(Continuação dos excertos do ensaio: História Oral de Vida: Um diálogo do documentário de Eduardo Coutinho com o Jornalismo Literário.)

POR ERIKA MORAIS

Os personagens e a entrevista em Edifício Master

 Como foi dito anteriormente, o Jornalismo Literário, tanto quanto o método de História de Vida, não existe sem personagens. Do relato mais recente às buscas labirínticas na memória distante, os entrevistados dividem suas experiências com o leitor/espectador. Trata-se da permissão para mergulharmos em suas histórias, nos reconhecermos ou não nelas.

 Antes de Edifício Master, Eduardo Coutinho havia feito, entre outros, os documentários: Santo Forte (1999) e Babilônia 2000 (2001), ambos localizados em favelas no Rio de Janeiro. O primeiro tem como fio condutor a religião, ou melhor, o sincretismo religioso de moradores da favela Vila Parque da Cidade, no bairro da Gávea, e Babilônia 2000 cumpre a difícil tarefa de viver, junto de alguns moradores, o último dia do ano de 1999, nas favelas de Chapéu Mangueira e Babilônia.

 A partir de Santo Forte, Coutinho decide realizar filmes baseado essencialmente na fala dos personagens. Esta característica é até hoje a principal em seus filmes, porém seu ápice pode ser conferido em Edifício Master.

 Com 12 andares de 23 apartamentos cada, o Master está localizado no caleidoscópico bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Seus moradores, diferente dos moradores das favelas das “locações” dos filmes anteriores de Coutinho, não conhecem uns aos outros, não possuem diretamente “lutas em comum”, em geral não possuem qualquer conexão com quem vive no apartamento ao lado. Coutinho procura não limitar as pessoas rotulando-as em estereótipos: “o favelado”, “o religioso”, “o camponês”. Busca a individualidade em cada um e alcança brilhantemente essa unicidade nos personagens de Edifício Master. Apesar de muito ter sido dito sobre o filme ser uma retratação da “classe média”, Coutinho não tem pretensões de retratar uma condição econômica ou social. E não seria a classe média formada por pessoas, tão diferente quanto moradores de uma favela no Rio de Janeiro ou camponeses no sertão de Pernambuco? Nos diz Consuelo Lins em seu livro O Documentário de Eduardo Coutinho:

“No Master, o que há entre os 276 apartamentos são portas idênticas, corredores desertos e escadas sinistras. Era o mesmo bairro, o mesmo prédio, os apartamentos podiam ser vizinhos, mas a cada porta que se abria deparávamos com um mundo inesperado e moradores com qualquer conexão com quem vive ao lado.”

 Em Edifício Master não há imagens externas do prédio, nem de Copacabana, além das entrevistas com os moradores do prédio, o que vemos são imagens de corredores do prédio e eventualmente um cômodo vazio de algum apartamento filmado. O interesse está nas pessoas e em suas histórias de vida. Para Coutinho essas imagens só ganham importância na medida em que interagem com o entrevistado de forma significativa.

 Não existe som em “off” e todo o som captado está radicalmente voltado para o “aqui” e o “agora”. O áudio da entrevista se dá simultaneamente às imagens captadas do entrevistado. Diferente de seus filmes anteriores, Edifício Master está focado nas diferentes falas, que revelam uma diversidade de experiências. O fio condutor não é mais um tema específico, talvez esteja revelado na frieza dos claustrofóbicos corredores do Edifício Master.

 A entrevista

 Para Eduardo Coutinho, boa parcela do encontro entre o cineasta e o entrevistado trata-se de “teatro”. Não existe verdade absoluta e sim as verdades provenientes deste encontro. Como nas antigas sociedades orais, Coutinho acredita que seus personagens adequam suas falas ao contexto de enunciação e à “platéia” que os ouve.

 Além de quê, as narrativas, muitas vezes, se dão por meio da busca na memória, muitas vezes distante, dos entrevistados. E quando falamos em memória, sabemos que ela pode ser distorcida pelas condições físicas do entrevistado, muitas vezes já na velhice, como veremos mais detalhadamente quando falarmos do filme O Fim e o Princípio, e pela possibilidade de idealização do passado por parte do entrevistado.   Para Coutinho, assim como para os pesquisadores de História Oral de Vida e para jornalistas literários, estas possíveis “não confiabilidades” na memória, não são prejudiciais na composição dos depoimentos. Se elas existem é porque estas são as visões do indivíduo sobre o fato, cabendo ou não ao pesquisador investigar o motivo que o levou a pensar dessa maneira.
Enquanto método da pesquisa qualitativa observamos, entre outros, a presença da História Oral de Vida na forma com que Coutinho se relaciona com seus entrevistados. Percebe-se que há um envolvimento, de certa forma emocional, na relação de Coutinho com os personagens. A entrevista está longe de ser algo frio e distante, ao contrário, trata-se de uma conversa aberta, um bate-papo, assim como deve acontecer no Jornalismo Literário, seja ele retratado de forma impressa, ou em áudio visual. Coutinho é conhecido por sua facilidade de conseguir grandes depoimentos de seus entrevistados, o que para o colega de profissão, o cineasta João Moreira Salles, não é mais do que sua capacidade e seu talento para ouvir as pessoas.

