Tariana Hackradt 

What could it be, it’s a mirage
You’re scheming on a thing, that’s sabotage”

(Beastie Boys, em Sabotage)

Quatro mil pessoas estavam presentes na tenda montada na Marina da Glória. Todos os olhos voltados para o palco. De repente, as luzes se apagaram. Não de uma vez. Devagar, aos poucos, uma a uma. Gritos, urros, empurrões, palmas, pulos. Não dava para conter. Cada um com sua reação, sentindo cada vez mais perto. Depois de uns dois minutos, ovacionado, entra Mix Master Mike e ocupa seu lugar de honra nas pick-ups. E aí, ele anuncia. E eles entram. MCA, Mike D e Ad-Rock, cada um com seus quarenta e poucos anos. Cada um com seu terno elegante. Cada um com seu vigor juvenil que as vestes mais contidas não conseguiam esconder. E nos microfones, gritam: “I kick my root down, I put my root down”. Eu, amassada na grade, suada, cansada, feliz e com dor no pé, assistia ao melhor show da minha vida. E assim fiquei, por quase duas horas, cantando, pulando e chorando. Eu e os Beastie Boys.

Time to Get Ill

Uma coisa engraçada acontece comigo em shows de bandas que gosto muito. Geralmente, nas cinco primeiras músicas, fico tão entorpecida com toda a situação que mal consigo me mexer ou cantar. Me movimento junto com a massa e, mesmo sabendo todo o repertório de cor e salteado, emplaco um sorriso idiota na cara e permaneço ali, olhos fixos no palco, com cara de boba. Pode parecer ridículo, mas essa é uma das melhores sensações do mundo.

Quando o show começou, minha mente me transportou de volta a década de 90. Fui direto para as calças do meu pai que eu usava para ficarem, propositalmente, largas em mim, para minhas camisetas compridas da Adidas e para meus primeiros pares de All Star. Enquanto Mike D arriscava passos de break no centro do palco, eu me via de novo nas matinês de Guarulhos, de onde saía machucada depois de entrar em rodas de bate-cabeça com os meninos, mais velhos, maiores e, é claro, mais fortes do que eu.

Ad-Rock era o mais engraçado. Ele vestia um terno marrom, o mais claro dos três. Para combinar, um chapéu de aba curta, redondo, que ficava meio de lado em sua cabeça, o deixando com uma expressão um pouco ingênua. Ele conseguia acentuar isso quando dançava jogando o corpo de um lado para o outro, como que em câmera lenta, com os pés fixos no chão.

Mike D, o nome mais popular do grupo, era o que demonstrava uma energia maior. Seus cabelos encaracolados lhe davam um ar cômico. O Adidas branco que calçava, e que não combinava com o terno, lhe conferia uma aparência mais jovem ainda. Se alguém fosse chutar sua idade, provavelmente ele iria ganhar uns 20 e poucos anos.

MCA parecia um mafioso. O único com cabelos grisalhos, vestia um terno mais sereno, quase preto, com uma camisa listrada por baixo. Entrou no palco com uns óculos escuro e não veio muitas vezes para frente. Em algumas músicas, parecia cansado. Mas logo depois se recuperava e, mesmo no fundo, pulava feito maluco.

Os três fizeram o show quase inteiro só com microfones, acompanhados pelo DJ Mix Master Mike. Ele remixava de uma forma tão perfeita que mal se podia ver o movimento de suas mãos. Em um dado momento da apresentação, mixou com o cotovelo. Perfeito! E o público vibrava!

Apoteose

“Thank you, Rio de Janeiro”, assim, com sotaque arrastado, antes de saírem do palco. O público, ainda em êxtase, batia os pés nos chão incessantemente, tal como no começo.

“O que será que tem no bis?”

“Tem que ter Sabotage, ainda não tocou!”

“Tô nervoso, mano!”

“Beastie Boys! Beastie Boys! Beastie Boys!”

E o coro foi crescendo, e as expectativas aumentando.

Assim que os roadies começaram a tirar os panos que cobriam coisas grandes que estavam no palco desde o início do show, um longo e sonoro “caralho” foi ouvido de, mais ou menos, 70% das bocas presentes na Marina da Glória. O bis seria com banda. Era o que todos esperavam e queriam.

Os gritos chamando pelo nome do grupo aumentaram mais e mais.

De repente, em meio ao barulho ensurdecedor, quando o local já parecia não suportar mais tanta pressão, eles voltaram ao palco. Mike D sentou-se atrás da bateria, AD-Rock assumiu a guitarra e MCA ficou com o baixo. Deram os primeiros acordes de Intergalactic e, aí sim, pensei que o local fosse desabar.

Depois, passaram para Gratitude e, por fim, a que eu havia esperado tanto para gritar junto com eles, a apoteótica Sabotage.

Ao fim da apresentação, com as lágrimas já descendo pelos cantos dos olhos e se misturando ao suor que tomava o corpo inteiro, a sensação mais agradável do mundo. O alívio. “Já vi Beastie Boys, nem acredito!”

Depois, táxi para aeroporto, avião para São Paulo, ônibus para a Avenida Paulista e trabalho. Sem dormir, deveria estar cansada. Mas não estava. E me peguei (e também me pegaram) cantarolando sozinha o refrão de Sabotage na reunião de pauta. E entoei o de No Sleep ‘Til Brooklyn no almoço, e a introdução de Paul Revere no metrô. Louca? Não, feliz!

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