Por ANDRÉ KAMEDA

Depois que Severino conseguiu juntar um bom número de livros, propôs à coordenação do movimento aquilo que era o seu sonho: a montagem de uma biblioteca. Em setembro de 2005, era inaugurada no subsolo da ocupação a biblioteca Prestes Maia, no canto direito do galpão, “da coluna para cá”, como determinaram os coordenadores, o canto de Severino. Numa parede, uma estante de ferro de cerca de dois metros acomoda os livros de literatura. Na parede oposta, outra estante do mesmo tipo acolhe as enciclopédias. Há também mostruários improvisados de revistas que abrigam livros variados. Num outro canto, uma estante de madeira com duas prateleiras recebe a seção infantil. No total, são cerca de 5 mil livros, entre os quais se pode achar Kafka, Steinbeck ou García Márquez.

***

O casal parece não sair da biblioteca. Estão sempre ocupados, atendendo a algum morador que quer um gibi ou a estudantes que vêm de fora procurando livros que não acharam na biblioteca de suas escolas; e que, provavelmente, encontrarão ali.

Então Roberta vai a uma estante, agacha-se e folheia alguns livros. Depois, aproxima-se da mesa, saca do bolso um maço de Palace e acende um cigarro. Ajeita os óculos que quase caíam da ponta do nariz, pega um caderno e fixa os olhos nele. Como quem não quer nada, interrompe gentilmente a conversa:

Os pensadores… Acho que é um bom título para o livro, não é?

— Sim, sim, mas a gente já tinha falado sobre isso – diz Severino.

— E os imaginários? Não… Acho que os pensadores ainda é melhor… – divaga.

— É, tem que ser os pensadores.

— Sabe o que eu pensei também? Os forasteiros da mente

Severino sai da biblioteca e vai mostrar uma fotografia em que posa de Pensador, a escultura de Rodin, que um artista colou numa coluna de concreto do subsolo. Quem sabe ele a use na capa de seu livro. Ele fala de como o fotógrafo teve a idéia e começa a sorrir, revelando que lhe faltam alguns dentes na parte da frente da boca. Roberta o acompanha de caderno e caneta em punho, talvez pensando na melhor palavra para o título. Mas de repente, pára e corre empolgada na direção de um cartaz, no qual se lê:

“Unidos para crescer
Acreditamos no crescimento
Acreditamos no sucesso.”

— Esse fui eu que fiz – fala, orgulhosa de si. — Não é bonito?

Puxando de uma perna, a esquerda, Severino volta à biblioteca, arrastando a barra da calça de brim que usa. A camisa de mangas curtas deixa entrever a cicatriz que marca o seu braço. Esses trajes o fazem parecer ainda menor do que o seu um metro e sessenta. Ele tem o semblante cansado e o olhar um pouco perdido. E diz que não tem tido tempo de sair pelo centro para recolher os materiais recicláveis. Quando muito, sai nos fins de semana e, ainda assim, só pelos lados da Pinacoteca do Estado, próxima dali.

— A gente pega uma coisa ou outra e vai levando assim: um frango num dia, um macarrão no outro. Mas tá difícil. O quilo do papelão era setenta centavos, hoje tá quinze. Ontem, eu levei uma carroça filha da mãe de material, lotada, de plástico mole e pet. Quando eu cheguei no depósito, fiz só treze reais.

Então, ele pega um caderno de espiral e mostra o que já escreveu do seu livro, oito páginas. Escolhe um trecho e começa a ler calma e pausadamente. Destaca uma frase – “a vida caminha sem casa” – e a explica:

— A pessoa anda mas não tem para onde ir, não tem rumo. Quem não tem casa, caminha sem destino.

Apesar da dura realidade, o sonho possível. Apesar da sina (quase) inescapável, a bela jornada. Severino quer se livrar do estigma de tantos severinos para, talvez, ser como João Cabral de Melo Neto – escritor. Apesar de ser poema, quer ser poeta.
¹ A reportagem foi realizada em março de 2006

*Acompanhe o desfecho dessa história no dia 20 de setembro.

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