Por MARIA LÍGIA PAGENOTTO

“A amizade requer aquele raro ponto médio entre semelhança e diferença”
Ralph Waldo Emerson (1803-1882), filósofo norte-americano.

Ela tem os cabelos pretos e lisos, é uma moça corpulenta. Chama atenção: calça branca bem justa, blusa de oncinha colada no corpo, sandálias com estampa idem, salto bem alto, uma bolsa enorme nos braços, muitas pulseiras e anéis, colar e brincos.

Entra na sala de espera do ortopedista e todos olham. Joga os cabelos para o lado, chacoalha as pulseiras, me cumprimenta e logo desanda a falar.

Eu, que estava entretida com um livro, paro tudo para ouvi-la. Em poucos minutos que ali estamos, já me contou praticamente toda sua vida afetiva.

A espera é longa, os médicos estão atrasados naquela enorme clínica onde vou fazer uma ressonância de um tornozelo machucado. Ela conta que tem dores nas costas terríveis. Talvez seja o salto, arrisca. Mas, deixar de usá-lo, nem morta, fala rindo.

Por fim, a revelação: “Que bom poder contar essas coisas para você, não tenho amigas, tava precisando desabafar.”

Sinto pena da mulher, que se apresenta como Rosa e diz ter 34 anos. Acabou de se separar, conta que o marido se apaixonou pela secretária da firma, um clássico. Está obviamente arrasada e não tem para quem contar. Escolhe a mim, uma completa desconhecida, o seu avesso em tudo, talvez. 

Nos separamos com um sorriso, boa sorte, vai dar tudo certo. Sou a próxima entrar. Quando saio, Rosa já se foi. Fico incomodada. Mas ela não queria ouvir, apenas falar.

Uns meses depois, recebo por email um link para uma notícia sobre mais um estudo feito por mais uma universidade norte-americana. Desta vez, é a turma da Universidade de Los Angeles, Califórnia.

Segundo indica o trabalho dos cientistas, a amizade entre mulheres é algo verdadeiramente especial. Eles descobriram que “as amigas contribuem para o fortalecimento da identidade e para projetar nosso futuro. Constituem um remanso diante de um mundo real cheio da tempestade e obstáculos. As amigas ajudam-nos a preencher os vazios emocionais de nossas relações com os homens e ajudam-nos a recordar quem nós somos realmente”.

Os pesquisadores, homens em sua maioria, surpreenderam-se com os resultados destes estudos, diz a notícia. “Ter amigas leais e verdadeiras contribui para a redução dos riscos de doenças ligadas à pressão arterial e ao colesterol. Acredita-se que esta pode ser uma das razões por que as mulheres geralmente vivem mais do que os homens”. O estudo indica que quanto mais amigas tem uma mulher, maior probabilidade ela terá de chegar à velhice sem problemas físicos, levando uma vida plena e saudável.

Na mesma hora penso em Rosa, claro, e penso fundamentalmente se seria preciso um estudo corroborado por uma universidade para se concluir isso.

Mas fico aliviada, porque sei que deste mal eu não sofro. Que triste precisar desabafar e não poder contar com ninguém, ter de recorrer a uma desconhecida.

E o que fazer com a angústia nossa de cada dia?

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— Enfim, é a vida, ela me diz. Acompanhando a frase, um suspiro.

— Papéis são perecíveis, respondo. E, inevitavelmente, caímos na gargalhada.

São “as” nossas frases, quase um jogo, alerto-a.

Mando por e-mail para ela a notícia de que a presidente do PSOL, Heloísa Helena, tem um dente perdido durante o programa Roda Viva. Novas gargalhadas, ainda que virtuais.

Dela recebo inúmeras imagens de gatos e cachorros, sua mais recente paixão.

E não nos furtamos nunca a discutir o nosso tema preferido: a finitude desta vida.

A seriedade do assunto não nos impede de brincar e dar boas risadas sempre, usando frases e imagens clichês: o inferno, o céu, o umbral, o nada. Para onde vamos, de onde viemos?

Um fim de semana comum, um encontro à noite regado a muito vinho e três amigas para conversar sobre tudo: a morte – sempre – a vida em todo o seu esplendor (incluindo a morte, claro): homens, filmes, cabelos, celulite, músicas, métodos de depilação, família, trabalho, fofocas, rugas, a miséria e a injustiça deste mundo, livros… foi dela, aliás, a última dica certeira: Meu pescoço é um horror e outros papos de mulher, de Nora Ephron (Ed. Rocco), obra para moças maduras que, coincidentemente fala de tudo o que falamos nós todos os dias.

Um anel embrulhado em papel de presente me faz pensar que o Natal chegou antes da hora. Ou que já é meu aniversário. Como se eu não a conhecesse. Ela gosta de presentear quando lhe dá na cabeça – em geral, a cada vez que nos encontramos. Impossível retribuir na mesma proporção.

Generosa, diz sempre que meu cabelo está ótimo, a pele idem, mesmo quando me sinto um espantalho. Sabe me tirar do fundo do poço como ninguém. Oferece o carro emprestado, elogia meus pobres textos, dá dicas sobre filhos mesmo sem tê-los, ouve lamúrias mil sobre o chefe, a empregada, os colegas, tudo…

Penso em Rosa. Como sobreviver sem essa terapia diária?

Leio noutra reportagem que a possibilidade de superar mágoas também é pressuposto e resultado de amizades duradouras. Requer maturidade. Na mesma matéria, fico sabendo que amizades longas são mais raras “porque, mesmo que surgidas num golpe do acaso, dão muito mais trabalho. ‘Amigo pede dinheiro emprestado, bebe, dá um trabalhão, mas você sabe que um dia estará carregando a alça do caixão dele e chorando sua partida”, diz o filósofo Mario Sergio Cortella, professor da PUC-SP.

Outra característica das amizades de longa data, segundo a reportagem, é a possibilidade de confronto sem ruptura. “Se você me importa, eu me incomodo com você. Incomoda-me se você está certo, errado, o que você fala e até a forma de você se vestir”, diz Cortella.

Quando leio o texto desta matéria, meus olhos se enchem de lágrimas por Rosa.

Enfim, é a vida, ela me diria. Papéis são perecíveis, eu devolveria. Um riso e a leveza de volta, mesmo diante da dor. É quase sempre assim, até em situações incrivelmente graves. “Quem tem um amigo, tem tudo”, já ouvi dela também.

Lamento, Rosa. Muito, muito.

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