Por ERIKA MORAIS

9h da manhã: não posso ser atendida em um posto de saúde. A esta hora os médicos já pararam de atender. Para ser consultado é preciso madrugar na porta do posto. Sugeriram que eu fosse a um pronto socorro, o Hospital Público Municipal de Diadema. Nenhum posto me atenderia sem “o cadastro”. Tenho que ter “o cadastro” de um posto perto de minha casa.

10h10: entro na fila para cadastro do primeiro atendimento no Hospital de Diadema. Pergunto à negra de cabelos encaracolados se ela é a última daquela grande fila, onde ela afirma que sim, me olha de cima a baixo e diz: aqui temos hora para entrar, mas não para sair.

10h45: chega a minha vez de fazer o cadastro e a atendente conversa com um funcionário do hospital sobre as filas do ortopedista, culinária, filhos, família…, para concluir o cadastro e descobrir por qual médico devo passar, me olha nos olhos e diz: “Me fala um sintoma. SÓ UM”. Respondo: Então, estou com uma crise de rinite que não me deixa dormir a duas noites, a sinusite me dói a cabeça e não consigo respirar direito. Recebo um olhar fulminante e devolvo: Dificuldade de respiração.

10h55: arrumo um cantinho para esperar, já que a quantidade de pessoas aguardando atendimento é grande. Um corredor apertado em frente a três portas, onde dois médicos faziam o atendimento. Pessoas desoladas, com ou sem acompanhantes, homens, mulheres, de todas as idades. Do lado direito uma TV com som baixo passa os desenhos animados da programação da manhã, uma placa enorme com o telefone da Ouvidoria do Hospital: dúvidas, sugestões, reclamações….ligue 0800….. enquanto a fila não para de crescer. A negra de cabelos encaracolados que me olhou com desconfiança na fila para o cadastro senta ao meu lado e me oferece um biscoito de polvilho. “Ah, nem tomei café antes de vir pra cá, então passei ali no mercado pra comer alguma coisa. Vai que o médico me dá uma injeção e eu passo mal porque não comi nada?”. Talvez ela não precisasse de injeção, me disse que amanheceu com uma dor nas costas, que dói quando respira. Disse a ela o que provavelmente minha mãe me diria nesse caso: Talvez sejam gases. Apesar de também não ter comido nada, recuso o biscoito de polvilho. A garganta seca por ter que respirar pela boca não suportaria.

11h40: finalmente sou chamada. Sem me olhar no rosto ou pedir para que eu sentasse o médico pergunta: “tá sentindo o que?” Então, estou com uma crise de rinite que não me deixa dormir duas noites, a sinusite me dói a cabeça e não consigo respirar direito, talvez uma nebulização ajudasse inclusive sinto um pouco de dor nas costas, penso que talvez seja o pulmão, explico detalhadamente. “Sente dor de cabeça?” Sim. “Vai fazer um Raio X na cabeça.” Só isso? “Sim.”
Me entrega um papel, me solta em um corredor, apinhado de gente e volta para atender outro paciente.
Perdida, sou auxiliada pelo guarda municipal, que fala: Raio X, nesse balcão aqui.

11h45: pego uma senha e aguardo ser chamada pelo operador de Raio X. Algumas das mulheres que estavam na mesma fila do primeiro atendimento se perguntam assustadas, desinformadas… o que deve ser feito com o Raio X, onde é a sala, é pra falar com quem??? Mais uma TV, mais uma placa de ouvidoria. Rostos enfermos, característicos nordestinos (como em toda Diadema), médicos bem penteados e a planta ao lado, seca, perde as folhas.

12h: pedem para que eu tire o óculo e solte o cabelo. Deito de costas na maca fria, sem nenhum protetor higiênico, não importa quantas pessoas já passaram por ali: encosto o queixo, depois encosto a testa.

12h15: recebo o resultado de meu raio x. Sem saber o que fazer, volto para a sala do médico. “A senhora vai tomar uma injeção e vai levar essa receita aqui”. Sem me explicar nenhum dos remédios, nada mais, me dá a receita e com um olhar me manda embora.

12h20: passo por uma enfermeira e pergunto: vem cá, ta escrito aqui se tenho que tomar alguma injeção? (letra de médico) “Sim. Aqui: Raio x e injeção de Voltarem.” Injeção de Voltarem? Para rinite e sinusite? Estranho. Volto para a sala do “doutor”. O senhor poderia me esclarecer se eu tenho mesmo que tomar essa injeção? “Você toma se você quiser”. Como assim, se eu quiser, o médico aqui não é você? “É, se você quiser você toma, se não, não toma.” Quer saber eu não vou tomar nada, só queria um mínimo de educação da sua parte. Virei de costas e saí, enquanto o médico resmungava algo como: “não volte mais aqui”.

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