Por SILVIA NOARA PALADINO

“We must travel in the direction of our fear”
(“Nos devemos viajar em direção ao nosso medo”)

John Berryman

 

A sensação de estar muito longe de casa pode ter como explicação mais obvia a quantidade de quilômetros percorridos, enquanto os ponteiros do relógio parecem correr em uma maratona de longa distância, em pista escorregadia e com obstáculos, a fim de completar mais uma volta. Em aproximadamente onze horas e meia de vôo de São Paulo a Amsterdã, seguidas por mais oito horas de espera no aeroporto da capital holandesa e, por ultimo, mais dez horas e meia de avião até o destino final de meu trajeto rumo ao Oriente, as tentativas de acalmar a insegurança de desencontrar qualquer traço familiar não foram, digamos, eficazes.

Ao longo de cerca de dois dias de viagem, meu tempo esteve dividido entre as atividades mais comuns de qualquer viajante. Entre elas, conversas com um quase senhor de origem alemã, sotaque carregado e simpatia confortante, que procurava me convencer de que havia nascido no Brasil, mas aprendeu o português apenas com oito anos de idade. Sua jornada chegaria ao fim em Pequim, na companhia de três amigos que, mesmo acomodados nas poltronas da fileira de trás, estavam sempre atentos e prontos a contribuir com qualquer assunto. Foram ainda buscas inúteis por posições confortáveis durante os vôos e tentativas frustradas de entrar em sono profundo, nem que fosse por poucos minutos.

Minha principal ocupação, entretanto, pareceu mais uma negociação interna (e tensa) para redistribuição de tarefas. Assim, minha mente tentava se convencer de que, nos vinte dias seguintes, o trabalho de carregar as pessoas essenciais ao funcionamento de todo o meu sistema – seja aqui ou em outro planeta – deveria estar sob responsabilidade apenas do coração. Mais tarde, tal exercício passou a consumir forças que eu já não mais detinha, especialmente quando minhas pálpebras se tornaram a parte mais pesada de todo o meu corpo e os dois dias sem banho começavam a me causar agonia.

Para aqueles que anseiam se defrontar, logo de inicio, com as demonstrações mais explicitas de um universo exótico, os relatos sobre minhas primeiras percepções sobre a Tailândia chegam a ser até mesmo frustrantes. Para mim, contudo, nada poderia ter sido mais inusitado. Ao chegar em Bangkok, a consciência acidental de que a distância possui dimensões distintas me surpreendeu com a idéia de que seria possível me sentir em casa, enquanto aqui eu permanecer. No lugar de tailandeses com hábitos esquisitos, encontrei pessoas gentilmente dispostas a me compreender e a se fazerem entender, por mais que o inglês, na pronúncia dos povos orientais, possa ser considerado, na minha opinião, praticamente um outro idioma. Encontrei ainda uma grande metrópole como qualquer outra vista no Ocidente, preenchida por largas pistas expressas e viadutos, transito caótico – com a diferença de que não ouvi sequer um som de buzina –, McDonald’s e edifícios comuns.

A tranqüilidade que voltou a deixar minha respiração mais profunda e minhas pernas mais seguras para caminhar sobre um novo território acompanhou minha primeira noite na Tailândia. Se os sonhos não deixaram registros em cenas, estou certa, pelo menos, de que me levaram para casa – seja ela qual for. Acordei às três horas em ponto da manhã, como já havia previsto minha anfitriã e preocupada amiga, que se empenhou ao máximo em me manter acordada até tarde, com a intenção de amenizar o choque da diferença de fusos horários no dia seguinte. Levantei, busquei um copo de água e me deitei novamente na cama larga e macia. Entre as frestas das persianas de madeira, percebi que a chuva começava a cair, enquanto o vento suave criava sombras dançantes com as folhas das árvores. Adormeci em segundos.

Caro leitor, é claro que a Tailândia é muito mais do que minhas primeiras impressoes de Bangkok. E eu contarei porquê nos próximos posts.

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