Por LUCIANA TADDEO

Eles passeiam agilmente pelas árvores. Emitindo sons agudos, parecem brincar ao pularem de um galho para o outro e escorregarem pelo fio do telefone, como em uma tirolesa. Seus pelos escuros se camuflam ao marrom dos troncos, mas alguns minutos de procura são suficientes para achá-los entre as folhas, mexendo suas cabecinhas envoltas por delicadas jubas e balançando os longos rabos listrados em preto, cinza, preto, cinza, preto, cinza…

Quando Lalá estica a mão oferecendo um pedaço de banana, os sagüis param a certa distância, atentos, para verificar o conteúdo, e descem em direção a ela. Olham para os lados antes de cravarem os dentinhos na fruta e depois sobem ligeiramente para a densa folhagem da copa. Eles esperam sua vez e descem de um em um para pegar a banana. Mas certa vez, uma macaquinha, que subia e descia o galho correndo para transferir da sua boca a fruta para a do seu filhotinho, foi abordada por um semelhante esfomeado. A briga começou e “pof!”, um deles se esbugalhou no chão, feito fruto maduro. Foi em questão de segundos que se recompôs e voltou para a segurança do alto da árvore.

Lais Kerry descobriu recentemente dos moradores do seu quintal – e que alegria foi a descoberta! Hoje, o planejamento das compras já inclui as bananas (pelo menos três por dia) para os novos companheiros, que animam ainda mais as tranqüilas tardes de domingo em que ela passa estudando espanhol ao ar livre e observando o verde da longa paisagem que se estende em um nível abaixo de sua casa, mais abaixo ainda do campinho de futebol de dentro do seu terreno.

Na vida longe da cidade, Lalá já tinha a companhia do pastor alemão Nico, dos vira-latas Flora, Zeus e Feliz e do gato preto Bong. Sua casa fica em uma ruazinha de terra que começa numa curva da estrada que liga as rodovias Anhanguera e Dom Pedro I, depois de Campo Limpo Paulista, a vinte minutos do município paulista de Jundiaí. Em dias de festa ou churrasco com os amigos, ela manda para todos um mapa bem detalhado e coloca uma plaquinha com seu nome no acostamento da estrada, para ninguém passar reto pela entrada da casa.

O local é bem isolado, cercado por alguns barracos de madeira que foram construídos ao longo dos anos. Até hoje, sua família espera que a telefonia chegue a região. Não faz muito tempo, Lalá ligou para falar com a mãe e uma voz feminina desconhecida atendeu. “Quero falar com a Isaura”. “Não tem ninguém com esse nome”, respondeu a pessoa do outro lado. “Como não?” Percebendo que falava com a proprietária da linha, a mulher desligou. Mais uma vez, tinham feito um “gato” no fio, que, por ser puxado desde Campo Limpo Paulista, é muito longo.

Lalá trabalha em uma assessoria de imprensa em São Paulo e desde os tempos de faculdade percorre diariamente o trajeto de ida e volta para casa. Os convites para sair à noite têm de ser feitos com antecedência, para que ela se programe e prepare uma trouxinha com as roupas que usará no dia seguinte. Nessas ocasiões, dorme na casa da avó ou de alguma amiga, porque é difícil a volta pra casa na madrugada.

Às vezes, a família recebe visitas pouco desejadas, como a dos ratos, que os cachorros matam e depositam na frente da porta da casa de presente para os donos. Certa madrugada, sua família acordou com o barulho dos cães. Acostumada a viver longe da cidade, ela tem os caninos como segurança (“quem mora em sítio tem de ter cão”) e sabe diferenciar a razão dos diferentes tipos de latido. Esse indicava que algo estava errado. Assustada, achou que alguém tentava entrar na casa. Já em pé, seu irmão acendeu a luz da varanda. Quase formando um círculo, os cães manifestavam-se ferozmente e em volume altíssimo contra algo na grama. Uma cobra coral, descobriram com a aproximação.

Depois desse episódio, seu pai Jurivaldo fez um curso de manuseio de serpentes. “Tem que pegar a cabeça dela com a mão e o corpo com um gancho e ser bem rápido. Não pode vacilar”, explica Lalá. O aprendizado foi importante no dia em que uma gigante cascavel apareceu embaixo da máquina de lavar roupa, do lado de fora da casa. Jurivaldo a colocou em uma caixa, lacrou, escreveu um aviso de que continha um animal peçonhento, “vai que bate o carro e a caixa cai na estrada” e a levou para o Instituto Butantã. “Nossa, muito obrigado, faz tempo que não chegava uma cascavel. Sempre que aparecer cobra por lá, pode trazer para a gente”, comemorou o funcionário. Se o procedimento foi bem sucedido, a família ficou mais atenta e foram dias até que o gato – o único dos bichinhos com permissão para circular dentro da casa – tomasse coragem de sair para o quintal.

O último dos animais que apareceu por lá foi outro cachorro. Coberto com poucos pêlos desuniformes, pequeno e feinho de dar dó, ele apareceu num dia de muita chuva. Mais uma vez a barulhada atraiu a atenção da família: os quatro outros, “donos da casa”, queriam estraçalhá-lo. Neste dia, um raio atingiu a casa e abriu um buraco na parede, arrancou o exaustor e telhas, e destruiu os fios de eletricidade e telefone. O visitante foi resgatado e ganhou o nome de Trovão.
 
Vida complicada essa da “roça”, como Lalá mesma define o local em que vive. Roubo de fios, raios e medo de morar em um lugar isolado. Mas de uma coisa ela não pode reclamar: quem mais tem macaquinhos no quintal?

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