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Por LUCIANA NORONHA

No Brasil, Gabriel e sua família foram recebidos por um funcionário da Acnur, em 18 de julho de 2005.

Passamos pela fronteira e já vimos outro panorama. Encontramos uns amigos em Corumbá, e foi tão linda a acolhida que nos deram que ficamos duas semanas lá. Depois de passar por tantas amarguras, tantas coisas horríveis, aquilo foi maravilhoso. Eles também nos deram as passagens para que pudéssemos ir a São Paulo.

Quando chegou em São Paulo, Gabriel foi levado a um hotel, onde permaneceu por um mês. Normalmente, os refugiados recém-chegados à cidade são encaminhados a albergues municipais, mas devido à gravidade da situação por que havia passado a família, o procedimento foi alterado.

Em São Paulo, Gabriel deu início a uma vida completamente nova. Ao ver que a cidade oferecia boas oportunidades de trabalho e de estudo, ele se encheu de ânimo. Em poucos dias começou a ter aulas de português, e matriculou-se nos cursos de eletricidade e pintura, oferecidos pelo Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

Graças ao convênio mantido entre a Acnur e organizações como o Sesc e o Senai, Gabriel pôde cursar estes cursos gratuitamente. Matriculou-se também em um curso de soldagem e assim foi alcançando algumas qualificações profissionais, o que, infelizmente não lhe garantiu um emprego fixo, até hoje.

Hoje eu faço serviços por conta própria, como pintor e serralheiro. Aqui é muito difícil arrumar emprego, porque, se você fala que é refugiado, eles dizem que vão te ligar amanhã, mas não ligam, é mentira. Existe muito preconceito. Principalmente porque aqui no Brasil as pessoas não tem a menor idéia do que é um refugiado. Alguns pensam que o refugiado é um delinquente, outros pensam que você tem um problema político. Acho que confundem refúgio com asilo político.

Além disso, se você fala pra alguém que é colombiano, já te perguntam sobre a “farofa”, e sobre o Pablo Escobar. Alugar uma casa também é muito difícil, porque não temos fiador. Ninguém quer alugar nada para um refugiado. Seria bom que o CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados), junto com a Acnur, as universidades e a imprensa, fizessem uma campanha para ensinar às pessoas o que é um refugiado.

Enquanto este processo de conscientização não acontece, Gabriel luta por medidas que reduzam os problemas enfrentados pelos refugiados no Brasil. Ele cita a exclusão do termo “refugiado” das carteiras de trabalho como uma importante conquista. E trabalha, neste momento, pela exclusão do mesmo termo das carteiras de identidade dos refugiados reconhecidos no país.

A necessidade da luta pelos direitos dos refugiados fizeram com que Gabriel se unisse a outros colombianos para fundar uma associação de refugiados, que os permitisse atuar de modo organizado. A associação, que por enquanto só existe de modo informal, terá Gabriel como presidente. Para oficializá-la, seus membros têm esbarrado em entraves burocráticos, que demandam dinheiro, e acabam paralizando o processo. Nenhum deles pode arcar com as despesas necessárias para tirar a organização do papel.

Apesar de sua atuação no Brasil, Gabriel não desgruda os olhos de seu país. Ele acompanha o que acontece na Colômbia pela internet, além de manter contato e trocar informações com amigos. Ele sabe, por exemplo, que nos próximos meses o Brasil deve receber muitos solicitantes de refúgio.

No Equador já existem muitos colombianos. O Panamá já não os recebe mais. A Venezuela está saturada, o Chile também. Então, a opção é o Brasil. E no Brasil, a opção para o refugiado é São Paulo, porque o trabalho está aqui.

*

Hoje, Gabriel carrega na carteira quatro documentações diferentes: colombiana, equatoriana, peruana e brasileira. Seria muito bom se, de toda esta história, apenas os documentos houvessem permanecido. As lembranças são muitas, e difíceis de apagar. Mas Gabriel acredita que, no futuro, elas se tornarão apenas cicatrizes.

Apesar das dificuldades que encontrei, não me arrependo de ter vindo ao Brasil. Desde que cheguei aqui, tenho passado por uma transformação excelente. Já não sou agressivo, nem violento. E o acompanhamento que faço com o psiquiatra já me ajudou muito.

Quando cheguei ao Brasil, eu tinha delírios de perseguição, assim como tive no Equador, no Peru. Mas isso eu já superei. O tamanho de São Paulo serve também para vivermos mais sossegados, anônimos, e nos adaptarmos melhor à sociedade.

Às vezes, eu penso que estou sendo observado. Claro, por tudo o que aconteceu. Na verdade, existem mesmo muitos refugiados colombianos aqui que são paramilitares. Minha esposa até hoje tem medo de sair e encontrar alguém do passado. Mas eu não. Eu não quero viver com esta perspectiva.

* Esta é a última parte do texto seriado História de um refúgio. Para ver os outros episódios clique nos links abaixo:
Parte I
Parte II
Parte III

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