Por SUZANA VIER

Conselhos preciosos

 “Have you finished?”, pergunto num inglês ainda sofrível.

 “Yeah!”, responde o teacher.

 “Que bom… tô cansada”, reforço em português o que o rosto expressa em qualquer idioma.

(Depois de vinte minutos) “Você não vai chegar muito tarde em casa? Já são 8 horas (da noite) e você mora do outro lado da cidade… questiono.

“Tô precisando relaxar. Então vamos falar sobre a sua vida, vou te dar um conselho: você precisa casar até os 37 anos, senão depois fica difícil. Filhos é melhor não ter! Não combina com a sua profissão. Mas um cachorro vai ser bom pra você. Um marido também: um homem que carregue um bonde por você, porque o homem sempre tem que gostar mais do que a mulher, senão…”, revela John, cheio da sabedoria de quem tem 75 anos e já deu aulas de inglês pra executivos e prostitutas.

Os conselhos de John são sempre muito bem-vindos… Chegar aos 75 anos em plena atividade profissional, física e até sexual não é pra qualquer um. Ele chegou lá. Então, ouço com atenção, ensaio uma meia-risada, aquela de quem quer rir, mas não pode.

Apesar do cansaço e do horário já avançado, do outro lado da mesa do escritório, John é só sorrisos. Há quinze dias, seu sorriso maroto ficou mais forte, mais aberto e seus lábios até ficaram mais avermelhados. Foi duro perder Tia Eugênia, mas a abertura do testamento da velhinha de noventa e tantos anos realizou o sonho de uma vida: John é um dos herdeiros de um belo apartamento em um bom bairro de São Paulo.

São Paulo para muitos pode parecer árida e cruel, mas para John é o quintal de sua casa. Aos 75 anos ele anda por todo lado, pega trem, metrô, ônibus lotado em horário de rush, anda a pé, se perde e se acha, porque não lembra direito muitos lugares por onde já andou.

O começo de tudo

Talvez John conheça e ame tanto a cidade, porque no dia em que resolveu nascer, não quis esperar e estreou no Viaduto do chá mesmo. Seus pais almoçavam, como toda boa família inglesa, em uma confeitaria no centro velho de São Paulo, quando as tropas legalistas e as de Vargas entraram em conflito, em 30 julho de 1932. Na fuga, a bolsa de Louise, mãe de John, estourou e o pequeno Johnny nasceu ali mesmo no Viaduto do Chá. 

 Cassinos e pôquer

Depois da abertura do testamento de Tia Eugênia, John é só alegria, prova de que tudo tem seu lado ruim e bom também, diz ele. Em dois anos de convivência para as sagradas e terríveis aulas de inglês, nunca vi o velhinho tão feliz. Ele era o fiel escudeiro de tia Eugênia e agora, graças à boa lembrança da parenta, pode aos 75 anos ter sua casinha para morar com a esposa, Del.

John, filho único de ingleses, não conseguiu juntar dinheiro, nem construir um patrimônio que o deixasse tranqüilo na velhice. O pai, Jean, até foi rico, em alguns momentos da vida, mas ganhava e perdia no jogo e não deixou nada para o filho.

A paixão pelo jogo era tão grande, que a inauguração do cassino de Copacabana foi o chamariz para Jean, pai de John, natural do Suriname, mudar-se para o Brasil com a esposa Louise, originária da Ilha de Barbados, no Caribe.

Jean foi um jogador de pôquer inveterado. “Papai era profissional, ganhava a vida jogando pôquer nos cassinos pelo mundo e no Brasil tudo começava a esquentar, então ele pensou ‘posso ganhar muito por lá’ e veio para o Brasil com mamãe”.

John afirma que como todo bom jogador de pôquer, Jean nunca adquiriu bens. Morava em mansões, mas sempre alugadas. “Passei minha infância na mansão das Perdizes, mas não era nossa. Sempre mudávamos para outra casa alugada. A vida de um jogador é assim: cheia de altos e baixos e muita emoção”.

Apesar de conviver com a comunidade inglesa de São Paulo, composta por famílias muito ricas, Jean nunca pensou em formar um patrimônio. A essa filosofia de vida do pai, de não se preocupar com o amanhã, John atribui sua forma de levar a vida, também preocupando-se unicamente com o sustento de hoje. “Vivo um dia de cada vez, se hoje for bom estou feliz. O amanhã é outra história. Aprendi isso com papai”.

Talvez por isso, John ainda nem tenha aposentadoria. “Tá saindo, não me apresse”, reclama ele quando o questiono sobre o assunto.

