Excertos do ensaio: História Oral de Vida: Um diálogo do documentário de Eduardo Coutinho com o Jornalismo Literário

Por ERIKA MORAIS

Eduardo Coutinho é considerado hoje o mais importante documentarista brasileiro. Realizou filmes de ficção, além de trabalhos para a televisão, como diretor do programa Globo Repórter nos anos 1960, da TV Globo, quando iniciou profícua carreira focada em documentários. Teve seu trabalho reconhecido com o premiado Cabra Marcado Para Morrer, concluído em 1984, um marco do documentário brasileiro, e de lá para cá, os prêmios e reconhecimento por parte de cineastas, críticos e publico em geral só cresceu.

O trabalho de Eduardo Coutinho sempre teve como destaque a narrativa. Seus filmes não existiriam sem personagens e suas histórias e, principalmente, sem a relação criada pelo diretor entre o documentarista, o pesquisador curioso e sensível, de ouvidos e olhos atentos, com seus personagens.

Neste ensaio pretendo mostrar a existência do método de História Oral de Vida em Jornalismo Literário nos três últimos documentários realizados por Eduardo Coutinho*: Edifício Máster (2002), Peões (2004) e O Fim e o Princípio (2005). Em toda a obra de Coutinho é possível encontrar a presença do método de História Oral de Vida, porém, não de forma tão incisiva e seqüencial com em seus últimos trabalhos. Talvez, em se tratando de qualquer outro documentarista, consideraria uma “tendência” em seus trabalhos, porém, Eduardo Coutinho nos mostra, a cada filme concluído, uma obra viva, dinâmica e mutante. Um cineasta que não estabelece regras definitivas, o que faz com que seus documentários sempre tragam algo de inovador para o cinema brasileiro.

A História Oral e a História de Vida

Considerada uma ferramenta da pesquisa qualitativa, o método de História Oral é utilizado não só por historiadores, mas também por cientistas sociais, antropólogos, educadores e profissionais das diversas áreas das Ciências Humanas.  Segundo a Associação Brasileira de História Oral “As gravações de entrevistas com testemunhas da história teve início na década de 1950, após a invenção do gravador à fita, na Europa, nos EUA e no México. A partir dos anos 1970, as técnicas da história oral difundiram-se bastante e ampliou-se o intercâmbio entre os que a praticavam. (…) Os anos 1990 assistiram à consolidação da história oral no meio acadêmico (…)” (Associação Brasileira de História Oral).

A História Oral surgiu para valorizar as memórias de indivíduos. Resgatando a tradição oral, o método busca a visão e versão de experiências vividas por atores sociais que a “história tradicional” deixou à margem.

Da mesma forma que a História Oral é ferramenta da pesquisa qualitativa, o método de História de Vida está intrinsecamente ligado à História Oral. A Doutora em Serviço Social pela PUC – SP Maria Angela Silveira Paulino, cita Queiroz (1988) para explicar que “(…) a história de vida (está) no quadro amplo da história oral que também inclui depoimentos, entrevistas, biografias, autobiografias.”(PAULINO, 1999).

A História de Vida como recurso do Jornalismo Literário

Não é só no método que reside a familiaridade da História de Vida com o jornalismo. O Jornalismo Literário “bebe” na fonte da História de Vida quando busca em suas narrativas, retratar o cotidiano, dar voz aos que não a têm, a retratar “pessoas comuns”. Não significa que o Jornalismo Literário esteja “preso” a estas características. Textos de qualidade, com características de Jornalismo Literário retratam, também, “pessoas famosas” e grandes eventos históricos, porém, essas retratações são mais evidentes no “jornalismo convencional” e as semelhanças conceituais com a História Oral fazem parte do amplo leque de possibilidades característicos do Jornalismo Literário.