O contato de Eduardo Coutinho com os entrevistados, normalmente acontece depois das pesquisas realizadas por integrantes de sua equipe. São os pesquisadores que realizam as pré-entrevistas, buscando para os filmes, personagens que possam contribuir para a realização, normalmente pessoas bem articuladas e com histórias “interessantes” para contar**. Sempre faz parte da equipe de pesquisadores alguém que tenha alguma relação com o universo a ser filmado, no caso de Edifício Master, a pesquisadora Eliska Altmann havia morado ali com o marido, e, portanto, além de conhecer o ambiente físico, tinha a experiência concreta de ter vivido coisas que seriam retratadas no filme, passando um “ar familiar” à equipe de pesquisadores.

 Como a narrativa é a fonte principal dos documentários de Eduardo Coutinho, o ato da entrevista é o principal método utilizado, e a entrevista, da forma com que o método qualitativo propõe, não é tarefa das mais fáceis.

 Perguntar é algo difícil e se não for feito com responsabilidade pode-se conquistar, ao invés de uma boa conversa com o entrevistado, um “inimigo”, impossibilitando a realização de uma entrevista com a profundidade ou o direcionamento às respostas que o pesquisador “quer ouvir”. Sobre estas dificuldades Consuelo Lins afirma: “Não há como fazer uma ‘manual’ das perguntas corretas. Cada vez que acontece uma entrevista, surgem resoluções diferentes, com seus erros e acertos.” Ainda sobre o “que” e “como” perguntar, Eduardo Coutinho diz (LINS, 2004):

“Essa pessoa que aparentemente não sabe nada tem uma extraordinária intuição do que você quer. Se o entrevistador quiser respostas de protesto, de ‘esquerda’, ele vai ter; se quiser o contrário, vai ter também. Essa é uma das coisas mais importantes a se quebrar, não sugerir ao outro o que você quer ouvir. O que quer dizer respeitar uma pessoa? É respeitar sua singularidade, seja ela uma escrava que ama a servidão, seja uma escrava que odeia a servidão. Muitos documentaristas só ouvem as pessoas que dão respostas de acordo com suas intenções, o que gera um acumulo de respostas do mesmo tipo, previsíveis, e que são aquilo que o diretor quer ouvir.”

 Percebemos nos filmes de Eduardo Coutinho uma isenção de julgamento por parte das contradições humanas e um profundo respeito pela singularidade do indivíduo. Dando abertura ao que está sendo dito evitando interrupções e apenas interrompendo para que a conversa “não perca o rumo”.

 A percepção do método de História Oral de Vida na obra de Coutinho fica mais clara quando observamos os tipos de perguntas feitas pelo cineasta para os entrevistados. Coutinho quer saber o que “qualquer pessoa pode responder a partir de sua experiência de vida” evitando perguntas que suscitem “opinião”, pois, segundo Lins, para ele “(a opinião) é o que mais propicia uma fala pré-fabricada, retomada sem originalidade e força.” Por isso está interessado em saber onde o personagem nasceu, a infância, relação com familiares, se casou, estudou, teve filhos, em que trabalha, como chegou onde está. Perguntas mais “genéricas” que aparece com freqüência nos filmes de Coutinho, surgem com o intuito de não fazer avaliações do que se está vendo ou ouvido, como por exemplo: “Isso é bom ou ruim?” ou “Explica isso pra mim.” Desta forma, também é encarada a entrevista/conversa no Jornalismo Literário.

 Podemos observar a postura de Eduardo Coutinho em momentos reveladores quando os personagens fazem questionamentos para ele. Como Roberto, morador do Edifício Master, camelô, doente, que, ao falar das dificuldades de arrumar um emprego pergunta a Coutinho: “O senhor quer me dar um emprego?”. Coutinho gagueja e praticamente não entendemos a resposta dada. Poderia ter cortado na edição final, mas manteve por opção. É a prova de que a entrevista, ou conversa, como prefere Eduardo Coutinho e alguns jornalistas literários, é um mecanismo vivo, rodeado por uma infinidade de fatores entre duas ou mais pessoas.
*Confira a primeira parte desses excertos, clique aqui.

** Veremos adiante como Eduardo Coutinho trabalhou nos documentários “Peões” e “O fim e o Princípio”, em que, no primeiro, realiza junto de sua equipe, as pesquisas iniciais e no segundo, não há praticamente nenhuma pesquisa prévia.

Dia 21 de setembro confira a última parte desses excertos, com observações sobre os filmes “Peões” e “O Fim e o Princípio” e a Conclusão do ensaio.

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