Olhar vívido

A aposentadoria ainda não saiu, John ainda trabalha para viver. Mantém-se graças ao método de ensino próprio da língua inglesa, que lhe garante pelo menos 15 alunos constantemente e sua colaboração na manutenção da casa.

Apesar do dinheiro curto, John não é desleixado. Cuida bem da barba branquinha e do cabelo que lhe sobrou. Para fugir do frio de São Paulo e das doenças que podem acometê-lo, aos 75 anos usa um bonezinho e mantém uma jaqueta sempre à mão. Como zeloso mestre da língua inglesa, carrega consigo duas bolsas antigas, com jeito de sacolas de feira, cheias de textos e apostilas preparadas especialmente para cada pupilo.

Já o corpo não acompanhou o dinamismo de John, o que o faz caminhar devagar com suas sacolas de texto por todo lugar. Levantar da cadeira, após cada aula, também é um sacrifício, mas o professor não se deixa abalar: “São só minhas perninhas que estão enferrujadas”.

O olhar vívido e otimista desse filho de estrangeiros é sua maior marca. Não importa dia, nem hora, John aparece com o que parece ser sua frase preferida. “Hello! Good morning. I´m wonderful!”. Ele é sem dúvida um sobrevivente, um amante da vida e da família, muito embora tanto otimismo leve alguns membros da família a considerá-lo meio lunático.

Folclore ao vivo e a cores

John é uma figura folclórica, às vezes parece ter saído de um antigo álbum de fotografia das décadas de 1940 e 50.

A mente arejada e moderna para lidar com alunos de todas as idades contrasta extremamente com as roupas antigas e pouco usuais. John surge constantemente com uma calça xadrez, que mescla marrom com bege, e camisa social xadrez em tons azuis. Às vezes, num rompante de modernidade estilística, ele também aparece usando moletom azul claro e camisa social xadrez. É impossível não compará-lo com o personagem Agostinho, vivido por Pedro Cardoso, no seriado da Rede Globo a Grande Família.

A filha, Paula, o compara ao personagem principal do filme Peixe-Grande, que passa a vida contando histórias que ninguém sabe se são verdadeiras ou não.

“Só outro dia minha mãe soube que o pai dele não era bem um exportador de café e sim um jogador profissional de pôquer. Eles estão juntos há 30 anos e minha mãe contava a história errada, dá pra acreditar?”

“Não é que meu pai não era exportador, ele era. Mas o principal era jogar pôquer. Ele veio ao Brasil pra isso.”

Paula é filha do segundo casamento de John.

O primeiro casamento, além de encomendado foi conturbado, com pouca vontade da noiva e morte em família.

 Casamento encomendado e o peixão na praia

Aos 18 anos, John foi apresentado à M. Alice, uma linda morena, de cabelos longos e olhos escuros que deixou o jovem extremamente interessado. Alice tinha apenas 15 anos e muita vontade de sumir de casa, por conta do irmão que sofria de perturbações mentais e já havia tentado matá-la a golpes de faca.

A moça era de uma importante família paulistana, e isso chamou a atenção da tia de John, Eugênia, que tratou de apresentá-los e fez o possível para que o relacionamento desse certo.

Já no dia do casamento, a noiva revela: “Não tolero você. Só estou casando para sair de casa.” John ficou atônito com a noiva, mas não desistiu do casamento, pelo menos no início.

Pouco tempo depois, o irmão de M. Alice, mata a esposa e se suicida e por pouco não mata a família toda. “Por sorte não havia ninguém em casa. Naquele dia cheguei atrasado do trabalho. Santo atraso”, revela John.

O casamento com M. Alice gerou um filho, Johnny, mas desandou logo com a presença constante da sogra, que na separação do casal, ainda conseguiu lhe tirar a casa.

Anos mais tarde, a ex-mulher morre de câncer e John, viúvo com apenas 44 anos, cheio de charme e muita lábia, caiu de amores por uma moça deitada na areia na Praia Grande, litoral de São Paulo. “Quando vi aquele peixão na praia, senti que era a mulher da minha vida. Ela tinha uns coxões…”.

Del, na época com 32 anos, tinha cabelo curto – que mantém até hoje –, corpo esguio, 1,65 de altura, olhos castanhos escuros, bochechas bem definidas, sorriso hipnotizante e muita vontade de deixar a solteirice. “Eu estava cansada de ser solteira, por isso aceitei casar e ao longo do tempo o amor surgiu”.

Com seu peixão, John está há 30 anos. Dessa união nasceu há 27 anos a ruivinha Paula.

