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Botero

Por LUCIANA NORONHA

Ao sair da Colômbia, Gabriel deixava muita coisa para trás. Ele abandonava a casa que construíra a um ano atrás e o emprego em uma mina de ouro, que proporcionava seu sustento durante boa parte do ano. Abandonava também sua terra, onde cultivava milho e tomate nas épocas em que ficava sem trabalho. E, olhando para trás, Gabriel avalia que não havia apenas saído do país. Tinha sido expulso. As pessoas não saem da Colômbia porque querem. Eu fui forçado a sair, porque minha integridade física, pessoal e moral estava em jogo. 
Gabriel deixava na Colômbia o que restou da sua família, completamente desintegrada, e passando por momentos muito difíceis. Em 13 de maio de 2002, dia em o massacre completara um ano, a mãe de Gabriel havia perdido o filho caçula.

– Le entregaran picado en una caixa de bananas como regalo a mi madre.

Até hoje, a saudade da mãe é um dos aspectos que mais incomoda Gabriel, em sua situação de refúgio. Ao lembrá-la, ele se entristece e baixa os olhos: Minha mãe ainda vive na Colômbia, com minha irmã. Ela partiu em refúgio para a Venezuela, e depois foi para a Europa, mas não se acostumou à vida estrangeira e voltou logo. Para uma senhora sexagenária não é muito fácil adaptar-se a outro esquema de vida, outros costumes, outro clima, estas coisas. Somos caribenhos, estamos acostumados com sol o ano inteiro. 

Ao deixar a Colômbia, Gabriel levava consigo a sua esposa, seus dois filhos pequenos e uma insistente esperança de reconstrução de sua vida em outro lugar, livre de perseguições ou de atentados. Ele lembrava dos velhos amigos, a quem ele abandonava naquele momento, sem se despedir. Muitos continuariam na Colômbia, sufocados pela violência e calejados pela injustiça, assim como ele próprio. Alguns já  mortos, apesar da pouca idade. Outros haviam deixado o país mais cedo, rumo a outras nações.

No momento em que embarcou para o Equador, Gabriel deixou um país despedaçado pela violência, onde já não havia uma única família que não houvesse sido atingida pelo conflito.
– Cuase todos perderam un parente, algo así. Toda familia tiene por lo menos una historia de assassinato, sea por el narcotráfico, sea por la guerrilla, sea por el gobierno.

Quarenta anos de conflito fizeram com que, hoje, cada um tenha pelo menos uma história triste pra contar.

*

Eu nasci em Sincelejo, capital do Departamento do Sucre, que é uma cidade da costa do litoral atlântico. Sincelejo era uma cidade pequena, mas que agora deve ter uns 300 mil habitantes, porque aconteceu uma explosão demográfica de 97 para cá. Por causa dos conflitos armados no campo, a população rural começou a se deslocar para a cidade. Lá predominava o ELN (Exército de Libertação Nacional) e o grupo Quintin Lame. E com o tempo a cidade acabou se tornando perigosa, porque a guerrilha ganhou força, atraindo para o local a atuação dos paramilitares e do exército. Isto sem contar o aumento da delinquência comum.

Eu me criei em um ambiente de esquerda. Meu pai foi um sindicalista, que tinha ideais revolucionários. Ele gostava do pensamento de Lênin, de Karl Marx, e morreu com estes ideais. Meus três irmãos também faziam parte de um grupo de esquerda na Colômbia, de modo que eu então cresci em meio à luta pelos direitos do povo para melhorar o país. Com quatorze anos, eu comecei a fazer parte da JUCO, a Juventude Comunista da Colômbia. Dois anos depois fui eleito presidente do grupo. Comecei esta etapa da minha vida muito jovem. E foi maravilhoso. A partir daí, meus estudos foram patrocinados por um dirigente muito poderoso na Colômbia. Ele era presidente da União Patriótica, e chegou a ser candidato à presidência, mas foi assassinado.

Eu fiquei na JUCO até completar os 18 anos. Fazer parte da Juventude Comunista da Colômbia geralmente é o primeiro passo que se dá para, quando for adulto, entrar para a União Patriótica. E foi o que aconteceu comigo. Lá, minha luta era intelectual, mas era também armada. Lutei em todos os âmbitos que alguém poderia lutar.
Mais tarde, eu também fui combatente no ELN. E com esta minha vida esquerdista, eu acabei andando por toda a Colômbia. Conheço o meu país, pelas selvas e pelas estradas. Um dia fui fazer umas contas, e cheguei à conclusão de que já andei tanto que poderia ter dado a volta no planeta, várias vezes.

Quando tinha 23 anos, tive meu primeiro filho, mas não me casei e não convivi com ele. Nesta época, notei que a raíz da luta do meu grupo não era mais ideológica. Tinha se tornado monetária. Então eu decidi me afastar, e abandonei meu sonho, meus ideais, meus princípios. Me mudei para o sul do Departamento de Bolívar, que era uma terra dominada pelo grupo ao qual eu pertencia.

Porém, estas idéias continuavam na minha cabeça o tempo todo. Mas eu só participava de coisas menores. Em 96, quando foi feita a nova constituição da Colômbia, eu queria participar do conselho do meu grupo, mas não consegui. Então, novamente me afastei e abandonei totalmente a luta de esquerda. Em 98 conheci minha atual esposa, fui viver com ela e comecei a ter uma vida normal.

Porém no ano seguinte os paramilitares começaram a guerrear na região em que eu vivia, e eu sofri meu primeiro atentado. Atiraram em mim, mas felizmente saí ileso. Minha mulher estava grávida, e perdeu nosso primeiro bebê. As coisas se tornaram muito cruéis, porque incendiaram nossa casa e alguns animais que possuíamos. Tivemos que deixar nossa terra.

Em meados de 2001, voltei à Bolívar e construí uma nova casa. Cerca de um ano depois, durante uma festa de dia das mães, cerca de quinhentas pessoas nos cercaram e invadiram nossa casa.

Essa história continua no dia 17 de agosto. Veja a primeira parte de “História de um refúgio” aqui.

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