Por ERIKA MORAIS

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Tiozinho com seu conjunto de oncinha

Na Rua Augusta…

Da mesma forma que ele aparece, some rápido e chamativo como um relâmpago. Algumas vezes dá o ar da graça por um tempo maior, circulando entre as mesas, sempre sorrindo com aquela grande quantidade de dentes exposta, conversando com o caixa, abrindo o freezer e pegando uma cerveja gelada, cumprimentando os mais chegados e sempre contando algumas de suas muitas histórias.

Rua Augusta, sentido ao Centro de São Paulo, pessoas de todos os tipos, raças, credos e opções sexuais circulam pela região, famosa por suas casas de shows eróticos, saunas e pelas garotas de poucas roupas se inclinando em vidros de carros na lida de cada dia, é uma das principais vias arteriais da cidade. Quanto mais “sentido Centro”, mais garotas e mais neons, mas a duas quadras da Avenida Paulista, na Augusta com a Antonio Carlos, com menos neon, mas tantos personagens quanto, o bar/lanchonete Charm tem suas mesas disputadas constantemente, principalmente nas noites de fim de semana.

O local serve de ponto de encontro para os freqüentadores dos cinemas da região, para o início da noite de quem vai a clubes como o Outs, Sarajevo, Vegas e tantos outros e para o bom e velho bate-papo entre amigos. O Charm é também o quintal da casa de Jader. Jader? Quem é Jader? Se perguntar aos freqüentadores do local, poucos saberão responder, mas se perguntar pelo Tiozinho do Pijama…

O Tiozinho

Pijama, como é mais conhecido, freqüenta o Charm há aproximadamente um ano, o tempo que vive na região, na Rua Frei Caneca. Os garçons acham que ele é “meio louco, mas é gente boa” e confessam que nesse um ano, nunca o viram sem a famosa indumentária.

Apesar de estar “no quintal de casa” no Charm, o Tiozinho freqüenta as ruas da cidade, anda de metrô e vai ao trabalho em um órgão público sempre de pijama e confessa que já passou pelas mais diversas situações: – Na Paulista já veio um cara engravatado e me abraçou e me deu um beijo; outro dia veio um “maluco” na minha direção, e eu achando que ele tava me curtindo, o cara veio e me deu um murro na cara, vai entender?
Na verdade é preciso corrigir algo crucial no conceito: não é pijama, é CONJUNTO, o título de Pijama venceu pelo cansaço e um pouco de marketing é claro.

Jader Davila, filho de mãe alemã e pai espanhol, nascido no estado do Rio Grande do Sul, depois de circular por muitas cidades mundo afora, fixa residência em São Paulo nos anos de 1980 onde se torna funcionário público, com a função de distribuir a correspondência interna do órgão. Com a cultura hippie ainda impregnada, Jader é acusado de não se vestir adequadamente no seu posto de trabalho – Eu andava mulambento, diz. Até que um dia recebeu um ultimato do chefe que diz a Jader que ele deveria se vestir de uma forma “chique”.
– Eu não sabia o que era ser chique, aí comprei umas revistas femininas, porque as mulheres entendem bem dessa coisa de ser chique, e percebi que elas gostam bastante de conjuntos. Desde então passei a usá-los.
No começo era exigido que o conjunto fosse liso, mas com a chegada de um novo chefe, dessa vez mulher, os conjuntos estampados foram prontamente aprovados e Jader garante que as mulheres adoram, o que o deixa profundamente satisfeito.

Estórias do Pijama

Formado em Direito, nosso personagem não exerce a profissão e no auge dos anos 1970, inspirado pelos ideais de Paz & Amor, cai na estrada e percorre cidades como Caracas, Los Angeles, Rio de Janeiro e a aldeia hippie de Arembepe, na Bahia. E é nesta última que conta uma de suas mais emblemáticas histórias: quando conheceu Mick Jagger e Keith Richards do Rolling Stones. Jader, que nessa época não usava seus conjuntos, diz que quando morava em Arembepe, conheceu os Stones e os levou para um terreiro de candomblé. “Os caras piraram com aquilo, aí, dois anos depois saiu o disco com a música Sympaty for the Devil, com aquela percussão louca no começo.” Bem, Jader disse que o fato aconteceu “nos 70” e Beggars Banquet, o disco com a famosa música, foi lançado em 1968 e é bem verdade que os Stones afirmam ter feito a música depois de conhecer um terreiro de candomblé na Bahia, portanto, segundo a versão de Jader, um dos maiores hits do rock n’ roll mundial tem de certa forma, um dedo seu.

Em 1973, com pouco mais de 20 anos, viveu em Los Angeles e precisando trabalhar conseguiu uma vaga de segurança no show do Led Zeppelin, o “Ledão”, como ele diz. Sua função como segurança era observar o público e impedir qualquer confusão e que o público utilizasse qualquer tipo de drogas, menos as injetáveis. Gostou do show, principalmente quando o “Ledão” tocou as músicas menos conhecidas, mas uma história contada pelo Jader não seria tão simples. Na passagem de som “o mais simpático” da banda conversou com os seguranças: – James Page disse que comprou umas terras em volta do Lago Ness e deixou lá com os caseiros, o pessoal de lá… Só que antes de ele comprar essas terras, funcionavam umas destilarias de uísque no lugar e elas continuaram a fabricação e todo ano chegavam caixas e mais caixas de uísque na mansão do James Page, por isso ele dava aquelas festas que todo mundo queria ir, porque tinha uísque demais.

