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Por LUCIANA NORONHA

Gabriel, sua mulher e seus filhos saíram da Colômbia em meados de 2002. Para deixar o país, eles se uniram a um grupo em que todos possuíam o mesmo objetivo: começar uma nova vida em Quito, capital do Equador. Antes, porém, estiveram na Venezuela, e na Costa Rica, onde ficaram pouco tempo, ainda sem obter qualquer refúgio legal. Apesar da meta em comum, o grupo ao qual Gabriel acabara de se integrar era bastante heterogêneo. Nele reuniam-se pessoas ligadas a grupos paramilitares e à guerrilha, acompanhados por esposas e filhos.

Ao chegar em Quito, Gabriel foi recebido pela Cruz Vermelha, pela Anistia Internacional, pela Acnur e pela ONG PHD, que defende os direitos humanos. Ele e sua família tiveram refúgio aprovado pelo governo do Equador em apenas dois meses. A partir de então, contavam com acompanhamento psicológico e espiritual, que o ajudou a superar o que havia acontecido.

O grupo integrado por Gabriel, com cerca de quinze pessoas, decidiu alugar uma casa de três andares, onde todos passaram a viver juntos. No andar de baixo, foi montado um ateliê, em que ele podia se dedicar a uma de suas paixões: a escultura em ferro. A integração e a ajuda mútua do grupo colombiano fez com que cada um conseguisse superar as dificuldades externas e seus próprios traumas pessoais.

Daí em diante, passaram-se quase dois anos, em que vivemos muito bem. Passei a participar de um grupo de direitos humanos. Logo me convidaram para participar de um congresso, em que me dei conta de que meus ideias não haviam mudado. Então fundamos a OSORE, Assossiação de Refugiados. Montamos uma equipe de pessoas que já se conheciam da Colômbia. Todos eram de esquerda. Foi quando comecei a receber ameaças.

Primeiro, ameaçaram minha esposa e nos deram 24 horas para deixar a cidade. Eram mensagens vindas da Colômbia, de paramilitares. Não sabia como haviam me localizado. Então percebi que na PHD e na Anistia Internacional de Quito as informações sobre refugiados não eram secretas. A qualquer ligação, perguntando sobre um refugiado, eram dadas informações. Aqui em São Paulo isso não acontece. Não dão nenhuma informação, sobre ninguém.

Em meados de junho do ano passado, ligaram para Gabriel por volta das dezessete horas, marcando um encontro para dali a uma hora, em um parque público de Quito. Se ele não fosse, disseram, iriam matar sua esposa. Gabriel estava longe de casa e do parque para onde deveria ir. Desesperou-se e procurou a estação policial mais próxima. Um grupo de elite da polícia foi chamado, e montou-se uma operação.

Gabriel entrou em um veículo protegido e foi levado ao parque. Lá, a polícia prendeu dois homens, um colombiano e um equatoriano, que pertencia à intelegência da polícia nacional. Um dos sujeitos portava um revólver 9 mm, então provavelmente ele não estava ali para me dar conselhos. Hoje, o equatoriano continua preso, ainda que não tenha sido julgado. O colombiano foi deportado e também está preso, mas tampouco passou por qualquer julgamento.

Depois disso, a Acnur decidiu tirar-me dali. Mas, na mesma noite, telefonaram para dizer que jogariam uma bomba em nossa casa. Então a polícia equatoriana e Acnur nos deram proteção. Interceptaram nosso telefone para ajudar na investigação, e fizeram rondas pela região. Mas nada aconteceu.

Porém, no dia seguinte as ameaças se concretizaram. Por volta das três horas da manhã, uma bomba de gás lacrimogêneo é atirada pela janela e invade a casa, onde quinze pessoas dormiam. Em seguida, ouve-se a explosão, que arrebentou portas e janelas. Era uma bomba de cerca de seis quilos, que destruiu a fachada da casa, mesmo tendo caído embaixo de uma camionete, que recebeu a maior parte do impacto. Graças a isto, a explosão foi amortecida, causando apenas alguns ferimentos leves nos moradores. Em pouco tempo a polícia chegou, mas não encontrou suspeitos.

Eu acredito que o atentado que sofremos foi uma represália contra nosso trabalho pelos direitos humanos, com a OSORE. Então, por segurança, no dia seguinte a Acnur decidiu desmanchar nosso grupo. Nos espalhamos pela cidade e, a partir daí cada um seguiu um rumo diferente. Alguns foram para os Estados Unidos e para o Canada, outros estão na Espanha. Apenas eu e um amigo permanecemos na América Latina. Eu fui para o Peru, onde vivi por sete meses. Lá também me deram refúgio rapidinho.

*

Aos dois meses no Peru, Gabriel já era um refugiado reconhecido pelo governo. Entretanto, ele e sua família sofriam pela falta de emprego, que atinge não só imigrantes e refugiados, mas também a própria população local. Além disso, a ajuda da Acnur no país é insufuciente. A falta de apoio econômico e psicológico aos refugiados prejudicaram muito a adaptação da família no país.

Passaram-se poucos meses até que Gabriel descobrisse que, mais uma vez, estava sendo perseguido. E, novamente, denunciou aqueles que o perseguiam. Eram paramilitares colombianos que viviam no Peru. A Acnur então, imediatamente decidiu enviá-lo para o Chile.

Não consegui entrar no Chile, porque aconteceram muitos problemas. Eu tinha o passaporte da ONU, mas me roubaram perto da fronteira, em Tana, e não pudemos entrar no país. Então fiquei um tempo na região, tentando resolver este problema. Esse período foi muito ruim, porque meus filhos ficaram doentes… Por fim, tivemos de voltar à Lima para providenciar os documentos.

Ao chegar a Lima e constatar que seria difícil e demorado obter uma autorização provisória que os permitisse ir ao Chile, Gabriel mudou de idéia.

– No me voy para o Chile. Voy al Brasil.

Gabriel havia exposto sua situação a um funcionário da Acnur, que o recomendou o refúgio no Brasil. Porém, para chegar ao país, ele teria de atravessar toda a Bolívia por terra.

Logo que cheguei à Bolívia, ainda em La Paz, dei de cara, no mesmo dia, com muitas manifestações contra o presidente da república. Foi horrível. Estouravam bombas em La Paz, e não podíamos sair da cidade, porque os manifestantes haviam fechado as estradas. Ficamos presos lá por mais de um mês.

Assim que as estradas foram liberadas, Gabriel seguiu viagem, de ônibus, até Santa Cruz de la Sierra. Lá, tomou o trem que o levaria até a fronteira com o Brasil, conhecido por “trem da morte”. Trazia a mulher e os dois filhos, e nenhum dinheiro.

Deve fazer uns 500 anos que não se faz a manutenção deste trem. Disseram que o vagão que tomamos era de primeira classe. Mentira! O sanitário era um buraco, de onde se via a estrada. À noite, me encostei no piso do trem. Era um socomóvel. Daí mei conta de porque ele se chama locomotora! O trem era muito feio, mas não era o trem da morte. Para mim, aquele era o trem da vida, porque trazia esperanças e a gana de seguir adiante, de viver.

Após descer do trem, na cidade boliviana de Quijarro, a família teve de atravessar a fronteira com o Brasil à pé. O cansaço das crianças e o peso da bagagem fizeram com que os seis quilômetros caminhados parecessem maiores. Até que, finalmente, Gabriel chegou a Corumbá.

Essa história continua no dia 31 de agosto.

*Veja a primeira parte aqui.
Veja a segunda parte aqui.

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