Por WAGNER HILÁRIO

“A morte não será verdade
enquanto houver alegria
no coração do homem”
Rabindranath Tagore

Sabe aqueles dias em que o trabalho não rendeu, pois a alma ficou na cama, enquanto a máquina partiu sozinha pela trilha monótona de mais uma aurora moderna? Dia em que brigamos com o cônjuge, quando voltamos para casa?

Foi em um desses que meu filho me olhou bravo porque tirei o desenho dele para assistir ao jogo da quarta-feira à noite. Em resposta ao seu olhar, mostrei a língua e, pirracento, esbugalhei os olhos, feito menino bobo. Ele gargalhou… Gargalhou do meu mau-humor. Desarmou-me por inteiro, com suas bochechas vermelhas da graça que viu em mim e que eu não fazia questão nenhuma de ter. Gargalhou tanto que me contagiou, e, sem saber por que, gargalhei também. Tomamos um banho de risada juntos. Esqueci-me do jogo e ele do desenho.

Pouco antes de me deitar, quando terminava de escovar os dentes, ocorreram-me algumas lembranças.

“Eu queria tanto que você voltasse a dar aquela gargalhada. A gente ria do seu riso”, cobrou-me, triste, minha mãe.

Na ocasião, eu tinha uns dezenove anos.

“Descobri que num mundo desses, rir é pecado”, devolvi, sem esconder a revolta que aflige a maior parte dos jovens, quando descobrem que, para trás, quase tudo fora um reino de utopias, que, para já, há muitos pedintes miseráveis nas janelas de veículos importados blindados contra a verdade e que, para frente, são raras as perspectivas.

Foi nessa época de homem recém-emerso da adolescência que recebi uma missão. Numa dada noite, iria à casa de tio Wilson – cujo W, pronuncio V. Antes de sair, ouvi de meu pai:

“Ele precisa de alegria. Nada de tristeza, de papo sério.”

Imaginei que ser alegre não excluía falarmos de literatura, nosso assunto favorito, e aceitei o desafio.

“Tem razão. Pode deixar”, respondi, enquanto ele me olhava com ar preocupado de irmão mais novo, receoso de aconselhar o mais velho diretamente, mas sem desistir de encontrar outros meios para tanto.

“O Wilson era uma criança muito alegre,” disse-me vó Arlinda, quando já não mais podia contar com a companhia dele nos almoços dominicais. A expressão dela ao falar do terceiro filho dos doze que concebeu, o segundo que subverteu a ordem natural da vida partindo antes dela, dava à sua frase a mesma conotação que eu abstraíra das palavras de minha mãe.

Foi também na cozinha, só que da casa dele, que encontrei tio Wilson naquela noite. Já não dispunha dos mesmos braços de estivador de outrora, que cultivava na pequena academia que montara nos fundos de sua casa. Estava magro. A barba castanha de antanho, densa e comprida, também dera uma boa enfraquecida e agora trazia mais fios brancos… A metástase lhe encurtava os dias e lhe feria a vaidade.

Ao me avistar, com seus olhos incisivos, cuja autoridade paternal se precipitava das pupilas sem esforço, sentado em sua cadeira, disposta em posição cativa, que lhe permitia enxergar todos os pontos da cozinha, lançou-me um franco sorriso… Dei-lhe o costumeiro longo abraço e me senti encorajado a levar adiante a incumbência que me fora dada: “pecaria” e faria com que meu tio também “pecasse” naquela noite.

“Depois que o Wilson mergulhou nos estudos, ficou muito sério”, lembro-me de ter ouvido de meu pai. A frase parecia ilustrar a contestável idéia de que a ignorância nos embriaga de uma alegria fátua, enquanto o conhecimento nos acentua o sofrimento.

Até os vinte e três anos, tio Wilson não pudera freqüentar regularmente a escola, mas a partir daí se entregou de corpo e alma e, pouco antes de completar quarenta anos, já era advogado e professor universitário de direito. Ele era rigoroso com as questões do intelecto; difícil de agradar e ainda mais de fazer rir – ao menos rir muito. Contudo, o grande carinho que nutríamos um pelo outro me ajudava, confesso.

Começamos a jantar e, depois de falarmos um pouco de literatura, mandei umas piadas. A receptividade foi boa, o que me deu ainda mais confiança.

Então, resolvi contar a do bêbado que deixou São Paulo para tentar nova vida em Brasília. Ao chegar à Capital Federal, perambulou sem destino até encontrar uma longa fila. Aquilo só podia ser almoço grátis, supôs o bêbado. Com o progresso da fila, começou a ver um lago, no qual um homem esperava as pessoas, uma a uma, pegava-lhes a cabeça, afundava delicadamente na água, devolvia-lhes à tona e perguntava, calmo:

“Você viu Jesus?”

“Sim”, respondiam-lhe.

“Está com a graça de Cristo.” Batizava o pastor.

E assim foi até a vez do bêbado, que quando imaginou entender o que se dava, dispôs-se a colaborar.

O pastor então lhe baixou a cabeça na água para depois tirá-la e perguntar:

“Você viu Jesus?”

“Não, senhor”, respondeu-lhe o bêbado.

Outra vez, a água.

“Você viu Jesus?”

“Não.”

O pastor, já um pouco irritado, enfiou-lhe a cabeça no lago e a segurou por mais tempo.

“Você viu Jesus?”

Resfolegante, o bêbedo respondeu com outra pergunta:

“O senhor tem certeza que ele se afogou foi por aqui mesmo?”

Tio Wilson explodiu numa gargalhada afônica. Riu tanto que engasgou. Pediu licença com a mão e foi tossir no banheiro.

Fiquei preocupado. Afinal, o câncer já lhe afetara os pulmões e a tosse era violenta. Olhei para Vera, sua mulher, minha tia… Havia um riso nervoso em seu rosto.

Após alguns instantes, ele se restabeleceu. Ao retornar à mesa da cozinha, tomou seu lugar, e, chamando-me pelo apelido que me dera na infância, disse:

“Xuveja, eu não ria desse jeito há muito, muito tempo.”

Senti-me útil como poucas vezes na vida, mas não soube o que lhe responder. Apenas ri e o observei limpar as lágrimas de alegria, por baixo dos óculos, com um guardanapo.

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