Por SUZANA VIER

Com apenas 3 anos e muita disposição, Laís acompanha a tia até o portão para receber a visita que os pais esperavam para o almoço.

Com o rosto alegre e movimentos de criança espevitada, Laís é uma menininha morena clara, de olhos grandes e brilhantes, com cílios longos e curvados compondo o rosto cheinho. Meio roliça, gordinha mesmo, ela já usa roupas de mocinha, como mini-saia e baby-look. A pequena caminha me levando para a casa da avó, com os cabelinhos encaracolados pulando de um lado pro outro, seguindo a toada de seus pulinhos.

Falante e expressiva, noticia para a casa toda, que a moça que vai falar com os pais finalmente chegara. “A moça chegou, vou levar ela pra minha mãe!”

Entramos primeiro pelo sobrado da avó de Laís, onde encontro quatro ou cinco pessoas reunidas na sala pra ver TV.

Subimos e descemos escadas até chegar ao sobrado de Laís, João e Daniela. Coisas da periferia de São Paulo e resultado das dificuldades porque passam o casal: um sobrado a terminar na frente, cheio de portas e janelas sem sentido muito prático e um sobrado no fundo, escondido. Enquanto a casa da avó de Laís é alta e tem até uma espécie de porão no nível da rua, pra guardar móveis e objetos antigos, o sobrado de seu pai, João, parece enterrado no quintal.

“A moça chegou pai… a moça chegou…”, participa logo Laís.

 “A casa de mamãe já foi térrea, mas as enchentes no bairro obrigaram a gente a deixar um nível do sobrado da frente só pra guardar coisas, no caso de voltar a encher a rua”, explica João, a quem finalmente encontro.

 Raridade: domingo em casa

Ao chegar ao Grajaú, bairro periférico de São Paulo, em pleno domingo de janeiro, de sol, vento e muita poeira, encontrei João sentado no sofá consertando o ventilador a pedido de Daniela, sua esposa.

“Você está vendo uma cena rara, domingo não costumo estar em casa. Já que estou aqui, aproveitei pra fazer umas coisas que a Dani pedia há tempos”.

“Pensei que você estivesse trabalhando hoje, imaginei que conversaria só com a família até que você chegasse”.

“Não fui hoje, tava muito cansado, aí consegui com meu chefe uma liberação”.
Pra alegria de Laís, o pai estava em casa em pleno domingo, mas como João mesmo anunciou, isso não costuma acontecer.

Logo depois de me acomodar na sala do pequeno sobrado de fundos da família, João me explica que é promotor de vendas.

“Faz sentido”, penso eu.

João é um homem sorridente, de feição tranqüila e jeito receptivo. Com seu falar de muita fluidez e correção gramatical, senti-me atendida por um excelente divulgador de produtos. O jeito tranqüilo não nega sua mineirice. O cabelo ralo, beirando a calvície, o corpo magro e de estatura mediana completam o perfil desse trabalhador no comércio que ouve quase toda semana a pergunta da filha de três anos: “papai você foi trabalhar hoje? Você trabalha tanto, hoje é domingo!”

João expõe e repõe produtos de uma indústria em um supermercado multinacional, de origem francesa, numa cidade da Grande São Paulo.

 Família

Laís é filha única. João e Daniela são casados há 9 anos, mas como ambos trabalham no comércio e enfrentam longas jornadas, preferiram ter só um filho. A pequena tem claro em sua mente que domingo é dia de ter o pai em casa. Mas, não é o que a empresa pensa. O supermercado, no qual João presta serviços, obriga os promotores de produtos das empresas fornecedoras a trabalharem aos domingos. 

Nesses dias, enquanto João acorda de madrugada para ir ao trabalho, a família dorme. Daniela, que não trabalha aos domingos, aproveita o dia para descansar um pouco e ter cuidados especiais com a casa e com a filha, mas reclama “É muito difícil essa vida de pouca convivência familiar. Até a criança questiona, quer saber por que o pai tem que trabalhar tanto. A Laís fica tanto tempo na creche que ela acha que lá também é sua casa. Até a criança perde a noção do que é casa e do que não é”.
 
Cotidiano

De segunda à sexta, toda a família acorda às 4h30m. Às 5h, todos já estão com o pé na estrada. João sobe a rua com Laís no colo, acompanhado de Daniela, rumo à única creche da região que aceita crianças tão cedo. Às 5h30m, eles deixam a pequena serelepe na creche, de onde ela só vai sair às 19h. De frente da creche cada um parte para seu trabalho: Daniela para empacotar saladas e João para o supermercado.

Para chegar ao trabalho, João utiliza três conduções e gasta quase duas horas. Às 7h, finalmente chega ao supermercado e bem-humorado começa o novo dia de trabalho: brinca com um colega, cumprimenta outro, vai ao estoque e retira dos pallets as caixas de produtos de “sua” empresa e reabastece as gôndolas do imenso supermercado.

Ele passa o dia repondo, ajeitando e promovendo os produtos da empresa que representa. Diariamente, João passa mais de quatro horas no trânsito, tempo que ele mesmo reconhece seria suficiente para se dedicar à uma faculdade. “Cursei um semestre de administração e parei. Trabalhando domingo quem consegue estudar, fazer trabalho de faculdade? Deixei mesmo, não teve jeito, mas estudar faz muita diferença na vida da gente”, reclama com lástima pelo abandono da universidade.

Sonho de descanso

Nesse domingo em que João está em casa, Laís desfila exultante. Transita da casa da avó para a casa dos pais o tempo todo, levando e trazendo informações, brincando com um e com outro familiar e verificando toda hora se o pai não vai sair. Pede para tomar sorvete com a tia, brinca com o meu gravador e conta histórias, toda faceira com gente nova na sua área.

Laís lembra muito o pai na fluência ao falar. Conversa com tranqüilidade, explica o que ouviu na casa da avó, conta que já almoçou enquanto a mãe esperava a visita, chama o pai simplesmente de João – sem cerimônia – e anda toda espoleta pela casa balançando o cabelinho. Laís é uma criança cheia de vida e perguntas. Em tudo cabe um porquê. Ela é a simpatia em pessoa.

O pai de Laís, apesar da correria, gosta de trabalhar no comércio e lidar com o público, embora logo no início de nossa conversa tenha chamado o local onde trabalha de um apelido que mistura escravidão e o nome da empresa.

O trabalho exaustivo tem impacto também sobre a saúde de João. “Se você tem um final de semana livre, vai na praia, descansa… aí na segunda-feira tá refeito, tem outra mente pra trabalhar. Fala-se tanto em motivar o pessoal pro trabalho e ninguém olha pra uma coisa tão óbvia e nociva assim que é o trabalho aos domingos”.

Já a mãe de Laís, se tivesse os domingos livres, gostaria de fazer viagens curtas, como ir à praia ou ao shopping. Mas atualmente, nada disso é possível. “A gente não vê a hora dele (João) chegar para ir ao shopping, mas nunca dá para ir porque ele já chega cansado, nunca dá pra fazer nada. É muito ruim. Eu não trabalho domingo então seria esse o único dia que daria pra gente estar junto. Fico pensando quando poderemos pegar uma praia e aproveitar um domingo”.

Daniela participou da conversa gritando da cozinha suas opiniões claras e desgostosas sobre o marido trabalhar aos domingos. Enquanto conversávamos na sala, com as animadas participações de Laís, Daniela preparava o almoço para a família e para a visita que especulava sobre o domingo da família ou a falta dele. Eu, que moro longe de minha família e aos domingos fico sozinha em casa, tive um saboroso almoço de domingo, bem familiar.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

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