Por WAGNER HILÁRIO

A fraqueza da memória
dá força ao homem.
Bertolt Brecht 

Seus olhos vigorosos de outrora ainda se mostram fortes na confusão da desmemória. Todavia, quando o vento sopra indolente seu lenço de flores vermelhas, amarrado ao cabelo crespo e grisalho, como que queimados pela vida, traz-lhe também a consciência de que o tempo passou, inebriante e impiedoso, como o mais vil e sedutor dos homens. Nesse instante, ela debruça suas pupilas no nada, cheias de tristeza, e quase se lembra do seu esquecimento.

 “Eu tô zonza, gordinho. Parece que bebi”, diz, ao sentir que acaba de perder da cabeça fato que se lhe desnudou cristalino há poucos instantes.

 “Se parece que bebeu tá bom, vó”, retruco.

 O gracejo a faz rir, um riso sapeca de menina do interior apanhada na travessura. É sinal de que já se esqueceu da melancolia que lhe umedecia os olhos levemente puxados, como o de seus descendentes indígenas.

 “Mas o pior é que não bebi”, lamenta, sincera, diante da evidência de que sua memória perdeu gume.

 Lembro-me de tê-la visto às lágrimas uma única vez na vida, quando ainda dispunha de uma boa lanterna para procurar suas histórias nos meandros do passado, para se situar no espaço, para saber se saiu ou não de casa com a bolsa, para ser alertada de que não a trouxe e não se esquecer do alerta três minutos depois…

 Era 25 de setembro de 2002. Quase no centro da sala de velório da Necrópole São Paulo, estava disposto o caixão de meu avô. Numa cadeira próxima, acompanhada da segunda filha – ao todo tivera dez filhos – e de uma das netas, eu a avistei. O cabelo sem lenço e desgrenhado pelas inúmeras vezes em que passou a mão aflita compunha o retrato da saudade, cujo pranto franco combinado ao olhar erradio lhe conferia aspecto desolador e irreconhecível.

 Sempre vi Antônia como uma rocha; “a razão” da modesta casa dos Padula, que trazia belos jardins na frente e nos fundos, onde passei parte das minhas tardes de infância a pegar pitanga no pé. Antônia comprou a residência com dinheiro escamoteado da carteira do velho Padulão. Roberto, como o chamou a vida inteira, mesmo depois de descobrir que se chamava Cármino. Descoberta que só se deu no instante em que se casavam no civil.

 Ele tinha vergonha do nome de batismo, mas, mesmo depois de unidos perante a lei, não demonstrava igual vergonha em apostar em cavalos ou em despender o dinheiro que ganhava, com seu incrível talento para os negócios, em noites nababescas que não incluíam Antônia, uma Testemunha de Jeová contumaz. O tempo acalmou Padulão, tomou-lhe o dinheiro e lhe castrou a boemia… Se não fosse a velha senhora de feições afro-indígenas, eles não teriam a casa.

 “Velho nojento… Eu odeio este homem”, dizia Antônia, enquanto Roberto, já aposentado, sujava a cozinha com as migalhas de pão que comia no café, no almoço e na janta.

 Ele ria, a princípio, bonachão e provocador. Se ela insistisse:

 “Ô, velha chata!”, dizia, com sua voz tonitruante. Levantava, pegava o inseparável cigarro e ia para o barracão, no fundo da casa e ao lado da pitangueira, ler jornais e estudar os páreos do Jockey Club, com o Marlboro que parecia minúsculo debaixo de seu monumental nariz.  Não se metia com ela. Mais do que respeito, nutria pela esposa medo. Quando tinha meus seis anos, e eles estavam na faixa dos sessenta, o vi, com seu quase um e noventa de altura, em cima da cama pedindo a ela que largasse a vassoura – pelo amor de Deus! -, com a qual o ameaçava. Que parasse com aquilo! Ela o poupou.

 Ao sair de casa, Antônia, com uma das filhas, fosse para compras no supermercado ou qualquer outra atividade, Padulão a acompanhava até o carro, certificava-se de que ela havia posto o cinto direito e, às vezes, até censurava a transparência do vestido.

 “Sai pra lá! Sai pra lá! Vai encher o saco de outra”, dizia-lhe Antônia, deixando escapar nas entrelinhas a mágoa do passado.

 Ele não lhe dava a mínima. Puxava o cinto, ajudava a travá-lo e depois voltava para casa, sentava na frente da televisão e assistia aos jogos do campeonato italiano, muitas vezes em minha companhia, trocando comentários e impressões.

 Quando o enfisema, revelado em sua renitente falta de ar e tosses pigarrentas, revelou-se, o médico exigiu que parasse de fumar. Fumante desde os nove anos de idade, não teve, aos oitenta e três, força para largar o tabaco e seus tragos o tragaram para a morte, mostrando a Antônia que só odeia quem ama.

 Curiosamente, foi depois daquele velório, que ela, aos oitenta e cinco anos, começou a esquecer-se.

 Sua vida parecia ter transcorrido até o dia 25 de setembro de 2002. Dali em diante, não havia mais passado, apenas novidades. A maioria de seus bisnetos, nascidos depois da data, ela conhece a cada encontro, a cada manhã. Às vezes, suspeita que já os tenha visto, mas nunca tem memória suficiente para assegurar.

 “Eu tô zonza, gordinho. Parece que bebi…”

 O Alzheimer faz do pretérito sempre imperfeito, quando há pretérito. Ele se alastra pela memória, como uma cortina opaca de concreto. A mesma pergunta, a mesma observação incontáveis vezes.

 Todavia, há novidades que ela prefere não saber.

 “Ana, cadê seu pai?”

 A filha mais velha, que sempre morou com ela, guarda silêncio, receosa de dizer a verdade. A insistência, em tom muitas vezes autoritário, característica de Antônia, irrita Ana.

 “O pai morreu, mãe.”

 A velha senhora se cala, anda até o barracão, senta-se na mesma cadeira do turfe de Padulão, olha a Pitangueira, e deixa escorrer as lágrimas, enquanto a brisa balança o lenço de flores vermelhas que lhe envolve os cabelos. Antônia soluça de dor até se esquecer por que chora.

 Quando volta a perguntar de Roberto, Ana diz que ele foi para a praia com o filho mais velho.

 “Ah tá”, responde, sem pranto.

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