Percebo que o “jornalismo convencional”, principalmente o oriundo da escola norte-americana**, com suas regras pré-estabelecidas de lead, pirâmide invertida, entrevista ping-pong, está para a pesquisa quantitativa, como o Jornalismo Literário, com suas características de imersão, mergulho na subjetividade, voz autoral, está para a pesquisa qualitativa e seus métodos dentro da História de Vida.

Como dito anteriormente, a História de Vida é um método que utiliza a autobiografia, centrada em indivíduos ou grupos sociais. Da mesma forma o Jornalismo utiliza da autobiografia na construção de seus textos narrativos de memórias, biografias e perfis. Para que exista uma “história de vida” é necessário, prioritariamente, que exista um personagem, alguém que narre esta história. O Jornalismo Literário, assim como os filmes de Eduardo Coutinho, não existe sem personagens.

Jornalismo Literário e História de Vida em diálogo com o documentário de Eduardo Coutinho

A partir dos anos 1960, surge o moderno documentário brasileiro, quando os filmes educacionais e institucionais dão vez à reflexão do cineasta sobre o país e seu povo. Desigualdade, subdesenvolvimento, a valorização das questões regionais fazem parte desse leque reflexivo do documentário neste período, quando o documentário brasileiro “(…) se fortalece como gênero influenciado pela linguagem do cinema verdade/direto, distanciando-se da abordagem educativa-cientificista.”(GONÇALVES, 2006)

O cinema-direto e o cinema-verdade

No início da década de 1960, o cinema documentário brasileiro, até então visto como didático e de exposição, recebe a influência do que se convencionou chamar de “cinema-verdade” e “cinema-direto”.

Surgido nos Estados Unidos, a partir do trabalho dos cineastas Robert Drew e Richard Leacock, o cinema-direto caracteriza-se pela idéia de realismo, observação, a invisibilidade da equipe de realizadores e ausência de narração. Com câmeras mais leves, som sincronizado com a imagem e filmes mais sensíveis, Drew e Lecock procuraram captar a realidade com o mínimo de intervenção possível do cineasta e sua equipe. Para o cinema-direto, a realidade deve ser transmitida ao espectador de forma menos intermediada possível, por isso o nome “direto”. Muito se tem produzido no recente documentário brasileiro sob influência desta escola, como os excelentes: Nelson Freire, de João Moreira Salles e Justiça, de Maria Ramos.

Paralelamente ao surgimento do cinema-direto, nos Estados Unidos e utilizando das mesmas tecnologias, surgiu na França, o cinema-verdade, cujo principal nome é o do cineasta Jean Rouch.  Diferente do cinema-direto, o cinema-verdade faz uso, prioritariamente, da entrevista, na qual é registrado não só o entrevistado, mas o aparato fílmico, o cineasta e a equipe de filmagem. Enquanto o cinema-direto se recusa a dar visibilidade ao processo de filmagem, o cinema-verdade faz questão de expor esse processo, por acreditar que este faz parte da realidade.

O cinema-verdade utiliza a câmera como elemento catalisador da verdade na relação com seus personagens, em que todo momento fílmico é uma construção de realidade. Aqui existe um pacto implícito ou não, entre personagens, cineasta e espectadores, quando todos estão cientes da construção e condução cinematográfica, permitindo tomada de posições, respectivamente nas formas de encenação frente à câmera, sempre única, inédita, interação junto à encenação e recepção de acordo com a assimilação.

* Jogo de Cena é o nome do mais novo filme de Eduardo Coutinho. O filme que “mistura o real com o encenado” foi apresentado há uma semana no Festival de Gramado, onde Coutinho foi premiado com o novo troféu Kikito de Cristal, por sua carreira.
** Tendência jornalística surgida com a industrialização da imprensa, que se baseia no culto à objetividade, por meio de métodos como os do lead e pirâmide invertida. Este modelo é adotado prioritariamente pela imprensa brasileira


Dia 07 de setembro estes excertos continuam, com os incríveis personagens de Edifício Master, o método de pesquisa de Peões e a sensibilidade de O Fim e o Princípio.

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