Por FELIPE MODENESE 

– Iiiiii… I num é ki deu doi jacaré mémo. Viiiixxxeee Maria, húme! Óh lá, óhh! Jacaré é môte, né?! Num é isso mémo? É um pela côsa lá de Sum Palo e ôto pelo hume de hoje! ACM murreu às unze hora. Grande hómem… Ave Maria.

– É mémo! Num tinha notado não! Ó só! I eu ki sunhei cum duas muié se agarrano hoje di noiti. E muié cum muié o cê sabe, né?! Só póde dá jacaré! – disse a senhora.

O branco do giz da lousa na varanda de Dona Carmem revela muito. Não profecias, ou visões de bolas de cristal, tarô, búzios, mas números… Entalhados pelos acontecimentos mundanos e de símbolos oníricos. Sobre os quatro algarismos paira tanta criatividade associativa, urros e gritos pela falta de lucidez interpretativa, um caleidoscópio majestoso de sabedoria popular.

O apocalíptico acidente da airbus em Congonhas não poderia ficar de fora dos reflexos em algarismos… Muito menos a morte de um dos mais grandiosos (em alcance e profundidade no imaginário popular, por favor, eihn?!) políticos da Bahia, o magistral ACM, falecendo na sexta, 19 de julho de 2007. Duas mortes, dois jacarés, dentre os cinco quartetos de números que saíram no sorteio do meio-dia.

A senhora de óculos e cabelo grisalho bem preso derrama-se numa bancada de madeira em uma varanda, tendo como plano de fundo uma lousa verde-musgo e, como primeiro plano, costas de tantos homens (muitos de uniforme) a admirar a lousa, anotar, puxar pedaços de papel e esperar seu momento de atenção. Não poderia haver melhor forma de conhecer tal senhora do que fazer ali o meu primeiro Jogo de Bicho – o único Jogo Brasileiro, como diz a tabela ilustrada ao lado daquilo que mais parece uma janela verde para a Verdade Transcendental do cotidiano.
 
A meu caminho diário para a praia de Imbassaí, a cena destacou-se demais e pediu aproximação. Olhei por uns bons dias até que a coragem bateu: ainda virgem nos assuntos do Jogo (mais por preconceito que falta de oportunidade para menino do interior), perguntei. Dona Carmem deu aquela explicada de soslaio e compus:

3542 – Cobra com Cavalo

Sempre gostei muito de cavalo. Além disso, Phylhippus  – do que deriva meu nome – vem de Phyll = amigo e Hippus = Cavalo… E cobra…bem…cobra assusta o cavalo… Um pouco de tensão para meu primeiro Jogo.

Dona Carmem passa os Jogos feitos para a “banca” – sobre o que preferi não perguntar… – por fax, três vezes ao dia: 12, 15 e 19 horas. Os números sorteados também chegam por fax e passam para o verde musgo. Os mais ansiosos (ou preguiçosos) podem também ligar para um número de telefone 24 horas: os “prêmios” são ouvidos de graça. O Jogo das 21 Dona Carmem não faz: “Eu num pêco mais meu hurário di lazê, não!”.

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Aos 75 anos, Dona Carmem não falha com números de dois dígitos: 10 filhos, 31 netos, 18 bisnetos e 72 afilhados. Muito além de qualquer bicho que possam significar, esses algarismos são um lampejo do carinho e do eixo que Dona Carmem é para a vida de Imbassaí, a 70 km ao norte de Salvador. Nem por 05 minutos consegui conversar com a senhora (com dois dentes: um superior e o de baixo, bem firmes e nem o mínimo tímidos…) sem uma das filhas, filhos ou netos aparecer na varanda, vindos de dentro ou fora… e trocar ao menos um olhar de benção.

São tantos netos quantos foram os anos de magistério:

– Cunsiguí dá aula pra tudo meus fio. Bem aqui, óh! Nessa escola aí! Mai educá mémo, a hente educa im casa!

Seu Antonio é filho de um italiano fazendeiro da região. Dona Carmem, aos 17, veio passear de Salvador e encantou o homem… Casaram-se 06 meses depois e há 57 anos. 08 dos filhos moram aglutinados aos pais, empoleirados. Os outros, em Mata de São João, município a que Imbassaí pertence. Ninguém quer sair de perto da Dona.

– Fui visitá meus fio lá em Mata e juguei minha primera veiz, um pôco antes de aposentá. Ganhei na cabeça! É sim, hume! Dei pros minino lá da cidade e quando vortei nu ôtro dia, num dava nem pra entrá na casa de tanta festerê!

Entre um número passado e outro para as colunas na folha de sulfite que será faxeada para a “banca”, Dona Carmem olha seu relógio ao lado da rota fitinha vermelha do Bonfim. Uma neta traz as panelas do acarajé para a bancada em frente à varanda. O último filho, Ricardo, sai de casa avisando que vai levar o Siena vermelho 0 km para lavar.

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– Dei a intrada du meu carro nu Jogo. I si Deus quisé, vô quitá ele tudinho!
(O “meu carro” sendo repetido algumas vezes na conversa… com o “meu” bem firme…)
(…)

– Inferno?! Inferno é aqui, óh! Pétinho aí, óh! Essa sujêra toda aí, óh! Essa miséra, esses pulíticu tudu aí, óh! É aqui mémo! É aqui, óh!

(…)

– Deus?! Óxente!!! Deus ixisti, minino! É o Divino Ispíritu Santo. E ele num arreda daqui. Graças a Deus! Deus é tudo… é amô. Sô católica, mas num tenho custumi de í na igreja. Mas Deus é tudo! Pra o cê vê como ele tá aqui, ó só…

E a senhora conta que há mais ou menos um mês, bem um Jogo que perdeu de passar para a sulfite ganhou na cabeça. O ganhador ficou furibundo e Dona Carmem ficou com o ônus do prêmio: teve que pagar 3 mil… na bucha. Pois não foi que, no sábado dia 21, ganhou na cabeça também! E assim ficou tudo quitado. Foi no Jogo das 15 horas.

– A placa du meu carro é 3656. Risuvi jogá nele: 3556, 3665 e, na útima hora culuquei  um 6: 3666. Aí pronto, foi côsa di Deus, num é?!

Com certas coisas não se brinca: dei um nó na língua quando ia falar do 666 final…

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