Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

 – Oi, Déia, como você tá?
– Oi, querida. Tá tudo bem, e você?

No MSN, procuro por Andréia para me distanciar do trabalho que me entedia. Saber que ela tá mais animada me deixa feliz. Mas quando Déia andou em crise, eu comemorei. É sinal de inteligência, maturidade. Ou alguém que tenha sensibilidade pode ser completamente feliz e estar sempre rindo neste mundo?

Gosto dela porque é um doce, me ouve, mas gosto basicamente de Déia porque ela me conta sem rodeios, em meio ao turbilhão de uma tarde de trabalho, que às vezes chora convulsivamente sem saber bem por quê… Recém-casada, implica com o marido, tem vontade de largar tudo e sair correndo porta afora, ganhar mundo.

Essa é Déia, aí está um pouco de mim também.

Agora está mais animada, parece. Fico mais feliz ainda. Está em embate com o mundo, é seu processo de autoconhecimento.

– Ontem liguei para a Lu e a gente conversou bastante. Ela me deu umas broncas carinhosas… parece que é ela a irmã mais velha! Disse que eu tinha de parar de me lamentar e ser feliz com o que eu já conquistei. A vida é curta, ela me lembrou…

– E é mesmo, não, Déia? A Lu é minha “ídala”, minha mestra! Graande Luísa…

Déia me conta que ela, Lu, que sempre lhe dá forças, também passa por uma fase braba.

– Ah, ela também pena… É o Davi… Sabe qual foi a última dele? No dia das mães disse que não queria que ela fosse na festa da escola… falou “pra que ela ir? Minha mãe não pode ver o desenho que eu fiz nem pode comer o bolo que nós preparamos pra festa”.

Estarreci. Meus dedos pararam de teclar. O que eu poderia escrever?

– Ela chorou muito, mas sabe que o problema ali é o pai, né? O Davi sente falta dele, ele é omisso demais… aí o menino ataca a Luísa… Ela ficou muito triste, mas depois de um tempo já estava mais tranqüila. Disse que resolveu procurar um psicólogo pra ela e pro Davi. A Luísa não fica parada, vai à luta, você sabe.

Continuei muda. Ou congelada, melhor dizendo – os dedos sobre as teclas, sem tomar nenhuma atitude.

Lembrei da conversa que tive com Luísa uma vez num parque. Queria muito conhecê-la, fiz de tudo pra isso, e Déia nos colocou em contato.

Foi Lu quem me contou como perdeu a visão, aos 20 anos de idade – conseqüência da diabetes adquirida quando tinha 2 anos.

– Sou feliz com a minha vida assim, não sei dizer se seria mais feliz se enxergasse, ela me disse na ocasião. Às vezes, conta, até esquece que é cega.

Mas Davi tem razão: Lu não pode ver o desenho e, por ser diabética, não pode comer bolo. O que ela iria fazer na festa da escola no Dia das Mães?

Davi tem 7 anos e Luísa me disse que não sabe como ensinou ao filho que não enxerga, se é que ensinou. Quando ele nasceu, Lu, que hoje tem 31 anos, já era cega. 

– Sempre achei que no meio de outras crianças eu o confundiria, mas não. Eu reconheço sua risada, suas malandragens, como ficar quietinho só para eu ficar preocupada, me contou Luísa na nossa primeira conversa.

O MSN pisca de novo. É Déia, quer saber como estão meus filhos.

– Estão bem, viajaram pra casa dos avós em Minas, respondo meio seca.
– Déia, vou ter de trabalhar um pouco agora, depois a gente fala mais, tá bom? Quero saber mais do Davi, fiquei preocupada… Vamos ver se marcamos de ir ao teatro com as crianças uma hora dessas?
– Tá legal, um beijo, bom final de semana.

Déia é sempre rápida pra se despedir, acha que está me atrapalhando.
Sinto culpa por isso. Volto ao meu texto chato. Ou finjo que volto. Na verdade, meu coração está em Luísa, em Davi… Naquelas dores. E naquela força de Lu. Sou mãe também, as palavras de Davi me machucam.

E, como Lu, lembro que a vida é curta. E tão complicada. Mas tão boa ao mesmo tempo. Davi, 7 anos, é filho de um negro cego com uma branca que também não enxerga nada.  
Seu pai o ignora. Na escola, ele tem de ouvir o que os amiguinhos falam de sua mãe, que não foi pra festa junto com as outras. Por que iria? Ela não enxerga seu desenho mesmo, não come o seu bolo…

Crescer dói, penso. Nos ossos, dizem. Na alma, sente Davi. Sem saber bem o que dizer pra Luísa, compartilho sua história com o mundo.

(*) os nomes foram trocados para preservar a identidade dos personagens.

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