Por WAGNER HILÁRIO

O tanto que me preocupo contigo
é puro egoísmo,
pois sem ti
minha vida murcha;
rosa sem dona,
machucada no asfalto

“Cadê a mamãe?” A voz de Gabriel está embargada, a cara amassada da noite dormida.

“Foi trabalhar, filho”, respondo, grogue de sono.

“Eu quero a minha mãe!”, desaba em pranto; a face alva enrubescida e lavada em lágrimas.

Estamos na cama de casal em que adormeço ao lado de Priscilla e desperto ao lado de Gabo. Ela sai bem cedo de casa e, muitas vezes, antes de dar início ao seu dia de trabalho, tira-o do berço e o coloca ao meu lado.

Geralmente, ele acorda, e me acorda, disposto, risonho.

“Vamo pra sala”, fala.

Desta vez, não. Grita, como se canta, em choro, refrão de balada sobre abandono. Pego o celular e digo que ligarei para a “mamãe”. Não quer falar com ninguém. Aconchego-o ao meu peito; sinto nos dedos com que toco seu rosto o calor das bochechas e o melado de angústia que lhe desce dos olhos tensos.

Pesadelo, talvez… Como só tem três anos, é difícil entender pesadelo como ilusão. Não cabe explicação. Faltam a ele verbos para dizer o que houve. Abraço-o forte.

“Tá tudo bem. A mamãe foi trabalhar. Não precisa ficar assim. Não precisa.”

Ele me responde soluços.

Levanto, pego-o no colo e o levo para a sala. Coloco o DVD do Toy Story para que assista enquanto me arrumo para o trabalho. Seu rosto traz listras de lágrimas secas que resplandecem com a luz do dia vinda da varanda. Chove. Apenas os olhos de Gabriel parecem azuis na manhã cinza. Visto-o com casaco de capuz, desligo DVD, TV e levo-o para a casa da minha mãe. Deixo-o na sala ampla de casa de avó e me despeço com beijos. Vou embora, vendo-o debaixo de edredom e com uma mamadeira de Toddy na boca, assistindo Discovery Kids.

O tanto que me preocupo contigo
não é altruísmo,
pois sem teu estribilho
de pássaro escolhido
para a minha gaiola,
minha trilha perde o trilo

A primeira providência que tomo ao chegar à redação é ligar para Priscilla. Para o telefone fixo: toca, toca, toca e nada. Para o celular: caixa postal.

Oi, meu amor
Como está seu dia, como foi sua noite de sono, enfim, como anda?
Então, quero falar com você. Gostaria que ligasse para o Gabo. Ele acordou de manhã e me perguntou onde você estava. Eu disse que você tinha ido para o trabalho e ele desabou a chorar como nunca o vi chorar antes…
Escrevi para ela um e-mail. Sem resposta.

Priscilla sai de casa às cinco e meia da manhã todos os dias e espera o fretado que a leva de Guarulhos para Santo Amaro em ponto de ônibus na frente do prédio em que moramos. Quando Gabriel acordou assustado, eram sete e meia da manhã. A essa hora, ela ainda estaria no fretado.

Não digo que depois das ligações malsucedidas que fiz da redação, entre nove horas e meio-dia, comecei a pensar no pior. Fiz isso muito antes. Para dizer a verdade, fiz desde o instante em que trouxe o Gabriel ao peito e procurei tranqüilizá-lo. Confesso que me tranqüilizei, parcialmente, quando o vi mamando, concentrado nos desenhos, na casa da avó. Nem as ligações que fiz para os ramais de colegas dela ajudaram muito. Tocaram, tocaram e nada.

“Estão em reunião”, pensei, sensato. Mas logo o faro para a catástrofe se incumbiu de me tragar para os pensamentos ruins.

Meu temor se explica: o amor para mim nunca foi tarefa simples. Abrir mão dos meus prazeres egoístas para repartir-me com alguém demandou grande esforço. Realizei o sacrifício pela Priscilla, o que me encheu e ainda me enche de orgulho, embora também de responsabilidades. Habituei-me a ser dois e, mais adiante, três. Por isso, resfolegava-me pensar que esse ser tripartite poderia sofrer subtração acidental, criminal ou de qualquer espécie.

Mudar sabendo que a mudança é a melhor opção já é traumático. Por imposição do destino, pela ditadura das circunstâncias, é pior do que chá de boldo frio, até porque não há ressaca nenhuma a ser curada.

Se ela morresse, como eu seguiria com nosso fruto? Sei que seguiria, não tenho dúvida, mas como? Como, sem o perfume doce de seus cabelos, vinho suave em minhas manhãs, servindo-me pelo seu travesseiro? Como faria para entregar-me outra vez a alguém?

O tanto que me preocupo contigo
não é sexto sentido
pois a prata
da grade em que te aprisiono
perde o lume
sem teu colorido

Às duas horas da tarde, o telefone da redação tocou.

“Oi, Wá.” Graças a Deus!

“Porra! Onde cê tava?”

“Em reunião”

“Recebeu meu e-mail?”

“Sim, mas acabei de chegar na minha mesa. Não consegui ler.”

“Fiquei preocupado com você.”

Então, contei-lhe a história toda, ao que ela respondeu, ansiosa, que ligaria para ele, imediatamente.

Desliguei, tranqüilo, enfim. A partir dali, poderia concentrar-me no trabalho. Assim fiz até as cinco da tarde, quando saí da redação sob o pretexto de comprar pão para o povo da redação, mas encarei a caminhada até a padaria mais como boa oportunidade para espairecer, sentir o resto de sol de outono que varria o frio da tarde, cantar em voz baixa refrãos de canções alegres e dar vazão ao poema que se precipitava como rescaldo da minha paranóia.

De volta à minha mesa, antes de comer o pão italiano, já em fatias, besuntado com patê de alho, disparei contra o monitor os versos que espelhavam meu medo e que granularam este texto.

O tanto que contigo me preocupo
é soluço
é solidão
que guardo comigo
no escuro da alma;
da casa, o porão

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