Janaína ri. “Você está dizendo isso só porque eu estou aqui”, diverte-se. “Não, não é verdade, gosto muito de você, mas não gosto das outras”, afirma a sincera Bruna*, mãe de três filhos já crescidos.

O psiquiatra Renato José Vieira, segundo Bruna*, nunca estoura com ela, está sempre pronto a ajudá-la. “Em casa eu me tranco, tenho muito medo das outras pessoas, medo de desabafar e de ouvir o que não gosto. Aqui ninguém me magoa, sinto-me à vontade para me abrir.”

Receber bem, ouvir o outro, compreendê-lo e solidarizar-se com sua dor – a equipe do CAPS II M’ Boi Mirim leva a sério o sentido de acolhimento, segundo quem com ela está quase que diariamente.

“Um dia, numa crise, o guarda me abraçou como um irmão, me levou para o hospital”, relembra Rodrigo*, referindo-se ao porteiro de riso fácil e olhar amigo, chamado Antônio. “Aqui todo mundo sorri e abraça”, frisa Rodrigo*.

A desinibida Cida*, por exemplo, diz que gosta tanto do CAPS e do pessoal que a atende que, se pudesse, ficaria na casa para sempre. “Tenho um olho cego, o outro vai escurecendo, sofro de dores pelo corpo todo”, afirma. “Mas aqui eu ganho força, energia, calor”.

Há melhor definição para acolhimento?

Anote:

Endereço do CAPS II M’ Boi Mirim: Rua Ernesto Pasqualucci, nº 52
Jd. Dionizio – cep: 04935-050
Tel.: (11) 58335690
Horário de funcionamento: 8hs às 18hs.

* Por uma questão ética, os nomes dos pacientes foram trocados.

 A jornalista Maria Lígia Pagenotto visitou o CAPS em abril deste ano. Este texto foi publicado no jornal da instituição, por ocasião do primeiro aniversário do lugar.

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