Por FELIPE MODENESE

A Rua Manoel da Nóbrega nasce no Ibirapuera, desgarrando-se da Avenida Brigadeiro Luis Antonio e deságua no leito da mesma Avenida Brigadeiro à altura da Avenida Paulista. Contribui ao fluxo que desemboca no centro de São Paulo. Mas antes de ser interrompido, o delta da foz dessa rua guarda um recinto com alguns restaurantes.

Bem no triangulinho (visto de http://maps.google.com/ procurar por Avenida Brigadeiro). Eis o cenário!
 

O medalhão com risoto ao funghi é saborosíssimo. Dezenas de paulistanos rangam, conversam, olham. O almoço precisa ser aproveitado. O tempo é curto na sexta-feira da capital. Decisões sendo tomadas pelo celular dos sozinhos. Gargalhadas dos amigos e colegas reunidos tilintam com os talheres.

Mas péra um pouco… Um som está diferente.

É um gemido – parece vir de um porão escuro.

Destoa.

Toma corpo, avoluma-se.

O gemido sôfrego de uma mulher cala algumas vozes e vai calando outras, hipnotiza olhares, rouba apetites.

Minha cabeça vira em busca do ruído, do som vencedor: a idosa sentada segura o joelho esquerdo e uma bengala de pé. Geme cada vez mais alto ao tentar respirar.

“Vixeee. Coitada da mulher. Acho que tá tendo um ataque de asma”.

A resposta organísmica é imediata. Sinto calor brotando na barriga, sobe até a garganta e pára aí. Estou suspenso, sem ação, em pânico acomodado.

A finitude baforiza o ambiente, petrifica o coração acelerado.

Chamam socorro.

Alguns piscam e retomam os garfos e facas. A maioria sai do estado tetraplégico e volta a mastigar. Um chama a atenção do outro – comentam. Minha cabeça retorna. Fico imóvel e o risoto deixou de ser o mesmo. O relógio chibateia.

Os brônquios permanecem constritos. O ar ressecado e poluído das ruas de São Paulo teima em não entrar, mas o coração pulsa cada vez mais rápido. Os olhos do lugar confiam que vai passar.

Viro de novo e a mão que segura o joelho aperta a bombinha. A trêmula mão aperta mais uma vez. Exausta, a senhora leva os olhos escuros e pequeninos ao teto. Parece ver além dele…

Pena, indignação e inação espremem-se contra a madeira das cadeiras.

Chegam os socorristas do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). Com mochilas, o casal de macacão azul marinho tenta acalmar a velha. Aos poucos o peito enche… Conseguem deixá-la de pé e conduzem-na ao furgão na calçada.

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Os dentes dos garfos e os pauzinhos voltam à atividade. Outros dentes voltam a triturar… A comida volta ao sentido normal.
 
A vida retoma seu fluxo. O dia volta, mas é outro. Por extensos minutos a morte distinguiu-se da vida, provocou pânico antes de desembocar de volta a sua natureza, a vida.  

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