A casa na qual a família mora é alugada e bastante modesta. A porta do banheiro é presa pelo lado de fora, a sala é bem organizada e confortável, a cozinha bem pequena e desarrumada. O quintal, rústico e improvisado, é palco da expressão artística de Del, que enche a sala com quadros de paisagens e flores, que complementam a renda da família.

Agora, Del e John se mobilizam para preparar a mudança para a nova casa: o antigo apartamento de Tia Eugênia, que o casal ocupará a partir de outubro.

Depois de perder a casa para a sogra, John estava próximo de comprar sua casinha, há nove anos, quando Paula adoeceu e mais uma vez o sonho foi adiado.

Câncer na família

Paula, a única filha do casal, aos 18 anos deu o maior susto da vida de John e Del. Aos 17 anos, a jovem um tanto roliça, deu ouvidos às amiguinhas da escola que sugeriram um regime. Para desespero do pai, ele mesmo levou um folheto que encontrou na USP – onde dava aulas de inglês -, divulgando um novo regime à base de saladas e um único bife por semana.

A determinação de Paula em fazer um regime extremamente drástico rendeu a ela e a toda a família muitos anos de desespero entre idas e vindas ao hospital.

Com 18 anos, Paula começou a desmaiar e em seguida diagnosticou-se anemia e leucemia.

A jovem passou sete meses desesperadores no hospital.

A leucemia acabou curada, mas desde então o sistema imunológico de Paula vive em crise e ela adoece facilmente. Apesar de não tocar nesse assunto diretamente com a moça, quando estive com a família, Paula expressou sua dor, ao viver nos últimos oito anos constantemente adoentada: “Me sinto com 70 anos, quero minha vida de volta, não agüento mais médico, hospital…”.

Além do desgaste emocional, financeiramente a família também ficou falida. À época John e Del estavam prestes a comprar uma casa própria, mas todo o dinheiro foi destinado às quimioterapias da filha.

 Bon Vivant

John foi ao longo da vida um bon vivant. “Ainda sou um bon vivant, mas velho e pobre. Sempre gostei das boas coisas da vida, bons lugares, boas mulheres…, mas depois do casamento com a Del me aposentei da boemia e da mulherada”.

Ele guarda ainda o jeito boêmio e conquistador. Seu meio sorriso ainda esboça um ar sarcástico e meio safado, amplamente desenvolvido nos tempos de relações públicas da Western Telegraph Company na década de 1960, quando acompanhava os jornalistas a boates e bares noturnos, e de professor de inglês das ‘damas de companhia’ – ele acha triste a palavra prostituta – da boate L´icorne, de Madame Laura, na década de 1970.

Exatamente nessa época em que lecionava inglês para as moças da boate de Madame Laura, John conta que escapou da morte.

Antes é bom esclarecer que as aulas se restringiam a ensinar as moças a falarem alguns palavrões e chavões sexuais em inglês para agradar os estrangeiros.

Antes de conhecer Del, John que à época era vendedor da Garavelo, mantinha um relacionamento fortuito com uma ex-acompanhante de executivos. Ao conhecer a atual esposa, encerrou o relacionamento e, mais tarde, quando voltou a encontrar a moça, ela recusou-se a sair com ele porque era portadora de Aids.

“Assim eu escapei da morte pela segunda vez. Mas eu ainda não tinha casado com a Del”, frisa o bon vivant.

John é visivelmente um romântico à moda antiga… “que apesar do velho terno e da calça desbotada ainda chama de querida a namorada…”

Por todo lado, ele espalha sua paixão por Del. Antes de conhecer a famosa esposa, eu já ouvia suas qualidades: “A Delzinha é linda, linda, linda, um peixão”.

Segredo de vitalidade

Manter-se trabalhando, ativo e participante, parece ser o segredo da disposição e consciência de John.

O professor de inglês de executivos de grandes bancos e de garotas de programa do centro de São Paulo, que já foi relações públicas, tradutor, supervisor de vendas, guia turístico de estrangeiros e até homem de confiança de uma dona de bordel, é a expressão do bom-humor e da resistência aos percalços da vida.

Independente da idade, ele e Del fazem planos “vamos morar na praia em alguns anos, mas primeiro preciso ensinar inglês pra você”, diz ele meio bravo com a minha performance na língua inglesa e já se despedindo para enfrentar o percurso de quase duas horas para sua casa.

Por hoje, ele encerrou a aula de inglês e a sessão de conselhos. Se na próxima semana eu receber novos bons conselhos de John, o Narravidas vai noticiar. Assim também esperamos pelos novos capítulos da vida de John, agora com casa quase-própria. Digo “quase” porque o apartamento também pertence a outros herdeiros. Vamos ver no que dá…

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