SILVIA NOARA PALADINO 

Ela abre os braços e um sorriso de alívio merecido, ao acompanhar meus passos cansados em direção à saída do saguão de desembarque internacional do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (São Paulo). Em segundos, a mulher de cabelos loiros e apoiados sobre os ombros, pouco menos de um metro e sessenta de altura e olhos preenchidos pelo tom de azul preferido de Deus, na criação de suas obras de arte, já nota as primeiras diferenças.

“Você está mais magra, Noara”, sentencia ela, antes mesmo de examinar minhas costelas com as mãos, checar se minha calça está mais larga e, então, balançar lateralmente a cabeça, em um gesto de desaprovação preocupada.

“Não exagera, mãe, emagreci só um pouquinho..”, respondo, enquanto me recordo, em um silêncio que jamais a enganou, dos desentendimentos entre meu estômago e a comida tailandesa.

Tive de ouvir o mesmo comentário por, pelo menos, mais cinco vezes, até reconhecer que certos traços puramente físicos – e outros nem tanto – ganharam algumas novas pinceladas. Como um quadro ainda inacabado, que absorve a tinta dos últimos e essenciais retoques, ajustando suas cores à nova decoração do ambiente. A começar pelos cabelos vermelhos, que realçam o verde dos olhos e revelam um jogo de luz que parece mágica. Sem contar a pele ligeiramente bronzeada, com direito à marca já habitual dos óculos escuros, em pleno inverno brasileiro. O sorriso ficou mais largo. O abraço, mais apertado. E eu fui a última a perceber.

Causa-me uma certa preocupação a possibilidade de perder a naturalidade das palavras, a harmonia entre vírgulas e pontos finais e a originalidade do pensamento, na tentativa de identificar as mudanças e os momentos em que elas me acordaram gentilmente. Afinal, nem todo mundo é Terzani para compartilhar sua transformação pessoal, após uma jornada ao Oriente, a quem se interessar, sem cometer o deslize de ser clichê, bocejo ou ego inflado.

O mais curioso, ao decidir correr o risco e simplesmente deixar que essa avaliação caiba a você, é que não importa quantas vezes eu tente colocar o filme para rodar. As cenas se repetem e, quando chego ao final da exibição, me dou conta de que dormi na parte mais reveladora da trama. Ainda assim, o desfecho da história se basta. Em outras palavras, eu estaria mentindo se dissesse que foi a religião, o estilo de vida tailandês ou a distância entre continentes os agentes de uma paz que nunca foi minha. Talvez, as pistas tenham ficado na Tailândia. O que eu posso afirmar é que os vestígios de que algo definitivamente aconteceu não fazem parte dos relatos dos meus vinte dias do outro lado do mundo, mas sim dos episódios seguintes.

“Estou tão orgulhosa de você! Você está muito calma!”, surpreende-se Tatiana, amiga e testemunha dos crimes mais amadores dos quais sou vítima ou réu.

“É…não sei…acho que estou mais calma mesmo… “, respondo.

“Deus conserve!”, diz ela, ao levantar as mãos para o céu.

Se é mera coincidência, não posso descartar. Mas até estacionar o meu carro, nas estreitas ruas que rodeiam o Edifício Berrini 500, em São Paulo, quando todos já ocuparam seus postos de trabalho em frente ao computador, tornou-se uma tarefa simples. “Não pode ser. Uma vaga? Aqui?”, penso. A cada dia, um fato inédito. Após um mês de férias, minha memória não se desfez de minha senha de acesso à rede. Ao procurar um presente para a amiga que fazia aniversário, sem ajuda, escolhi a primeira peça de roupa que me atraiu, na primeira loja em que entrei. Podem parecer exemplos simples demais, mas se é assim que a vida pode ser, pelo menos de vez em quando, eu não poderia desejar bênção maior.

Embora a simplicidade de acontecimentos rotineiros tenha despertado minha atenção para uma transformação que poderia não caber dentro dos meus cento e sessenta e três centrímetros de altura, tenho mais a confessar.

Se a minha cobrança pessoal, até um tempo atrás, me causaria uma preocupação que seria confundida com os meus lençóis, hoje, apenas me motiva. E, quando as desconhecidas atribuições e a dura responsabilidade de um novo cargo começaram a gritar nos meus ouvidos, pude silenciá-las com uma respiração profunda e o apoio sincero de quem eu precisava, apenas com a certeza de que tudo vai dar certo.

Com a mesma segurança, deixei de canto as malas por desfazer e as chamadas não-atendidas de amigos de infância, logo após regressar da Tailândia, para estar com uma única pessoa. E fiz isso de peito aberto, porque o admiro. Porque ele não toca em uma banda de rock ou exibe tatuagens. Porque me ganhou no momento em que tive certeza de que não precisava de ninguém por perto. E porque…deixa pra lá. Poucos dias depois, vem um orgulho cego e surdo, feito de sarcasmo, descaso e propósito de acertar onde quer que machuque. Uma razão? Se você souber, por favor, me avise. Mas mantenho o sorriso no mesmo lugar. É involuntário. Independentemente de qual seja o desfecho, ele pode não ser aquele que eu já criei, em um filme que roda apenas dentro de mim. No entanto, será sempre o melhor.

Na Tailândia, mais precisamente no extremo Norte do país, na Província de Chiang Rai, um monge budista deu a mim a sua ‘bênção’, que significa cura para qualquer mal – explicou-me o guia turístico, em inglês. Então, o monge ofereceu-me uma espécie de barbante branco, para ser amarrado ao pulso. Para dar sorte.

Espero que os fios sejam bem resistentes.

Caro leitor, apesar da pausa para reflexões, as narrativas de viagem sobre a Tailândia continuam nas próximas quinzenas.

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