Por ANDRÉ KAMEDA

Severino voltou então para o Recife e permaneceu por mais algum tempo ajudando o tio na oficina mecânica. Depois, foi trilhar o próprio caminho. Trabalhou na Marinha, na Aeronáutica e no Exército, na parte de manutenção. Fazia pequenos consertos, reformas, reparos nas instalações elétricas e hidráulicas. No clube dos oficiais, Severino se lembra de que muitas “madames”, esposas dos militares, costumavam tomar sol à beira da piscina.

— Tanta beleza na terra e tem gente olhando pro céu. – brincava em pensamento.

Severino, ao contrário, tinha de olhar para o chão. Em respeito aos recrutas, abaixava a cabeça e colava o queixo no peito.

Depois dessa temporada em que trabalhou nas três armas, foi juntar-se aos irmãos, que migraram para São Paulo.

— Cheguei aqui no dia 5 de julho de 1974, para fazer uma visita de família e tô até hoje. Moravam aqui minha mãe, minhas irmãs, meus irmãos, só tava eu lá no Nordeste. Foi uma época que teve uma crise muito grande, ficou uma época sem chover, e a gente se achava numa situação precária. Meus irmãos estavam empregados e foram trazendo a família todinha. Naquela época, quando tinha um da família que arrumava emprego, ia puxando a família todinha. Em São Paulo tinha muito emprego, em todo canto que a pessoa chegava, arrumava trabalho.

Na primeira oportunidade, Severino arranjou serviço. Bateu às portas de uma empresa de engenharia que oferecia a vaga de ½ oficial, uma espécie de aprendiz de profissões ligadas à mão-de-obra pesada. Conheceu o engenheiro Takesu, que lhe deu muitos ensinamentos. É Severino mesmo quem diz:

— Ele falou pra mim, “Severino você sabe que a leitura e a profissão nunca é tarde pra gente aprender. Porque a gente tem de viver da profissão, sem profissão a gente não é nada. E outra: quanto mais você estiver dentro da cultura, você vai ter um desenvolvimento melhor”. E eu coloquei aquilo na cabeça e pensei: “sabe que é uma coisa importante?”. Porque eu sou do tipo da pessoa que todo conselho que derem pra mim, pro bem, um seguimento de bom caminho, eu vou pensar em realizar, eu vou seguir aqueles passos. Se eu ver que é um bom seguimento eu vou, mas se não for eu paro. Eu não vou pra frente nem vou pra trás, fico aqui mesmo. Meu esquema é esse aí. E graças a deus, eu me adaptei bem nessa parte de cultura e de literatura, lendo muitos livros, muitas revistas, jornais, gibis.

***

Em 1977, Severino largou a empresa e passou a trabalhar por conta própria, fazendo bicos na área de construção civil. Assim ficou até o ano de 1983, quando sofreu um acidente sério, enquanto trabalhava na construção de um prédio na Rua Cavalheiro, no Brás. Ele estava em cima de um andaime, escorregou e caiu de uma altura de nove metros. Na queda, uma ponta de lança de um portão perfurou-lhe o braço esquerdo inteiro, do antebraço à região do bíceps. Severino foi socorrido por um transeunte, que chamou imediatamente uma ambulância para levá-lo ao hospital mais próximo. Foi transportado ao Hospital Bandeirantes, na região da Liberdade, e ali permaneceu por 45 dias, em coma. Era apenas o começo de um suplício que duraria mais um ano e quatro meses, e que deixaria seqüelas para o resto de sua vida.

— Fiquei um ano sem andar, só em cima da cama. Um colega meu fez um desses carrinhos de quatro rodas, eu saía de cima da cama, me sentava na cadeira e chegava na bacia, pra fazer as necessidades. Um ano e quatro meses. Eu vivo à base de remédios, pra dor e pra circulação. Esse lado esquerdo é meio deficiente, quase ninguém percebe, só quem sabe é deus.

Incapacitado para o trabalho, Severino mal podia prover o sustento da família. Depois que conseguiu se recuperar parcialmente, ainda fazia uns bicos por aqui e por ali, mas o dinheiro não dava. Os dois filhos ainda tentavam ajudá-lo, mas tampouco conseguiam sustentar um padrão de vida digno. A esposa não agüentou as condições e o largou.

De trabalhador da construção civil, Severino passou a catador de lixo. Começou, em meados da década de 90, a recolher jornais, papelão e materiais recicláveis para revender a ferros-velhos e a depósitos. Nas suas incursões pela sujeira de São Paulo, encontrava ainda alguns livros esquecidos no meio dos entulhos. Limpava-os, passava álcool, guardava e zelava por eles. Nessa época já vivia sozinho, pois os filhos, crescidos, haviam se mudado de cidade. A filha fora para Santos, no litoral paulista, e o filho mais velho, para o Rio de Janeiro.

Foi quando, em 1998, conheceu Roberta, uma morena de cabelos encaracolados que há alguns anos tinha uma barraca de frutas no bairro da Liberdade.

— Eu gostava muito de abacaxi, melancia, tomar uma água de coco, manga dependendo da época. Um dia eu tomei coragem e falei pra gente almoçar. Aí a gente se entendeu e pronto, já estava junto.

Severino começou a ajudar Roberta na venda das frutas e os dois foram morar juntos numa quitinete da Rua Mauá, no bairro da Luz. No entanto, quando a prefeita Marta Suplicy retirou os ambulantes daquela região, em 2001, começaram a passar por dificuldades financeiras, pois o dinheiro que tinham reservado já ia se esgotando. Sabendo das dificuldades do casal, uma amiga de Roberta, dona Benedita, também ambulante, sugeriu a eles que fossem procurar o Movimento dos Sem-Teto do Centro (MSTC), na Avenida São João. No dia seguinte, Severino compareceu à sede do movimento e, aos poucos, foi conhecendo todo o pessoal.

*Acompanhe a continuação dessa história no dia 6 de setembro.

Veja a primeira parte dessa história aqui.

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