Por ANA PAULA DO REGO

Sob o céu enegrecido pela escuridão da madrugada, todos os dias ele me espera no portão de casa. Rua deserta. Silêncio contínuo, saio e logo o comprimento:

— Bom dia, Tchou!

— Bom dia! – ele me responde

Na verdade seu nome é Edson, mas todos o conhecem pelo apelido: Tchou. Meu vizinho da frente desde sempre, é ele quem me acompanha até o ponto de ônibus quando saio para o trabalho. Às vezes, durante o caminho de menos de um minuto de casa até o ponto, ele já vai me contando os últimos acontecimentos da rua, sempre atento, não perde nenhuma novidade sobre os vizinhos, sobre o que viu ou fez no dia anterior, não que Tchou seja fofoqueiro ou queira se gabar de algo, mas isso é um passatempo para as limitações de sua vida simples e ingênua.

Diariamente seguimos nossa rotina, a minha com dias cheios de problemas a resolver, trabalho, cansaço, a cabeça a mil, para Tchou, que aos 34 anos devido a uma deficiência mental possui a mentalidade de uma criança de 10 anos, sua rotina se resume a me levar ao ponto, buscar pão na padaria, passear com o Bingo (seu cachorro) e depois ir trabalhar em uma oficina de costura nos fundos de um quintal a três quadras de onde moramos. Ele trabalha há muitos anos nessa pequena oficina, ele corta as linhas que sobram das roupas já costuradas, recebe pouco dinheiro e entrega uma parte para a sua mãe, com quem mora além de seu pai, irmãos e sobrinhos.

Tchou é metódico com seus horários, pois mesmo nos finais de semana, feriados ou quando vai dormir mais tarde, ele faz questão de acordar no mesmo horário de todos os dias e seguir a sua rotina, nada o faz mudar em relação a isso.

Com seu corpo franzino de quem pesa aproximadamente 45 Kg, sua aparência pacata e observadora, ele é fácil de se reconhecer pela roupa que veste, o uniforme do Corinthians, já surrado devido ao constante uso. Nos dias de jogo do seu time do coração posso ouvi-lo gritar de animação a cada gol feito, sua voz é inconfundível.

Enquanto estamos no ponto de ônibus posso observá-lo melhor. Percebo que seus olhos não param, sempre alerta, sua boca dificilmente se fecha devido aos dentes grandes que possui na parte frontal, pode ser por isso e também um pouco pela sua deficiência que às vezes fica difícil entender o que diz, mas isso não impede de conversarmos e de Tchou já ter me feito, sem saber, emocionar com suas atitudes e histórias ingênuas de uma criança que somente cresceu em tamanho.

Lembro-me de que quando eu era criança, Tchou e seu irmão gêmeo Edílson estudavam em uma escola pública que tinha salas especiais para alunos deficientes. Estava sentada na calçada quando ele me perguntou se eu poderia ensiná-lo a resolver umas contas de matemática, eram continhas simples de subtração, soma, mas com o seu caderno em mãos, páginas em branco devido à dificuldade de compreender aqueles números, eu tentei ajudá-lo, mas as suas limitações eram tão grandes que não consegui, eu não tinha esse dom, como poderia?

Outra história que me emocionou muito. Tchou tem vários sobrinhos, mas o mais novo dentre os homens é uma criança e se tornou o seu companheiro nas horas de sair para o shopping. Outro dia ambos foram a uma loja de brinquedos, ficaram brincando com um carrinho de controle remoto e Tchou só não o comprou pois era muito caro e estava sem dinheiro, mas parece que por um bom tempo virou o sonho de consumo dele.

Por falar em carros há uma coisa que Tchou adora: trânsito, isso mesmo, trânsito. Em sua cabeça ingênua ele gosta de ver a quantidade de carros parados, os movimentos lentos, o caos. O que para nós faria perder a cabeça, para ele é motivo de alegria.

— Às vezes eu “tô” na sala assistindo TV aí eu escuto os carros subindo a rua. Eu conto … 1,2,3….até 10, quando chega no 10 eu sei que é trânsito então saio no portão para ver – me conta entusiasmado.

Tchou não se esquece de uma vez, de quando precisava pegar ônibus para trabalhar e de manhã estava um trânsito infernal, nada andava, todos os passageiros desceram e preferiram ir andando, ficou somente ele dentro do ônibus com o motorista e o cobrador esperando pacientemente durante horas o trânsito se desfazer.

Há uma outra coisa incomum de que ele adora e quase enlouquece quando vê: policial e carro de policia. Como uma criança, Tchou é fascinado por isso, então imaginem como ele ficou quando ao me esperar no portão um dia desses, uma viatura parou para questioná-lo o porque dele estar ali àquela hora.

— Estou esperando minha colega para levá-la até o ponto – ele responde

— Aonde você mora? – o policial pergunta.

— Ali na frente

Nesse dia, ao caminharmos até o ponto, Tchou já foi me contando os detalhes e dizendo o que poderia ter respondido a eles se tivesse mais coragem.

— Em vez de me “enquadrarem” porque não vão procurar os bandidos que estão por aí.

Isso foi assunto para dias.

Na semana passada algo estranho aconteceu, quando saí no portão Tchou não estava me esperando, de tão acostumada com a sua presença comecei a me preocupar e subindo a rua ia olhando para a sua casa na esperança de vê-lo, “Acho que perdeu a hora!”, penso e isso me satisfaz.

No dia seguinte ele aparece.

— Bom dia, Tchou, você está sumido, hein! Perdeu a hora ontem?

Com um olhar pesaroso e meio cabisbaixo ele responde:

— Fiquei mal ontem, Paula, desmaiei duas vezes, uma no banheiro e a outra na cozinha.

— Mas o que foi Tchou? – Pergunto preocupada.

— Quando eu fico com gripe eu fico assim…

— Você come bem, Tchou? – pergunto vendo a sua fragilidade

— Ah! Como duas colheres de feijão, arroz,…assim…

Na verdade, Tchou não se alimenta bem, sempre foi assim, seu irmão gêmeo já havia dito que ele é metódico até para comer, come um pouquinho nas refeições principais e só, por isso qualquer gripe, resfriado que o contagie já é motivo para preocupação, seu corpo é fraco e como uma criança teimosa não se agasalha devidamente, isso pude comprovar nesse inverno, debaixo do frio maldoso da madrugada, Tchou e sua jaqueta fina do Corinthians e nada mais.

— Nem fui trabalhar, fiquei deitado o dia inteiro, minha mãe falou que nem hoje eu vou trabalhar, vou ficar em casa descansando e tomando remédio, já liguei pro meu patrão e avisei – diz desanimado e continua em meio a uma crise de tosse do qual se curva inteiro até passar – O meu irmão vai marcar uma consulta no posto de saúde pra mim.

É difícil enxergá-lo como um adulto, basta percebê-lo para denotar que Tchou é uma criança que vive em um mundo particular no qual preocupações, obrigações e atitudes de um homem da sua idade não entram. A ingenuidade de suas conversas às vezes assusta e me pergunto constantemente se Tchou sente ansiedade, angústia. Pensando bem chego a conclusão de que as crianças são felizes justamente por ainda não se deixarem contaminar por esses sentimentos, então que Tchou continue vivendo e seguindo sua rotina, me acompanhando até o ponto, buscando pão na padaria, passeando com o Bingo, se deslumbrando com o trânsito…

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