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Por LUCIANA TADDEO

À meia-luz de um cyber café em Cartum, capital sudanesa, o major da Polícia Militar do Distrito Federal, Arnaldo Vieira Neto, manda notícias para a irmã que está no Brasil. Os olhos vermelhos e as espreguiçadas denunciam seu cansaço. Ele reclama do calor de quase 48 graus e das horas gastas nas que chama de “repone”, “reuniões de porra nenhuma”.

O cruzamento de vozes em diferentes idiomas gera um alto burburinho. Uma mulher, também à frente de um laptop, está a pouco mais de um metro dele. Os dois sempre se vêem, mas nunca trocam mais do que simples cumprimentos. Arnaldo acredita que ela seja funcionária de uma ONG ou das Nações Unidas, como a maioria dos freqüentadores do local, um dos raros da cidade que oferecem conexão gratuita à Internet e boa comida.

É dali, no seu momento de descanso, que conversa por messenger comigo, com familiares e amigos. Pela webcam, nunca o vejo com a boina azul com o distintivo da ONU e seu uniforme de trabalho azul-claro ornamentado com estrelas nas lapelas, com uma bandeira do Brasil e um distintivo da PM em uma das mangas e com um símbolo dourado de duas pistolas cruzadas em cada extremidade da gola. Apesar de às vezes comentar dos habub, tempestades de areia do deserto que deixam a cidade alaranjada, os olhos ardentes e a respiração mais difícil, ele sempre está bem arrumado em frente à câmera, aparentemente recém-saído do banho, com camiseta, calça jeans e gel mantendo o cabelo impecável.

Nossos diálogos são freqüentemente interrompidos por problemas na conexão e muitas vezes penso em desistir. Já preparado para as reclamações do interlocutor, exclama antes do tempo de qualquer reação, assim que restabelece o contato:

— Calma, isso aqui é Sudão!

Ainda assim, preferíamos conversar por internet, já que o sistema de telefonia sudanês é ainda mais problemático. Não se fala por mais de vinte minutos sem quedas na linha. Na primeira entrevista em que consegui ouvir o carregado sotaque carioca do major, a ligação caiu sete vezes em duas horas e meia.

Apesar das interrupções, ele responde às minhas perguntas pacientemente, sempre revezando afirmações sérias com humor.

Major Poeira diz:
Estou enfrentando uma tempestade de opeira!!! cóf cóf
Major Poeira diz:
poeira, seu burro!!! escreve direito pro drama colar

Certa vez, começou a falar sobre a solidão, a saudade do contato familiar e do pai, que já não tem. “Só lembro dele soltando balão de São João, do seu jeito de ajeitar as calças e de franzir a testa pra mim”. Jornalista, seu pai passou pelas redações de jornais que fizeram história na imprensa brasileira, como os impressos cariocas Última Hora, de Samuel Wainer, e Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda. A vida boêmia e desregrada adiantou seu infarto, quando o filho tinha apenas três anos.

Um pouco de conversa e o major já manda uma piada, desviando o rumo da conversa. “Perco o sudanês, mas não perco a piada”. Um humor desconcertante e surpreendente. O Sudão foi o cenário da famosa foto da criança raquítica em posição fetal espreitada por um urubu à espera de sua morte, tirada em 1993 por Kevin Carter. É o país que sofre há 24 anos com uma guerra civil responsável por mais de dois milhões de mortes e seis milhões de refugiados.

Como se não bastasse, é o palco de escancaradas violações de direitos humanos.

— A gente vê cada coisa que o coração vai lá no pé – diz, em referência ao caso do garoto de 11 anos preso há três por matar um colega. A fiança foi fixada em 50 cabeças de gado, mas a família do acusado mudou de cidade e não tem quem pague pela soltura do menino.

Como deve ser encarar cenas destas todos os dias? Arnaldo não me responde, mas acredito que suas emoções se intensificam quando pensa no filho de três anos que o espera no Brasil. Ao mesmo tempo em que responde às minhas indagações, o oficial pede notícias de Xandrinho à ex-mulher, que mora em Petrópolis.

— A África é onde ficam os leões, as zebras, as girafas e os elefantes – explicou ele ao filho, que o olhava apreensivo.
— Mas por que você vai para lá?
— Pra ajudar as criancinhas pobres.
— Mas você vai ficar perto do leão e do tigre?

Quando fala com a ex-mulher e recebe algo como “jsdgiegfkdgngdfhaslfndskgf” como mensagem, o PM já sabe que é ele tentando se comunicar e que a qualquer momento será vítima de uma molecagem: o menino adora apertar o botão que desliga o computador e sair correndo. Quando não está nos dias serelepes, Xandrinho demonstra a saudade com berreiros em frente ao computador.

Enviado como observador da Missão das Nações Unidas para a Paz no Sudão, em 2005, para monitorar e treinar o policiamento local, Arnaldo operou inicialmente em Juba, no sul do país, que sofre com tremenda escassez de recursos como água, luz e pavimentação de vias. Trabalhava em contêineres instalados entre muita vegetação e casas de barro com teto de palha. Morava em um hotel onde a única água disponível era a dos barris dos banheiros enchidos para a descarga e onde colocava vasos de plantas dentro das geladeiras em protesto à falta de luz.

Quando se mudou para Cartum, na região central, passou a morar em um apartamento com outro brasileiro e um americano, onde, pelo menos, conseguia tomar banho.

— Aqui toda a infra-estrutura é muito precária, tem um trânsito de doido e um PM charmoso. Sou o melhor partido brasileiro em Cartum. Moreno, alto, simpático, procuro relacionamento estável, desde que o sogro não seja pobre, porque pai pobre é destino, mas sogro pobre é burrice.

A idéia inicial do oficial, que já atuou em Angola, era participar da missão de paz no Haiti, mas a ONU determinou que apenas voluntários fluentes no francês, um dos idiomas oficiais do país, fossem mandados ao Caribe. Foi quando surgiu a proposta de ir para o Sudão.

— Meu objetivo é voltar vivo daqui. Mas me diga antes que essa holly budega caia, que horas vc quer que eu te ligue? A conexão hoje tá pra descabelar monge budista!

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