Por LUCIANA TADDEO 

Na hora marcada, Maria Aparecida Fraccari me aguardava na porta do prédio de dois andares em que mora, próximo à estação Bresser do metrô, na zona leste de São Paulo. Podia-se perceber sua ansiedade e satisfação com a visita. Subi a escadaria que acaba na entrada de seu apartamento, entrei e me sentei à mesa no centro da sala.

Dona Cida pediu um minuto e sumiu no corredor. Voltou com álbuns e, com os olhos brilhando de orgulho, começou a contar do tempo em que trabalhou na General Motors, ao mesmo tempo em que espalhava fotos em preto-e-branco pela mesa. Destacou, do meio dos papéis, um rascunho escrito à mão. Era a matriz de cartas enviadas para as firmas que anunciaram vagas de emprego no jornal daquele 26 de maio de 1941. O papel, já amarelo, era tão ralo que dava medo de desfazê-lo no contato com as mãos. A caligrafia, impecável. O português, um pouco diferente do contemporâneo em detalhes como “hontem” e “n’ O Estado de S. Paulo”. Enquanto eu tentava desvendar algumas letras já ilegíveis pelas manchas amarronzadas de mofo, ela acompanhava em volume baixinho a leitura de trechos. Talvez pela quantidade de vezes que reproduziu as palavras, ou, como indicava a fragilidade do papel, pelas tantas que as releu, a última frase continuava intacta em sua memória: “E no caso de V.S. me dar preferencia não saberei poupar esforços para desempenhar a contento tudo quanto me fôr confiado”, declarou, ampliando a voz.

Três dias depois, a resposta: “Pedimos-lhe o obséquio de apresentar-se aqui, em nossos Escritórios, segunda-feira, dia 2 de Junho proximo, ás 9 horas, afim de submeter-se á prova de datilografia”.

– Eu nem sabia que a fábrica era em São Caetano do Sul. Mandei para todas as empresas do jornal. Quando vi aquele portão grande da GM, pensei: “Esse lugar não é para mim. Eu não tenho dinheiro”.

Resolveu que recusaria o emprego. Com seu uniforme da Escola Profissional, entrou no escritório a procura do responsável pela admissão de faturista, vaga para a qual se candidatara. Ouviu um homem perguntar, em referência à saia xadrez de pregas, blusa branca e terninho que usava:

– Agora estão contratando colegiais para trabalhar aqui?
Constrangeu-se.

– Foi você que escreveu aquela carta bonita? – perguntou “Seu Margarido”, então gerente do departamento de peças.

– Se é bonita eu não sei, mas fui eu sim – respondeu ela, que acabou fazendo a prova de datilografia.

– Fiz tudo bonitinho para não rasgar o papel, mas nem pensei que seria chamada. Oito dias depois, me ligaram.

Não se sabe o que fez Dona Cida mudar de idéia e aceitar a vaga, mas o emprego na GM parece ser uma coisa das que ela mais orgulha na vida. Foi uma das primeiras mulheres a trabalhar na empresa brasileira da multinacional.

– Ainda sinto como se trabalhasse lá.

O ofício lhe rendeu grandes amigos, com os quais se corresponde até hoje. O salário que recebia na amostragem de novos tecidos em uma tecelagem não lhe dava plenas condições de pagar as contas, e ela saiu em busca de uma oportunidade melhor. Alguns anos depois da admissão, porém ela teve de deixar a GM para se dedicar inteiramente à mãe, com quem morava sozinha desde que suas irmãs saíram de casa para se casar. Uma delas, para se tornar irmã salesiana. Desta, a experiência frustrada resultou em forte depressão.

– Minha irmã ficava o dia inteiro chorando e eu não podia contar com ela. Minha mãe nunca ficou de cama e bordou até os 95 anos, mas precisava de mim e morreu chamando meu nome.

Por esse motivo, Dona Cida não se casou.

– Nem com o americano que queria me levar embora – enfatiza, em particular, quando questionada sobre a opção pela vida de solteira.

O americano era um funcionário da GM dos Estados Unidos que se apaixonou por ela. Por diversas vezes convidou Dona Cida para morar em seu país e pediu sua mão em casamento. A resposta sempre foi negativa.

– Precisava ficar com minha mãe.

Às vésperas de completar 90 anos, Maria Aparecida ocupa-se para driblar a solidão. Acorda todos os dias às 5 horas da manhã e às 7h15 já está com os pés na rua. De segunda a sábado, assiste à missa das nove na Igreja São Judas, da qual é responsável pela leitura dos salmos e pela distribuição dos folhetos da cerimônia. Aos domingos, prefere não pegar o metrô para caminhar 8 quarteirões até a Igreja São José do Belém.

