Por FELIPE MODENESE

18-11-1814 é a data da morte de Antônio Francisco Lisboa, muito mais conhecido como Aleijadinho. Morreu na penúria!

O “Espírito Santo” dá as boas-vindas aos visitantes do CCBB, Centro Cultural do Banco do Brasil.   

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É uma composição em serragens ocupando quase todo o saguão do belíssimo prédio no centro de São Paulo. A maioria dos que ali chegam está interessada na Exposição “Aleijadinho e Seu Tempo – Fé, Engenho e Arte”.

Ao lado, “Jesus Cristo” está dentro de uma redoma de vidro rodeada no chão por uma faixa cinza que não deve ser ultrapassada. Não peque! Ainda no saguão, réplicas miniaturas dos “Doze Profetas” e, em tamanho real de dois deles.

Cecília Meireles nos recebe no primeiro andar:

“Anjos e santos nascendo
Em mãos de gangrena e lepra
(…) Todos os sonhos barrocos
Deslizando pelas pedras”

Depois de 18 anos trabalhando como arquiteto e escultor, Aleijadinho, filho bastardo de um mestre-de-obras português com sua escrava Isabel, conseguiu montar sua própria oficina e “tirava” 3,6 gramas de ouro por dia.

Poucos anos antes, 1766, concebeu a planta da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Toda a arte interior saiu das mãos de um único criador nos anos seguintes.

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Próximo dos 40 anos de idade, o entalhador começa a sofrer os efeitos de sua enfermidade (suspeita-se ter sido Mal de Hansen, Sífilis ou Reumatismo), começa a sentir dificuldades de andar e trabalhar. Passa a ser carregado e usa instrumentos atados às mãos e joelheiras de couro. Logo nasce a alcunha “Aleijadinho”.

Aleijão é sinônimo de imperfeição. O corpo do bastardo tornou-se imperfeito e sua obra rumou ao per-fectio, ao terminado, ao irretocável, ao feito por inteiro.

O vídeo com imagens das 66 figuras da obra-prima “Passos da Paixão” impressiona. São seis os passos, esculpidos em três anos de joelheiras gastas:

A Ceia
Jesus no Horto
A Prisão
A Flagelação e Coroação de Espinhos
A Cruz às Costas
A Crucificação

Cada Passo está resguardado numa capela e a seqüência conduz à escadaria dos Doze Profetas, “conclusão gloriosa” de sua obra, como diz o arquiteto Lucio Costa. O escultor traz as pessoas para dentro de sua obra e deixa-os à mercê dos olhares da pedra-sabão.

Em 1805, Aleijadinho acaba de esculpir os Profetas e, junto dos Passos e da Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, está concluído o monumento Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, MG.

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Aleijadinho entalha, mutila, deforma a madeira e as pedras e compõe um santuário. Quantas pessoas que construíram um santuário com as próprias mãos e idéias você conhece? Quantas?…
 
No segundo andar da exposição, detrás de uma porta escura automática, um ambiente acondicionado guarda algumas obras do mineiro bastardo: santos entalhados em madeira policromada, como “Nossa Senhora das Dores” e suas sete espadas (passos da via sacra?) encravadas nas costelas; figuras entalhadas em cedro como o “Senhor dos Passos” e seus braços desconjuntados e salientes de veias; o “Trono Episcopal do Mestre Aleijadinho” e as curvas feiticeiras dos braços e os adereços do encosto; assim como o “Espírito Santo” e suas plumas entalhadas, suas garras abertas e seu olhar altivo e irrevogavelmente decidido.

O entalhe na madeira viçosa de alguns Ornamentos de Capela sintetiza o barroco retorcido e pungente – remete à dor, sofrimento, ao difícil, ao caminho tortuoso e encravado, às lágrimas esculpidas no corpo do tempo do corpo.

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Antonio Francisco Lisboa cessou de esculpir bastardo e aleijado. Mas,

Entalha perfeição na arte
Mutila o preconceito com beleza
Encurrala infinitos em forma barroca
Garimpa as bruscas inflexões da alma
E não as deixa sem ter achado o precioso.

Aproveite pra sentir isso tudo com o próprio sangue!

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