Por ANA PAULA DO REGO

“O simples ato de andar na rua pode ser uma grande oportunidade de desenvolver a vigilância. Com que freqüência você vai a algum lugar, como dirigir ao supermercado ou caminhar para um restaurante na hora do almoço, e se encontra no destino sem ao menos perceber como chegou lá?” *

Os caminhos que me levam até o meu destino, seja uma padaria, a casa de um amigo, um parque, às vezes são mais interessantes do que o destino em si. A pé, de ônibus ou carro, seja como for, o fato de poder observar as coisas que estão ao meu redor, me traz tranqüilidade e uma sensação de liberdade por poder observar, apreender detalhes que na maioria das vezes em nossa correria diária acabariam passando despercebidos.

Caminhando pelas ruas arborizadas e silenciosas do ABC paulista, sinto um ar diferente, parece que estou em outro mundo, em outro país, pois me deixo levar pelas cores, pelos sentimentos que se afloram, pelas preocupações que passam e pelo canto dos pássaros, pois isso é o que mais se ouve. Deixo-me contaminar pela arquitetura das casas imensas, pelo prazer translúcido dos enfeites que as adornam, pelas paredes texturizadas e pela pintura de cores fortes que estão na moda. O zelo dos moradores é evidente, os jardins bem cuidados, os vasinhos de flores coloridos pendurados, é só me soltar, levantar a cabeça do chão e contemplar um pequeno beija-flor na sacada saboreando o doce daquilo que lhe dá energia, batendo ligeiro as suas asas, ele feliz, segue contaminado pelo sol quente que naquela manhã reluzia.

O silêncio se faz a cada esquina dobrada, converso sussurrando e mesmo assim alguns cachorros desacostumados a ver algum movimento interrompem meus pensamentos. Subindo ou descendo as ruas largas e desertas, vez ou outra os costumes dos moradores vão se revelando, e é interessante sentir o cotidiano dessas pessoas, a mulher que lava o quintal, dois senhores sentados despreocupadamente na calçada conversando, moradores que preferem tomar café da manhã com a família nas padarias chiques do bairro, uma qualidade de vida que só quem vem da periferia pode sentir a diferença.

Não me sinto cansada, o ar se renova em meus pulmões, o fato de caminhar, soltar os braços e a imaginação me deixa animada, sou capaz de mudar o mundo se preciso. Uma pequena banca de jornal no meio das residências, sob a sombra das árvores. Quem dera morar em um desses apartamentos, eu já teria um lugar de parada obrigatória todos os dias.

Andar é uma meditação para mim, mas posso fazer isso também dentro do ônibus fretado que me conduz todos os dias ao trabalho, são horas que passo, (através da janela do lado esquerdo, terceira fileira) observando a arquitetura dessa cidade que me faz percorrer pacientemente.

“A oportunidade aqui é decidir conscientemente conduzir sua atenção ao que o cerca. Olhe para os prédios pelos quais você passa, para as outras pessoas na calçada, para o trânsito nas ruas (…) Quando você presta atenção ao que vê (…) sua mente fica menos agitada e você começa a desenvolver um senso de calma.” *

As pequenas casas do bairro do Bom Retiro me fazem lembrar a época da Revolução Industrial do qual as casas eram construídas para que os operários pudessem morar próximos às fábricas. Essas casinhas, hoje antigas, simples, parecem aconchegantes, pois observando suas janelas abertas às vezes posso ver um grupo de pessoas jogando vídeo game, sentadas em camas desarrumadas ou esparramadas no sofá assistindo televisão.

Outro dia o ônibus parou em frente a uma antiga vila no bairro da Armênia, não sei porquê, mas o estilo empobrecido do portão, as casas que lá dentro se acotovelavam, me fez lembrar os filmes preto e branco de Charles Chaplin, do qual quase sempre suas histórias decorriam em pequenas vilas humildes.

No Parque D. Pedro, o mercadão, frutas e mais frutas empoleiradas nos caminhões, alguns homens as armazenam nos galpões que ficam nas ruas próximas, às vezes é possível ver algum gari varrendo as ruas para novas sujeiras se instalarem no dia seguinte.

Os viadutos são excelentes pontos de contemplação desses pequenos detalhes, ao olhar para baixo, da minha pequena janela, vejo duas pessoas fazendo fogueira no quintal amplo de uma casa, alguns médicos atendendo em sua sala dentro do hospital, os tetos sujos dos ônibus que transitam freneticamente, brinquedos em cima dos telhados.

“Quando você conduz a atenção consciente à sua atividade, as distrações e as ansiedades aos poucos se dissipam e sua mente se tranqüiliza e relaxa. E, ao chegar a seu destino, você estará em uma posição muito mais confortável e aberta para lidar com o próximo estágio de sua jornada.” *

Não é à toa que após meditar dessa forma meu coração e minha mente parecem mais centrados em minha vida, há uma tranqüilidade, um prazer incomum em resolver pequenos problemas do dia-a-dia, há uma felicidade pouco conhecida para quem vive correndo e com a cabeça cheia de coisas. Para muitos esse simples ato de observar o cotidiano e seus pormenores pode parecer besteira, mas convido qualquer um a aquietar-se, deixar levar por esses pequenos momentos ou tentar mudar de lado, assim como eu pretendo fazer no fretado, mudarei de banco, de fileira, só para poder ver um mundo novo se descortinar na minha frente e novos detalhes e situações para tranqüilizar a minha mente.

* As citações foram extraídas do livro “A Alegria de Viver – Descobrindo o Segredo da Felicidade”, de Yongey Mingyur Rinpoche – Pág 205.

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