O Tiozinho do Pijama arregala os olhos, balança a cabeça afirmativamente, levanta o dedão em sinal de positivo e coloca os dentes pra fora cada vez que termina uma história e, como forma de retribuição pelos ouvidos e atenção presente diz: – mas o que eu queria falar mesmo… posso contar essa, quer ouvir?

A repercussão

É comum escutar que “em São Paulo tem de tudo” e o Tiozinho do Pijama faz parte desse mosaico da Metrópole. Sua presença causa as mais diversas sensações, e em uma comunidade na internet, um tópico foi criado em cima da curiosidade sobre essa “figura” e as mais diversas opiniões são expostas. “Excêntrico”, “engraçado”, “de vanguarda”, são algumas das expressões utilizadas para tornar o personagem cada vez mais lendário. Na comunidade virtual também é comentado com entusiasmo pelos participantes, sobre cada vestimenta com que o Tiozinho foi visto e alguns até arriscam a possibilidade de se tornarem adeptos dos famosos conjuntos.

Na mesa ao lado o Tiozinho mostra alegremente para um grupo interessado como o tênis, a armação dos óculos e a pulseira do relógio fazem par com o Conjunto/Pijama. Não é simplesmente a roupa, os acessórios não só complementam o estilo, como na maioria das vezes são determinantes para a composição do visual, e Jader já perdeu as contas de quantos conjuntos tem em seu guarda-roupa.

Quando questionado sobre o possível investimento financeiro para poder manter o armário sempre renovado Jader se espanta e aponta para o ouvinte sentado a sua frente: – Essa camiseta deve ter custado uns R$ 20, a calça uns R$ 30, meu conjunto custou R$ 13.

Jader diz que sua renda não parte unicamente do serviço público, seu espírito empreendedor o faz sócio em diversos segmentos. Quais por exemplo? – Se alguém for muito bom em alguma coisa e me convencer disso, faço um investimento no negócio e fico com parte dos lucros. Tenho investimentos com um salão de cabeleireiros, uma pessoa que traz queijo de Minas e revende para pizzarias, com banca de jornal…

Formando o conjunto

O Tiozinho mais comentado da região afirma acompanhar aulas de chinês no Departamento de Letras da USP, diz que quer aprender a língua para negociar melhor com os comerciantes no Brás. Nas ruas de um dos bairros de comercio popular mais movimentado de São Paulo o Tiozinho do Pijama escolhe uma armação de óculos e, normalmente, a partir dela busca a estampa mais próxima, muitas vezes idêntica e o relógio vem na seqüência. Quando encontra uma caneta ou guarda-chuva nas mesmas cores e estampas, não deixa a oportunidade passar, como no caso do conjunto de Zebra, além do tênis branco com as listras negras, o charme de tirar uma caneta com a mesma estampa do bolso para anotar seu e-mail, tiozinhodopijama@___.com.br, para alguém, não poderia ser desperdiçado, de forma alguma.

Uma de suas “séries” preferidas é justamente a com estampas de animais e se orgulha ao dizer que quando chegou ao Charm com o conjunto de “oncinha” pela primeira vez, um silêncio profundo tomou conta do lugar e todos os olhos se voltaram para ele.
Com o tecido em mãos, Jader chega a seu apartamento e com o molde que já possui, ele mesmo corta o tecido. Nos dias quentes o modelo é o de bermuda e blusa de botão de mangas curtas, no inverno, calça e mangas cumpridas, depois, é só levar ao costureiro.

Mais estórias

Nem todas as conversas do Tiozinho são mirabolantes, mas certamente prendem a atenção. Diz que tem 6 filhos espalhados por aí, mas “oficialmente” são 2. O mais velho tem 30 anos e Jader conta como o conheceu com a mesma fisionomia sorridente de quem conta as fantásticas histórias de hippie mochileiro viajando de trem, dormindo em praças e experimentando muito do que “os 70” pôde oferecer. Depois de um affair, “nos 70”, o cabeludo Jader foi visitar a moça em sua casa, quando deu de cara com o pai militar e levou um soco de cheio no rosto, com a promessa de que teria bem mais se não se afastasse de sua filha. Foi quando decidiu passar um tempo em Caracas, na Venezuela. Há 15 anos, Jader foi até um cinema na Consolação e na fila encontrou aquela moça cujo pai praticamente o empurrou para a Venezuela. Empolgado, foi falar com ela, que olhou para o rapaz ao seu lado e disse: – Esse é seu pai. Com a mesma cabeça balançando afirmativamente, os dentes de fora, disse que tirou os dois dali e foram tomar uma cerveja e conversar.

A Teoria da Terra Triangular

Com mais de 50 anos de idade, o Tiozinho do Pijama impressiona pela jovialidade, não só por seus conjuntos, mas pelo aspecto físico disposto, denunciado pelos movimentos rápidos, elétricos, além do linguajar, como quando vai dizer que algo foi gratuito diz que foi “na faixa” e gesticula como uma faixa transpassando o tronco. Possui estatura mediana, pele clara e cabelos esbranquiçados não tão abundantes como “nos 70”, uma década que parece não ter fim para ele. Mas nosso personagem não está preso ao passado e demonstra isso nos conhecimentos de ficção científica e em sua teoria de que “A Terra é Triangular”.

Com um pedaço de guardanapo na mão, Jader desenha não um triângulo, mas uma estrela, como diz “a estrela da Mercedes” e explica: Tá vendo a estrela de três pontas, como a da Mercedes? E aponta: nesta ponta está o Himalaia, aqui os Andes e na outra os Alpes Europeus. Em volta, água. Esta é a Terra. Gostou da minha teoria?

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