Por LUCIANA TADDEO

“Por favor, não chega perto, não chega perto de mim” pensei o tempo todo que passei naquele lugar, ainda que tentando aparentar tranqüilidade. Temia a aproximação do homem caolho, a poucos metros de mim que, agitado, gritava palavras indecifráveis, puxando a gola da camiseta pra cima e cuspindo no chão enquanto balançava os braços e a cabeça.

Ele foi o primeiro paciente que vi ao chegar, com um grupo de voluntários, a uma instituição, na Grande São Paulo, que trata de dependentes químicos a pessoas com transtornos mentais. A instituição fica no alto de um morro, em área residencial e é protegida apenas por um portão de ferro. Os internos circulam livremente até um grande jardim bem cuidado em frente à casa.
 
Fazia sete graus naquela manhã de sábado e nada nos protegia do frio na grande varanda coberta onde desenvolveríamos atividades ocupacionais. Alguns internos caminhavam de um lado para o outro, falando sozinhos; outros, curiosos e tremendo de frio, sentaram-se por perto e alguns poucos se aproximaram para conversar. Um senhor sem dentes e vestindo apenas camisa e shorts, sem aparentar incômodo com a temperatura, tentava falar conosco, mas pouco se fazia entender.

Uma mulher baixa, com óculos de sol no alto da cabeça, envolveu minha face com as mãos e aproximou o rosto do meu. Apesar de seu tato carinhoso, temi uma mordida – talvez pelos vários arranhões ainda com sangue aparente em suas bochechas, talvez pela feição que oscilava entre assustada e agressiva. Ela me beijou e abriu um sorriso, interrompendo brevemente o constante desconforto que me causava seu olhar fixo em mim, que senti me perseguir durante toda a visita.

Tentava afastar o medo e agir naturalmente quando homens sujos de restos de comida ou com a calça molhada, cheirando a fezes e urina, vinham me cumprimentar. Entre muitos deles (a instituição abriga quase 150 pacientes), vi poucas mulheres. Uma delas, com fortes traços indígenas e boa parte do cabelo longo já grisalho – características que destoavam do moletom vermelho vivo, com a estampa “Champ” em letras coloridas, e de seu boné preto do “Baco’s Nightclub” -, juntou-se a nós e, com uma voz grave e muito agradável, entoou versos alusivos a Padim Ciço e Santo Mariano. Queria saber sua história. Perguntei sobre filhos e a resposta foram versos de Luiz Gonzaga:

“Meu cigarro de palha
Meu cavalo ligeiro
Minha rede de malha
Meu cachorro trigueiro

Quando a manhã vai clareando
Deixo a rede a balançar
No meu cavalo vou montando
Deixo o cão a vigiar

Cendo um cigarro de vez em quando
Pra esquecer de pra alembrar
Que só me falta uma bonita morena,
Pra mais nada me faltar
Que só me falta uma bonita morena,
Pra mais nada me faltar”.

— Sua vaca! Cachorra! Descaraaaada! – uma voz feminina mais aguda atravessou a cantoria. Olhei e disfarcei. Sentada de pernas cruzadas a menos de um metro de nós, uma mulher de cara redonda e cabelo curtinho gritava suas aflições, voltada para o grupo, mas sem alvo específico. Evitei seus olhos para que sua raiva não se personificasse em mim.
—  Piranha que roubou meu homem! Vagabunda! – continuou, com gestos agressivos. Nem parecia a mesma pessoa que, mais tarde, se agarraria a um dos voluntários com quem dançava as músicas cantadas pelos internos no videoquê.

Enquanto alguns pacientes cantavam e dançavam, envoltos por uma fileira de outros em cadeiras de rodas, a maioria pintava desenhos em papel sulfite nas longas mesas de refeitório localizado no lado esquerdo da varanda. Aproximei-me de um garoto de vinte anos e escutei sua conversa com uma das voluntárias. Chegara ao nível mais avançado de depressão, ouvia vozes e emagrecia rapidamente.

— Vou morrer, estou sentindo meu corpo parar – dizia.
—  Imagina, você tá ótimo, pintando super bem. Isso é coisa da sua cabeça – argumento.
—  É verdade, eu sinto que ele está parando de funcionar.

Às vezes, me distraía da conversa para olhar para uma moça esguia, que tremia muito. Tinha olheiras escuras, olhos arregalados, semblante sério e cabelo desarrumado e andava de um lado para o outro, sem se acomodar em nenhum lugar. Tentei puxar assunto, mas não me respondeu. Perguntei sobre ela ao garoto.

—  Era viciada em drogas e afetou a cabeça.
—  Ela fala?
—  Sim, mas muito pouco – dizia ele, que logo voltava a falar de si. – Você tem orkut? Eu gostava tanto de mexer no orkut! Olha, esse é meu nome, me acha lá e você vai ver como eu era diferente.

Um senhor sereno me contou que a “vaca” da sua mulher o tinha botado lá e roubado sua casa, que ficava no endereço tal e ele mesmo havia construído.

—  Que senhorzinho fofo! – comentei com a supervisora do abrigo.
—  É sim, mas temos que tomar cuidado com o que eles contam. Parece que ele maltratava muito a família, que não quer saber dele. A maioria dos problemas é causada por alcoolismo. Eles são encontrados na rua, tratados no hospital e trazidos para cá.

Durante o tempo em que fiquei na instituição, meus temores dividiram espaço com o remorso. Lavei minhas roupas só depois de usá-las mais uma vez para provar para mim mesma que não tinha nojo.
 
— Você não precisa se sentir assim. Não é preconceito, mas o limite de cada um – disse minha terapeuta naquela semana.

Com freqüência lembro de cenas como a da mulher magrinha e tímida, que usava meias listradas em preto e branco até o joelho com sandálias havaianas cor-de-rosa, e encostada na parede observava o movimento; a linda senhora com compridos cabelos brancos e olhos muito azuis, que tinha esparadrapos no rosto tapando os arranhões que levou da cantora pernambucana em uma disputa pelo quarto; e a do homem com cara de turco pedindo cigarro por meio de gestos cada vez que passava por mim, impaciente, como se eu tivesse e não quisesse lhe dar.

Não voltei ao local.

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