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Botero

Por LUCIANA NORONHA 

(parte 1)

Colômbia, 13 de Maio de 2001. Em um povoado localizado na região sul do Departamento de Bolívar, uma família festejava o dia das mães. A festa corria animada, se espalhando e ultrapassando os muros do casebre onde se reuniam filhos, mães, pais, tios, sobrinhos, sogros e amigos da família. Cerca de noventa pessoas se divertiam, embaladas pelo falatório, pela música e pela comilança, típicos de grandes encontros familiares.

Durante a tarde, alguém pensou que o domingo de sol era um verdadeiro convite ao jogo de futebol, e a idéia foi rapidamente aceita pela ala masculina da família, que se reuniu no campinho próximo, distribuindo dribles, passes e pernadas.

Ao cair da tarde, avista-se a chegada de uma pequena multidão, que se aproxima do local. Cerca de quinhentos homens cercam a casa da família. Um deles saca do bolso uma lista, em que constam duas dezenas de nomes, e solenemente os vai chamando. Em seguida sentencia:
 

– Vamos.

Mesmo sem saber para onde seriam levados, os convocados não viram outra opção a não ser seguí-los. Foram encaminhados a um local vazio, a um quilômetro da casa onde estavam, e, ao chegar, ouviram o barulho dos tiros que cortavam o ar em sua direção. Uma a uma, dezenove pessoas foram executadas.

Porém um deles sobreviveu. Gabriel* levou um tiro de AK-47 na tíbia e desmaiou. O corpo de um amigo caiu em cima dele, camuflando sua respiração e enganando os assassinos, que o imaginaram sem vida e deixaram o local. Entre os mortos estavam seus três irmãos e seu sogro. Gabriel foi o único sobrevivente.

Una casualidad de la vida, define.

*

Após a fuga dos assassinos, Gabriel foi encontrado e retirado do local. Como estava bastante machucado, levaram-no até a Cruz Vermelha, em um povoado próximo, chamado Banco Magdalena. Mais tarde seu estado se agravou e ele teve de ser transportado para Bogotá, a capital do país.
 

Em Bogotá, a primeira coisa que senti foi uma gana de vingança. Eu conhecia muitos dos assassinos e entre eles havia membros do exército e também civis membros de um grupo paramilitar. Eu só pensava em me recuperar, para depois poder fazer o mesmo que fizeram com a gente. Mas eu conheci uma ONG, chamada PDH, que me colocou em contato com a Anistia Internacional. Eles me orientaram a fazer uma denúncia contra as Forças Armadas e os paramilitares que haviam participado dos assassinatos. Depois que fiz esta denúncia, o Ministério das Relações Interiores da Colômbia me incluiu no Programa de Proteção a Testemunhas.

A recuperação de Gabriel levou três meses e, durante esse período, ele participou do primeiro julgamento, em que denunciou quarenta e duas pessoas. Dessas, vinte e seis foram condenadas. Quatorze eram membros das Forças Armadas. Aqueles que foram condenados no julgamento estão presos até hoje. Outros participantes do massacre foram assassinados. Porém as cabeças, os dirigentes que comandaram o crime, ainda estão livres.

À época do segundo julgamento, o Ministério já não sabia para onde levá-lo para que ele fosse mantido em segurança. Gabriel foi então transferido para as Casas Fiscales de Bogotá, onde passou a usar constantemente um colete à prova de balas. Mesmo sob proteção, o local foi invadido e ele recebeu sete tiros. Gabriel foi atingido por apenas um tiro, sem gravidade. O colete o protegera.

Depois deste atentado, ele foi transferido para a cidade de Armenia. Sua esposa estava na véspera para dar a luz e Gabriel passou a frequentar uma igreja local. Durante uma dessas visitas a igreja foi invadida por homens armados, que deram início a um tiroteio em meio aos fiéis que estavam no local. Ele fora encontrado.
 

A partir desse dia meus amigos me convenceram de que não havia mais proteção. Um funcionário da Cruz Vermelha me convenceu de que eu deveria buscar o respaldo da Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados). Eu o fiz imediatamente. Meu filho tinha apenas cinco dias. Tudo foi acertado o mais rápido possível e eu fui enviado para Quito, no Equador.

* Gabriel é colombiano, e atualmente vive refugiado na cidade de São Paulo. O nome do entrevistado foi trocado para proteger sua identidade.

Acompanhe a continuação dessa história no dia 3 de agosto.

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