Por FRED LINARDI

Sem conversas, salas não passam de vãos entre paredes que contornam um ambiente vazio. A cozinha não passa de uma ambiente frio e escuro quando não tem o cheiro e o sabor dos temperos de um molho do tomate. Quartos, sem amor, não passam de um cubículo escuro e solitário. Paredes seriam apenas tijolos empilhados com cimento não fossem vidas abrigadas por elas. O que faz de uma casa um lar são as pessoas que lhe trazem vida. Como uma troca em que apenas uma centelha divina poderia explicar: pessoas dão vida a uma casa, ao mesmo tempo em que esta protege-lhes a existência.

Por isso quando dona Maria morreu, sua casa também passou a contar regressivamente os seus dias. Na cidade de Americana, no interior de São Paulo, os tempos estavam mudando naquela década de 70 e o comércio se expandia junto aos prédios e avenidas para novos bairros. O centro da cidade despedia-se das velhas almas que nele habitavam e mostrava, pelas janelas de seus edifícios, o horizonte com novos bairros onde deveriam estar as residências dos habitantes a partir de então. Aquela velha casa de esquina, aliás, ficava em uma localização valiosa e rentável, principalmente pelo amplo espaço de seu terreno.

Ninguém mais morou naquela casa depois que Dona Maria trocou residência para o Cemitério da Saudade, em 1975. De fato, a casa durou apenas poucos meses depois disso. Despercebida, só poderia ser notada pelas imobiliárias ou por algum aprendiz de pintor que, por ventura, quisesse passar seus ângulos e cores para seu caderno de pinturas. Mas o que aconteceu só poderia ser o provável e, hoje, centenas de pessoas visitam aquele local. Sobem e descem pelos elevadores de um centro médico, o prédio de cores azul e roxa que se ergueu sobre o mesmo terreno.

Crianças passam por lá e, claro, muitos velhos. Senhoras como a dona Íris que, naquela tarde de inverno foi ao dentista, acompanhada de sua filha Vânia. Íris não pôde deixar de lembrar da casa onde passara parte de sua adolescência, antes de se casar. Lamentou por ter vivido tantos anos naquela casa que havia ido abaixo e não ter uma foto se quer de seu antigo lar. Vânia, ao ouvir, também se lembrou dos momentos de sua juventude em que passava naquela casa, quando ia visitar sua avó Maria e comer as almejadas macarronadas e passar as tardes de finais de semana entre as árvores do amplo quintal.

Lembranças e memórias distantes esvaeceram-se junto ao silêncio, quebrado apenas pela chamada da secretária, indicando a porta da sala de consulta. Dentre os dados básicos da consulta, a dentista intrigou-se com uma aparente coincidência:

— Íris Gonçalves? Então a senhora deve ter conhecido os Gonçalves que moravam naquela casa ali.

Íris e Vânia viraram-se para a direção da parede indicada pela doutora e lá estava, em aquarela, pintada com cores claras e amareladas, aquela casa que deixaria de existir logo, quando as lembranças de hoje se apagassem.

— Meu irmão era menino quando pintou essa casa. Ele vagava pela cidade procurando lugares para pintar. Quando ficou sabendo que meu consultório seria aqui, não teve dúvida de onde esse quadro deveria ficar e me presenteou, trinta anos depois. Podem tirar foto, se vocês quiserem.

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