Por SILVIA NOARA PALADINO

Já não me lembro mais de quando os planos julgados mais concretos e estáveis, alguns esboçados ainda mesmo na infância, foram desmanchados em silêncio. Assim como o fio de lã que, delicamente puxado, desfaz cada ponto firme da blusa de inverno quase acabada. Por várias vezes, desde pequena, observei as mãos habilidosas de minha avó ao reconhecer o trabalho imperfeito, embora eu achasse que ninguém no mundo pudesse fazer melhor. Um único erro e, sem lamentos, as agulhas grossas de tricô retomavam o movimento repetitivo, desde o início, tudo de novo. As tentativas foram inúmeras, mas a senhora de disposição de menina e bagagem de toneladas nunca teve êxito, na verdade, em me convencer de que, certas coisas, simplesmente fogem ao nosso controle.

“É…o que vamos fazer?” – e assim ela ainda diz, com o nada, tudo.

Se falho na primeira etapa da missão solitária de resgatar o momento em que o futuro se tornou apenas o minuto seguinte, partir para o segundo passo chega a ser assustador. Ainda me pergunto se vale a pena garimpar uma mina desativada, em busca do instante em que a eliminação súbita de planos levou junto alguns sonhos que transitavam na fronteira de dois territórios distintos, ainda que complementares. Como se estivessem em um campo de batalha em que os limites territoriais são rigorosamente definidos, só que não há exércitos rivais.

“Entenda que você não pode estar no controle de tudo, o tempo inteiro”. Ao invés de um conselho despretensioso, um tiro de total exatidão que me negou alternativas, a não ser reconhecer que certas convicções – como o desejo de mudar para o outro lado do Atlântico, o conforto de nunca estar sozinha e a rebeldia diante de um acidente injusto e inevitável – deveriam adormecer, sem canção de ninar ou preparativos para uma noite de bons sonhos. E eu já não estava mais no comando de qualquer embarcação, nem mesmo daquela que me levaria a qualquer lugar. Na verdade, me recuso, deste então, a navegar entre promessas internas de tempos que estão por vir. Portanto, se a previsão é de tempestade, acredito mesmo é no sol que nasce a cada manhã e cura qualquer ressaca.

Para alguns, a decisão de evitar desenhar um futuro que só existirá no hoje – e que, provavelmente, trará uma sequência de desvios de rota com os quais as suas expectativas não contavam – pode causar, no mínimo, estranheza. Ou, como procura me alertar uma leal e sempre preocupada amiga, espanto. “Não acho que você precise mudar, mas preste atenção no que você faz!” – discursa, quase em tom de sermão, a moça que, além de saber a programação de seus próximos quatro finais de semana, mantém a idéia fixa de partir para a produção independente, caso não encontre um marido até os 35 anos.

“Você tem razão…” – diante das circunstâncias, prefiro engolir a bronca.

Apesar de tudo, ainda acredito que não ter a pretensão de conduzir as rédeas do amanhã está no final da lista de minhas esquisitices. Antes disso, me preocupo mais em esconder que tiro primeiro o sutiã, depois da blusa; que se você der um passo para trás, eu dou dez; e que chego a me engasgar com coisas que jamais terei uma segunda oportunidade de dizer. O que dizer, então, de uma garota que esteve por anos ao lado de alguém sem cogitar a possibilidade de casamento, pelo simples fato de que sabia, desde o início, que aquele não era o homem da sua vida? E que fique claro: não me orgulho em nada disso.

Se pareço tola, excêntrica ou despreendida ao deixar que o vento decida o rumo a tomar por nós dois, já não me importo. Afinal, não existe força do pensamento capaz de forçar olhos que não são os seus a enxergarem o que não querem. Ou então de apagar imprevistos e fatalidades só para obedecer o roteiro previamente traçado no papel. E, muito menos, de convencer alguém a mudar por você. Existe?

Pense bem. Se um amor aparecer para te levar a um passeio no espaço e você tiver medo de altura, pedirá para que ele volte depois? Se for preciso mudar de país, da noite para o dia, poderá esperar pelo trem mais vazio? E se for necessário decidir, haverá certeza? Não sei quanto a você, que chegou até aqui com a expectativa de uma grande revelação – ou até de uma resposta, uma conclusão, quem sabe um final feliz –, mas isso tudo me parece uma grande perda de tempo.

Caro leitor, dentro de uma semana, estarei em um jornada pessoal pelo Oriente. Espero retratar um pouco das minhas andanças em território asiático aqui, no próximo dia 15 de agosto.

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