Por SUZANA VIER
 
Nas casas do interior, os quintais ainda têm hortas cheias de cheiro verde, salsinha e hortelã, árvores frutíferas e até criação de pequenas aves.

Nas casas do interior, as cozinhas ainda são grandes, espaçosas e arejadas, com relógio com ilustração de frutas e verduras na parede e pingüim em cima da geladeira.

As cozinhas do interior são cheias de móveis, antigos e novos, para dar conta das louças e da infindável quantidade de panelas das vovós que também habitam o interior de nossas cidades e de nossas famílias.

Na cozinha de Maria, no interior de São Paulo, a história não é diferente. Ela, uma vovó já aposentada, passa mais de quatro horas por dia na cozinha e ali histórias se passam e são reveladas.

Maria acorda às 6 horas para fazer o café da manhã que os familiares só tomarão às 8 – pra não perder o hábito de acordar cedo como fez desde os 6 anos de idade, quando ia pra roça colher algodão com a família.

Às 9 horas, começa o almoço, que só será servido às 11. Depois lava louça, areando tudo direitinho pra ficar brilhando.

Às vezes pára pra assistir a novelinha da tarde, aquela que ela não viu pela primeira vez porque estava tão cansada do trabalho que ia dormir às 7 da noite.

Quatro horas em ponto é hora do banho, de ficar cheirosa, porque para Maria – de 75 anos, que veio da roça, dormia em silos no meio do café, já foi telefonista, copeira e governanta de hotel -, é essencial estar bem perfumada, com a pele macia e os cabelos bem tingidos de loiro.

Vinte minutos depois do banho, começa a preparar um pequeno lanche e o jantar que às 6 horas já está na mesa. No interior, lembra ela, “se acorda cedo e se come cedo”. Dormir cedo é outra história. A vida toda Maria acordou de madrugada e agora, aposentada, aproveita para assistir todas as novelas, de todos os canais possíveis. Só mesmo as novelas do Carlos Lombardi ela jura que não entende “é muito doido, só dá gente pelada correndo pra todo lado, tudo muda o tempo todo, não consigo acompanhar”, revela depois de tentar mas não conseguir acompanhar “Pé na Jaca”.
 
 
Cozinha – o refúgio
 
Na cozinha de Maria, ninguém pode mexer, nem sequer lavar louça. Só ela cozinha, passa café, faz chá pra a filha constantemente gripada e prepara as guloseimas que levam tanta gente a sua casa.

Pão de maçã com côco, bolo de banana com farofa doce, geléia de laranja, rocambole de doce de leite são apreciados pelas vizinhas, pelos amigos do neto bombeiro e pelas amigas e até ex-namorados da neta jornalista que aparece uma vez por mês, vinda da capital.

Sempre que a neta surge, Maria corre para fazer inhoque, às vezes inhocão recheado, e quibes sequinhos por fora e molinhos por dentro.

Muitas vezes, a neta traz consigo as amigas que moram na capital e vivem longe de suas famílias.

Quando esse povo todo chega, é uma festa… Maria, que é uma senhorinha pequena, gordinha, de grande e farto quadril, de repente cresce, estufa o peito de alegria pelas visitas que certamente ela vai engordar com tanta comida suculenta.
 
Revelações
 
Um dia desses, no mês de julho, a neta e uma amiga de São Paulo contavam as baladas dos últimos tempos, as novas e velhas paqueras; enfim comentavam da agitação da capital.

Até que a vovó de apenas dois netos verdadeiros e muitos adotados ao longo da vida, pergunta às visitantes:

“Então vocês estão beijando muito, é?”.

As duas riem.

“Imagina vó… a gente gosta do bom astral, da banda, dos amigos, de espairecer, de ver gente nova, isso é que é legal”.

E vem a contrapartida da pergunta à avó curiosa:

“E a senhora já beijou muito na vida?”

“Hããã”, ri baixinho Maria, que abaixa o olhar, meneia a cabeça e respira fundo pra responder.

“Eu nunca beijei!”

“Como não?”, pergunta a neta estupefata.

“A senhora nunca beijou meu avô?”

“Na boca não. Nunca beijei ninguém na boca. Isso não existia na minha época”.

“Vó, mas…..” A amiga da neta, já devidamente adotada, não consegue terminar a frase… e fica de boca aberta por bons segundos, tentando entender as revelações de Maria, sempre tão doce, gentil e atenciosa com todos naquela cozinha.

“Mas como a senhora foi casada tanto tempo, teve uma filha e nunca beijou na boca….?”

“É minha gente… tínhamos que casar… Amor é outra história… Por isso, acho bom que vocês aproveitem bastante a vida… Aproveitem por mim, beijem por mim e sejam felizes por mim!”

“Opa, então a senhora vai pra balada com a gente em Sampa… Vamo vó???”

“Olha, como eu já disse outro dia, depois que eu colocar um pino no quadril pra juntar o que tá ‘disconjuntado’”… Maria levanta, rebola um pouco, sacoleja o quadril, ensaia uma dancinha e termina a frase… “aí me esperem que vou arrasar junto com vocês”.

“Ah, daí a senhora vai usar seu batom novo, sua saia de preguinhas nova, né…?”

“Vou… vou botar pra quebrar com vocês…”

“Mas enquanto eu não coloco o meu pino”, diz com cara de moleca, “vocês vão curtindo a vida por mim, tá! Ah, Adriana – pede Maria à amiga da neta – faz um favor pra mim, beija muuuito!”

“Xá comigo vó…”

A conversa na cozinha com Maria virou motivo de inúmeras conversas ao longo da semana. Como casar, viver mais de 40 anos junto com o marido e nunca ousar beijá-lo na boca? A pergunta ficou no ar, ninguém conseguiu uma resposta, mas a maioria admitiu que seus pais ou avós, provavelmente viveram histórias parecidas com a de Maria que vira e mexe provoca o neto dizendo que vai sair com a neta em São Paulo pra curtir a balada…

O neto, um bon vivant da modernidade, atualmente quase casado aos quase trinta anos, reprova a animação da avó. “A senhora bebeu ou tá usando droga?”

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