Quando o tempo não é mais o mesmo 

Por SILVIA NOARA PALADINO

Um simples passeio despretensioso pelas principais vias de Bangkok, em uma manhã de segunda-feira, revela pistas fundamentais sobre os valores e o estilo de vida dos tailandeses. Tenho a sensação de que caminho por dentro de uma estufa que encobre toda a extensão da avenida Sukhumvit, semelhante a qualquer centro de negócios de São Paulo, com grandes bancos e, também, pontos comerciais mais modestos. Enquanto tento abstrair o incômodo do jeans que gruda nas minhas pernas e do cabelo que custa a permanecer preso, pedestres pedem passagem aos motoristas que ignoram os semáforos vermelhos e as faixas de travessia. Para aqueles que não detêm qualquer conhecimento sobre os hábitos locais mais rotineiros, os grupos que se formam, casualmente, por tailandeses de camisas amarelas parecem até mesmo trabalhadores uniformizados em horário de almoço. Trata-se, contudo, de uma demonstração de respeito – estimulada não por obrigação, mas por gratidão – ao rei Bhumibol Adulyadej, que celebrou recentemente os seus 60 anos de posse do trono da Tailândia.
 
Conforme a tradição regional, cada dia da semana possui uma cor. Assim, as segundas-feiras, dia de nascimento de Sua Majestade, estão reservadas ao amarelo. As homenagens ao rei, contudo, se estendem a cada casa em que a bandeira da Nação está colocada ao lado da bandeira da Família Real, a cada quadro pendurado na parede com o semblante de Bhumibol Adulyadej, ao lado de sua esposa e rainha, que comemora aniversário no dia em que o país celebra o dia da mães.  A presença do líder da monarquia constitucional pode ser notada ainda em cada campo de cultivo de arroz contemplado por seu projeto de eliminação e substituição das plantações de ópio. Ou seja, não foi difícil  compreender a importância do primeiro conselho que tive ao definir a Tailândia como destino de minhas próximas férias: “Não fale mal do rei. Melhor ainda…não toque nesse assunto.”
 
Embora o alerta inicial possa soar como um sinal de que a admiração dos tailandeses pelo seu rei chega a um certo fanatismo,  tal idéia deixou de fazer sentido quando percebi que radicalismos não criam uma combinação harmoniosa com o comportamento do povo tailandês. A disposição em reconhecer os esforços de um homem que parece tão comum quanto qualquer outro cidadão me parece mais sutil. E é com a mesma sutileza que as pessoas por aqui levam as mãos junto ao peito, unindo as palmas, ao mesmo tempo em que inclinam levemente a cabeça para baixo, para cumprimentarem-se umas às outras: Sawadika!. Nos movimentos faciais, vejo serenidade, mesmo quando os sábados e domingos de congestionamento me fazem reavaliar se o trânsito de São Paulo é tão irritante quanto eu pensava. Posso afirmar que, em vinte dias, não presenciei um ato sequer de violência verbal – nem mesmo um olhar furioso de um motorista impaciente -, muito menos física. Descrição que existe ainda na maneira como se vestem, com exceção das garotas mais abertas à modernidade, que combinam um estilo boneca com sapatos de bico fino e blusas sem manga.
 
Aqui, o tempo parece ter o seu próprio ritmo, embora os fusos horários me coloquem dez horas à frente da minha vida que tanto me faz falta. Três semanas podem parecer três meses, quando as saudades andam lado a lado com uma embarcação que não tem pressa de chegar. Uma percepção abastecida ainda por cada vez que cruzo na rua com um monge budista, trajando suas túnicas de cores quentes, como laranja e vermelho, de acordo com a idade e a maturidade religiosa. Ou ainda por algumas horas de passeio pelo mercado flutuante de Damnoen Saduak, na província de Ratchaburi. A aproximadamente 100 quilômetros de Bangkok, um espetáculo de cores, barulho e turistas surpreendidos pela sensação de que o século passado ainda é hoje. Nesse típico mercado tailandês, barcos de comerciantes e visitantes percorrem os estreitos canais que abrigam também as palafitas que servem de moradia para a população local.
 
Ao tirar os sapatos para entrar em um templo budista – seja ele o guardião de uma das mais valiosas imagens de Buda, de um dourado que incomoda a vista, ou um simples refúgio religioso, localizado em uma esquina qualquer de Bangkok –, o alívio dos pés descalços que tocam o carpete macio me traz a certeza de que não há razão para cultivar o anseio pelo minuto seguinte. E que a espera não precisa ocupar o espaço do ar nos meus pulmões. Sento sobre as minhas próprias pernas, com os joelhos unidos, enquanto o vento entra pelas largas janelas e afasta o calor exaustivo que faz minha pressão cair. Noto a aproximação de uma tailandesa, que se senta da mesma forma e faz três reverências a Buda – em nome da Religião, da Nação e da Família Real. Volto a me concentrar na temperatura do meu corpo, que recupera, aos poucos, a normalidade. A calma é espontânea. Estou integralmente em um só lugar, estacionada em um instante infinito, dentro de uma única pessoa.

“Um lugar quase comum” é o título para diversas matérias (não seqüenciais) em que relato a viagem que fiz para a Tailândia neste mês.

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