Por SUZANA VIER

Foram menos de dois anos, mas tempo suficiente para Cris* ficar à beira de uma depressão.

Na hora de ir para o trabalho batia um desespero, um sentimento estranho de não-aceitação e às vezes ela até chorava pensando: “Pra que ir trabalhar naquele lugar? Não agüento mais”.

Depois vinha a culpa “É horrível sentir isso. Tem tanta gente procurando emprego e eu chorando pra ir trabalhar”.

Foi a necessidade de ajudar no orçamento familiar que levou Cris a trabalhar no comércio. Primeiro foi vendedora de uma grande rede de lojas de confecções, depois ficou feliz quando conseguiu um emprego na rede de lojas de móveis em que trabalhou um ano e sete meses e quase enlouqueceu.

Cris quase enlouqueceu com a pressão psicológica diária para atingir metas de vendas, uma jornada de trabalho elevada de segunda a segunda, incluindo domingos de mais de dez horas de trabalho. Outros trabalhadores não agüentaram tamanha pressão e sucumbiram a quadros de depressão e outras doenças ocupacionais, explica ela.

Às vezes, durante o expediente, Cris ia para o banheiro chorar e tentar entender como o trabalho se transformara num pesadelo. Um dos motivos, cita a trabalhadora, era a impossibilidade de ficar com a família, especialmente aos domingos.

Parque com as filhas

Enquanto Cris foi funcionária dessa rede comercial, aos domingos suas filhas passeavam com os avós paternos e maternos e até com a vizinha. Ver a mãe, Geisa* e Tânia*, só conseguiam no fim do sábado, quando as meninas iam com o pai, à noite, buscar Cris no trabalho.

Depois que saiu da empresa, em março de 2006, Cris voltou a ficar com as filhas aos domingos e agora se gaba de poder ir ao parque, correr, brincar e acompanhar o desenvolvimento das meninas.

Cris é a jovem mãe de Geisa de dez anos e Tânia de três. Geisa, orgulhosamente, pratica ginástica olímpica e Tânia se diverte correndo pela casa dos avós, já que a casa da família está em construção. A beleza clássica, as feições tranqüilas e o cabelo cacheado e longo da mãe acompanham as duas meninas.

À beira da depressão

Em quase dois anos de empresa, Cris viu muita gente chorar por ter que trabalhar domingos e feriados.

Ela mesma se viu muito perto de “enlouquecer” com a política da empresa. “Eu entrava em pânico antes de ir e ao chegar ao trabalho. Entrar naquele lugar era um martírio”.

No período em que trabalhou nessa grande rede, Cris enfrentou domingos de mais de dez horas de trabalho e percebeu o adoecimento constante das filhas. “Todo dia eu padecia um pouco porque as meninas choravam compulsivamente ao me verem sair. Isso quando estavam acordadas. Muitas vezes saí e voltei pra casa com elas dormindo”.

À beira de uma profunda depressão, como viu muitos colegas chegarem, Cris buscou outro emprego. Agora, no serviço público, ela deixou a empresa.

Ao falar de sua história como comerciária, Cris se emociona. Ela lamenta o que as pessoas enfrentam trabalhando no comércio, enquanto os olhos castanhos se enchem de lágrimas e a voz vai ficando baixinha, triste, trêmula e embargada.

“As pessoas que estão ali sofrem muito. Eu trabalhei pelo dinheiro somente. Aquela empresa manipula as pessoas pelo dinheiro. Tudo é pago, há prêmio disso e daquilo. Mas e aí? Dinheiro compra tudo? Em um ano e sete meses em que fiquei lá vi tanta gente infeliz!  Nunca vou me esquecer de uma senhora de mais de 20 anos de loja que chorava muito numa segunda-feira de carnaval. Ela dizia: ‘puxa, eu tenho 20 anos nesse lugar e num feriado desses, meu neto tá fazendo aniversário e eu estou aqui’. Nenhuma loja tava abrindo naquele dia, mas nós estávamos lá trabalhando. Não faz sentido”.

Semi-escravidão

Para Cris também não faz sentido a empresa atualmente abrir aos sábados às 7h, enquanto outras lojas abrem às 8h30m ou 9h. “É uma semi-escravidão. Antigamente as lojas fechavam sábado às 14h e todo mundo vivia, tanto os vendedores quanto os consumidores. Porque agora tudo tem que ser assim? Deve ser por isso que há um número horrível de trabalhadores afastados por depressão, passa da casa dos mil, são milhares”.

Cris agora tem tempo para as filhas e os domingos são dias prazerosos de convívio familiar. “Acordar em paz, sem correria. Ouvir a voz das meninas, pensar no almoço, na saída à tarde para passear. Tudo isso tem um valor enorme, quando você sabe como é ruim passar quase dois anos sem isso”.

No entardecer do sábado em que Cris me recebeu para a entrevista, a ex-comerciária estava feliz, porque no dia seguinte, domingo, o passeio com as filhas já estava acertado e as meninas já se dedicavam a arrumar as roupas para curtir o dia. Tudo indicava que a família teria um belo domingo pela frente!

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Advertisements