Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

“Mas ambos eram comprometidos. Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.”
Tentação, Clarice Lispector, in “Felicidade Clandestina” –
Ed. Rocco – Rio de Janeiro, 1998.

Lá ia ela, descendo a rua, falando, falando, gesticulando, como sempre fazia. Mãos dadas com a mãe, olhava para frente, sem se dar conta dos buracos das calçadas, das sujeiras e poças que tinha de desviar, dos postes que podia dar com a cabeça. A mãe tentava protegê-la dos perigos, puxando-a para lá e para cá.

De repente, parou. Foi sua vez de dirigir a mãe. Brecou-a na calçada. Próximo a uma casa, um cachorrinho vira-lata, com um corpo comprido assemelhado ao de um basset, fitava-a com firme melancolia.

Seus olhares se cruzaram. A menina puxou o braço da mãe.

— Olha, mamãe, que lindo.

— Sim, uma gracinha.

O cãozinho logo cedeu ao encantamento das duas. Deitou-se aos pés da filha e nem precisou implorar por amor. Logo aquelas mãos de criança de 5 anos encheram-lhe de carinho. Ele gostou, pediu mais. Ela foi generosa.

Mas a mãe tinha pressa. Interrompeu aquele namoro e continuaram a jornada. O cachorrinho as seguiu. Para lá e para cá, incansável. A porta de casa se aproximava. Foi aberta pela mãe. A filha hesitou em entrar. Olhou para o cachorrinho, olhou para a mãe.

— Ele quer ficar com a gente.

— Ah, não podemos, você sabe.

— Eu sei. Mas ele deve estar com fome, será que não?

— Sim, pode ser… Vamos ver o que podemos dar para ele, então.

Na esquina mais próxima, um bar. No balcão, esfihas com cara de amanhecidas aguardavam pelo cãozinho pidão.

— Moço, me vê uma esfiha. É de carne, né?

— Humm, ele vai adorar, não é, mamãe?

Mal a menina pegou a esfiha, o cachorrinho já veio para o seu lado, pulando, abanando o rabo, feliz.

Devorou o alimento.

— Olha, ele está com muita fome, coitadinho.

— Sim. O que vamos fazer agora? Ele insiste em entrar em casa…

— Vamos dar mais uma voltinha, mamãe, por favor. Acho que ele deve estar com sede.

A mãe cede aos desejos da garotinha, que está encantada com a devoção do animal por ela.

A menina agora já quase não fala, apenas olha seu companheiro que a segue, decidido. Sobem para uma rua mais movimentada. Cachorro e criança brincam, ela ri, ele abana o rabinho, pula, corre.

Num bar mais adiante, novo salgado à base de carne e água para o bichinho. Ah, a mãe também pede arrego e decide se hidratar igualmente.

O cachorrinho devora o novo alimento ofertado, bebe da água fresca. Mas não perde de vista a menina. O telefone da mãe toca, há um compromisso a ser honrado em breve, a hora passa, estão atrasadas.

A mãe explica o que está acontecendo, a pessoa do outro lado ri, sugere que o cachorro entre na casa, seja adotado. Mas a mãe não está certa disso. Em sua casa – ou melhor, um apartamento, já há dois gatos e outra criança além da menininha de 5 anos. E um marido. Como conciliar tudo isso sem perder o juízo?

Resolve seguir em frente, dura, passos decididos. O cachorrinho está bem alimentado, tem saúde, vai ficar bem. Tenta convencer a garotinha. Ela não aceita logo os argumentos da mãe, mas, por fim, parece compreender que o cachorro tem de ficar na rua.

Um olhar para trás, porém, põe tudo a perder.

— Mamãe, diz entre lágrimas sentidas. Mamãe, por favor, tô com muita pena desse cachorrinho. Me abraça, mamãe, me ajuda. Estou triste, não quero deixar ele aqui.

A mãe abraça a filha, pega-a no colo, choram juntas. Fica decidido, então, que o pequeno vira-lata irá para a casa delas. Dá-se um jeito.

A menina pula no chão, grita de alegria.

Vão caminhando lado a lado, fazendo planos para o novo hóspede, que as segue embevecido com tanta solidariedade.

No caminho para casa, porém, a revelação. Um homem assobia forte do outro lado da rua, mais abaixo de onde caminha o trio. O cachorro levanta as orelhas e sai correndo. Faz festa para um rapaz, abana o rabo, pula alto. Entram ambos numa casa ajardinada, brincando um com o outro. O moço coloca a coleira no bichinho e ralha com ele suavemente.

— Seu danado! Você sempre dando suas escapadelas e me pregando sustos, né?

Mãe e filha se olham surpresas. A menina fica estática por uns segundos, mas por pouco tempo. Logo escorrem lágrimas sentidas de seus olhos.

A mãe não fala nada, apenas a envolve com seus braços, solidária, olhos também molhados.

Aqui, o cachorrinho, como no conto de Clarice, foi também mais forte do que ela: “Nem uma só vez olhou para trás.”

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