Preparando a Magia

Por FRED LINARDI

O livro favorito de Anitelli é o Lobo da Estepe, um clássico de Herman Hesse, usado para batizar a trupe. A obra conta a história de Harry Haller, um personagem que se auto-intitula o Lobo da Estepe, por ser fadado a uma vida isolada, entre os livros e pensamentos, sem amigos, com breves momentos de prazer e uma longa vida imersa de insatisfação. No entanto, tem uma ampla consciência de sua capacidade de transformar seu mundo, mas não o faz por falta de iniciativa e coragem.

Ainda no início da história, ele se depara com uma misteriosa porta que aparece em um muro anunciando “O Teatro Mágico – Entrada só para raros”. Tenta entrar, mas não consegue. Num instante, o letreiro some e a curiosidade torna-se um desespero para entrar naquele lugar em que ele sente que é feito para ele. Imagina que lá pode ter tudo aquilo que o completa, que o faz encontrar um sentido que falta a sua vida cheia de problemas e aflições.

O vocalista Anitelli, de voz mansa e com um violão pendurado no corpo não parece o mesmo que entrará no pequeno palco do teatro da USP, localizado na Rua Maria Antônia. É evidente que sua imagem agora, a três horas para o início do show, seja diferente. Sem maquiagem, de roupas comuns, parece um universitário, um jovem qualquer que se arriscou em montar a sua banda. Bermudas jeans, tênis All Star e uma camiseta da banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado.

Diante do pedestal do microfone, Anitelli vira para trás, olha para a mesa do som, tenta juntar a atenção para cada detalhe que será inevitável ao show. Ensaia passos e fisgadas no violão de acordo com o tempo da música. Combina com o baterista os momentos certos, em busca da sincronia. Em torno dele, o circo vai se armando. Uma longa escada aberta na frente do palco tem várias funções: ajustar a iluminação, amarrar panos e trapos, trapézio e tecidos para acrobacias.

Apesar da concentração do líder do Teatro Mágico, tudo é feito entre piadas e risadas, principalmente pelos outros integrantes da banda, enquanto os técnicos de som, e os roadies afinadores de instrumentos mantêm a seriedade constante. O clima é como ao de crianças fazendo um bolo de aniversário: é bom estar ali, mas tudo tem que dar certo e, apesar de doce, ninguém pode pisar na bola e estragar a festa.

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Anitelli volta ao microfone e convoca: atenção todos os músicos, venham até o palco. Atenção todos os músicos, agora no palco. As pequenas mudanças nos arranjos e finalizações que eles costumam fazer em cada show exigem um último retoque para todos os músicos. E é isso que acontece agora. Mas antes de iniciarem o arranjo, o líder se lembra de dar um recado:

Ah, antes que eu esqueça de dizer… Roadie não é garçom! Vamos ter a sensibilidade de, quem quiser beber cerveja durante o show, não ficar pedindo pra eles. – Anitelli dá esse toque para que não se repita o incidente em que, enquanto o roadie vai até o camarim pegar uma latinha de cerveja para um dos membros da trupe, algum instrumento dá problema e o apoio não está lá nesta hora. Como poeta, até nessa bronca embora um pouco ríspida, Fernando não perde a chance de falar sem perder o tom de sua própria sensibilidade.

Enquanto isso, uma menina de cabelos louros e curtos passa para lá e para cá, num ritmo ora calmo, ora frenético e preocupado. Maíra Viana é parte da trupe, mas atua nos bastidores de tudo. Ela é a assessora do Teatro Mágico, mas assim como o restante do grupo, faz de tudo um pouco. Lá está ela decorando os detalhes do palco, enrolando panos e fitas em instrumentos, espalhando bichinhos de pelúcia e bonecos de plástico. Ela mantém uma expressão séria, mas bastam poucas palavras para ver seu sorriso. Expressão esta que prevê a lotação de bares e casas de show onde a trupe se apresenta. No entanto nem sempre foi assim, principalmente logo quando ela se deparou com a existência do Teatro Mágico, em 2004…

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* Veja a primeira parte dessa história: Para raros… para todos
* Veja a segunda parte dessa história: Os dispostos
 

Mas que coisa, hein?! A história ainda continua no dia 27. E então começará um dos momentos mais altos do show. Erguido tanto pela emoção quanto pelo trapézio!

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