Por FELIPE MODENESE

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O disforme provoca incômodo. O sem contornos e rótulos, aflição. A mera apreciação poética é suspeita.

Sobre a duna de Imbassaí, estacas na areia sustentam plataformas e estas, o que parecem ser esculturas.

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“Minha catarse é feita aqui”.

Tudo ali, exposto, aos céus aberto! As entranhas do inconsciente e dos sentimentos de um italiano tornado homem em solo argentino: mais de 200 esculturas de areia remetem vertiginosamente a mundos longínquos de tão próximos.
O artista senta-se, apóia o braço direito, incluindo seu pulso com uma tala pela tendinite, e começa e esculpir a narrativa de sua vida com maestria, a partir de um torrão bruto de conversa.

Educado em Buenos Aires, Rafael logo descobre que o curso de Química não é a sua. Tenta a Biologia e, aí sim, descobre uma paixão de vida. Perante a ditadura argentina, some para o Mestrado em Neurobioquimica da morfina em Israel. Isso mesmo, Israel. De volta a sua terra, começa o Doutorado a fim de tornar-se docente. Por falta de vagas e guerras egóicas, o escultor abandona a academia.

Sofia, a linda filha de 3 anos, pele alaranjada, olhos claros e cabelos loiros encaracolados, exige atenção. A mãe acomoda a donzela na rede e, de sorrisos de conforto na face, retomamos a escavação.

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Rafael Nehmad decide viver do turismo de Bariloche. Por seis anos é guia, músico, fotógrafo e instrutor de esquiagem. Saturado, retorna à capital e adentra o ramo empresarial: vedação. Buenos Aires ganha um perito em resinas e impermeabilização até que Imbassaí deixa o empresário atordoado, em suas férias de 2000. Vital é comprar a casa na duna da amiga argentina, vender a empresa e fazer da praia seu palácio.
 
“Minha obra me preenche. Uma liberdade total!”.
Começam os ensaios artísticos sobre os “blocos naturais de areia, oferecidos pelo mar”. Os dons de músico e pintor ganham mais uma forma física. Os torrões de areia vão se tornando experimentos de representação e poesia pura, preservados por seus conhecimentos em resinas.

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Tantas turbulências, guinadas, decepções, encantamentos… Tantas sutilezas compõem nossa trajetória de vida e não nos damos do que nos levou até “aqui”. A umidade, o vento, o calor lapidam as obras expostas e ajudam a compor uma peça de uma dinâmica sutil, esteticamente sublime e coesa. Coincidências as meras semelhanças?

“Às vezes, as pessoas estão tão impregnadas de coisas e de si que não sabem o que são!”. E cita Che: “Hai que endurecerse pero que sin la ternura jamás”.

Rafael passa mais de um ano se tratando em São Paulo de um câncer retal espalhado até o fígado. Sobrevive a mais vertiginosa de suas quedas e recompõe-se em sua Imbassaí há poucos meses.

Desde a retomada, o artista vem se aperfeiçoando em recompor as obras. Antes jogava as peças quebradas. Agora, especializa-se em remendá-las e relapidá-las, aproveitando os acidentes a seu favor…

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Já de noite, com uma linda escultura debaixo do braço – a que minhas finanças alcançaram – e bojudo de simbolismos tão férteis, sou apresentado a mais nova ferramenta de Rafael e suas “Esculturas de Arena Dura”: um gancho odontológico.

“Antes não conseguia acessar o interior de fossas, fazer coisas internas mais delicadas. Agora eu posso…”.

Eu poderia garantir que ele pode mesmo… E você?

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Se quiser conhecer um pouco mais do artista: http://www.rafaeltano.com.ar/

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