– Ando com a cabeça bem levantada e com os ombros para trás. Um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro…

Difícil imaginar Dona Cida com os ombros para trás. Seu um metro e meio de altura ficaram ainda menores à medida que o tempo foi envergando suas costas. Ela não anda com dificuldade, mas devagar. Às vezes, sente dor nos pés por conta de seus segundos e terceiros dedos sobrepostos.

– Um dia eu acordei e eles estavam assim, doloridos e encavalados. O médico disse que não tinha o que fazer.

Dia desses foi derrubada na calçada por uma mulher passou apressada. Um vendedor da região a pegou no colo e a levou para dentro de sua loja para cuidar dos ferimentos. Além da roxidão no nariz, formaram-se casquinhas de ferida no queixo e na delicada pele, já um tanto enrugada, do buço de Dona Cida. Ela acredita que só não perdeu todos os dentes “porque meu anjo da guarda está sempre comigo”.

A religiosidade esteve presente desde cedo em sua vida. Seu pai, Ricardo Fraccari, se mudou de Veneza para o Brasil e virou sacristão da igreja de Santa Branca, cidade do Vale do Paraíba. Assim como a irmã, ela também desejava tornar-se uma salesiana. Mas o sonho foi suspenso.

– Precisava cuidar da minha mãe.

Mas há 27 anos, a mãe de Dona Cida faleceu.

– Há 27 anos eu estou sozinha.

– Você recebe muitas visitas?

– Não, ninguém vem aqui. E você sumiu, por que não vem me visitar?

As pessoas com quem Dona Cida mais tem contato são os padres das igrejas, a quem considera amigos. Sempre que chega à igreja, eles estendem a mão à espera dos pacotes de bala de limão que ela leva consigo. Mas as balas são só para eles, porque Dona Cida controla bem a alimentação. Até saiu no jornalzinho da igreja como um exemplo para a terceira idade. Uma das comidas que mais gosta de fazer é o antepasto da sua mãe, Imma Ragazzi Fraccari, italiana natural de Modena.

Apesar de se orgulhar da dieta e divulgá-la como o segredo do bem-estar e longevidade, a vida vegetariana tem um custo: a ida à feira. Carrega sacolas lotadas de frutas e legumes sem a ajuda de ninguém. Esforço que se intensifica na subida os 20 degraus do prédio.
A rua em que Dona Cida vive é pouco movimentada. Ela sabe que o apartamento é grande para apenas uma pessoa e quer se mudar. Por enquanto, é nele que passa tardes inteiras bordando na companhia dos locutores da rádio Nove de Julho ou dos programas religiosos da Rede Vida de televisão.

As habilidades manuais, desenvolvidas a partir dos oito anos de idade, quando aprendeu a bordar, servem para fazer o bem: ela já costurou meias para os pracinhas da 2ª Guerra Mundial e há mais de 40 anos confecciona roupas para crianças carentes e deficientes. Muitas toalhinhas que decoram as igrejas da cidade também levam o capricho de seu bordado.
Certa vez, assistia uma missa e um padre perguntou se ela havia feito a do altar.

– Como o senhor sabe?

– O bordado é igual ao da gola da sua roupa.

Dona Cida se envaideceu. Modéstia, a propósito, não é uma de suas preocupações quando fala de realizações.

– Então quer dizer que você vai escrever sobre a minha vida? – sorri, maliciosa.
A efemeridade do tempo parece não assustá-la. A última de suas irmãs morreu aos 98 anos. Em um caderninho de datas, ela anota os nomes dos conhecidos que já se foram e os aniversário dos que ainda estão vivos, para lembrar-se de rezar para todo mundo. Mais que o medo da ferocidade do tempo, ela se assusta com a perda dos antigos valores, aos quais é apegada.

– Não me arrependo de não ter casado, ainda mais no mundo de hoje. As pessoas têm filho antes de casar e três anos depois se separam. É um absurdo. Imagina essas grávidas com a barriga de fora? É um desrespeito com o bebê.

Apesar de, por vezes, admitir a solidão, baixando seus expressivos olhos azuis para o chão, no dia-a-dia é falastrona e esparrama a energia e alegria que lhe são características e que a tornam extremamente cativante.

– Quando algum rapaz se levanta para me dar lugar no metrô, eu pergunto: “Você está me chamando de velha? Você acha que 90 anos é muita coisa?”. Todo mundo dá risada.

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