Os dispostos

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Por FRED LINARDI 

Juntar tudo e todos numa coisa só: foi isso que o jovem Fernando Anitelli quis fazer há quase três anos, quando teve a idéia de formar a trupe. Tinha a intenção de trazer palavras que corressem em paralelo à pressa do mundo de hoje, onde pessoas perderam a prática de se comunicar com os olhos, com as palavras simples e gestos sinceros. E, caminhando contra as normalidades do meio social, assim como do meio musical, foi ao estúdio e gravou um álbum todo, com dezenove faixas, contando com amigos de saraus.

Naquela época, juntando um dinheiro entre vários tipos de trabalhos como aulas de inglês, o máximo que Fernando conseguira fora comprar a metade de um apartamento cujo valor foi dividido com seus pais, para poder morar sozinho. Mas a aposta pelo projeto do Teatro Mágico foi cara e o músico se viu entre uma pausa em sua vida, entre virgulas. E essa má gramática o pôs diante do mesmo apartamento, vazio, pronto para vendê-lo e retornar à casa dos pais.

No dia em que foi pintar o apartamento, tomou-se pelo desânimo. Deu um intervalo na pintura e falou com seu pai, que o ajudava a neutralizar as paredes. Envolto pelo cheiro de tinta, Fernando lembrava de tudo que já havia feito, nas parcerias que não deram certo e nas pessoas que não conseguiram seguir com ele.

– Sabe pai, eu estava pensando aqui… Dizem que os opostos se atraem, mas não é nada disso, coisa nenhuma. Na verdade, os opostos se distraem…
– Ué, filho. Se os opostos se distraem, os dispostos se atraem…

Odácio, pai de Anitelli, completou o raciocínio do filho, mas nem ligou para o que havia acabado de dizer. Sempre costumou fazer trocadilhos com tudo, mas nunca deu muita confiança para isso. Enquanto ele se esquecia de sua frase, Fernando comemorava em pensamento “É isso! É claro que é isso! Se os opostos se distraem, os dispostos se atraem”.

Hoje, sobre o palco, ele inverte o sentido da clássica lei da física e o público entra numa sinergia maior ainda. Tão logo, Anitelli indica, fazendo graça, que o autor daquela frase é aquele senhorzinho careca da banca de CDs e camisetas que fica sempre na entrada dos shows.

A ligação entre o pai e o filho é facilmente visível e essa proximidade foi sempre assim. Por sua vez, a mãe e professora de educação física aposentada, Dona Delmina, sempre foi mais pé no chão. Admirava o talento e a criatividade do filho, mas assumia a função de trazê-lo a realidade da vida. Isso explica o fato de ela não acompanhar tantos shows do Teatro Mágico pessoalmente e ficar em casa fazendo todas as planilhas de gastos e entradas nas finanças da trupe.

Odácio é formado em letras e também foi professor. Mas pouco tempo depois de ter se mudado com a família de Presidente Prudente para Osasco, deixou as aulas e passou a se ocupar somente numa empresa bancária, onde trabalhava no departamento de pessoal. Mas as letras continuaram presentes no velho hábito de brincar com as palavras. Mas eu sou meio que o saco de pancadas lá em casa. Meus trocadilhos não têm muita graça e ninguém leva muito a sério. No máximo sai um “han” depois que falo algum deles.

E, sobre aquela tarde em que pai e filho pintavam a parede do apartamento, Seu Odácio assume que completou a frase e logo se esqueceu, sem dar importância nenhuma. Depois de meses, Fernando voltou com tudo, já com a trupe em formação e com a frase que usaria como um slogan para o Teatro Mágico. Os opostos se distraem, os dispostos se atraem.

Até a empregada que trabalha na casa da família Anitelli foi inspiração ao palhaço do Teatro Mágico. As palavras que a Josilene dizia de forma errada foram entendidas por ele como um exemplo que deveria ser seguido pelos poetas: o de criar novas palavras. A homenagem se fez na música “Zaluzejo”, um forró onde aparece uma infinidade de palavras ditas segundo a maneira de Josilene, além de crenças que habitam a cabeça da divertida musa inspiradora. E quem desconfiava da sua existência, deparou-se com a participação da própria no show que comemorou dois anos da trupe.

* Veja a primeira parte dessa história: Para raros…para todos.

No dia 13 de agosto, veja a trupe preparando o palco para que tudo dê certo. Até lá, sugiro a leitura de O Lobo da Estepe, do autor Herman Hesse. Mas antes, deixe comentário aqui no Narravidas!

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