Por JULIANA FARANO

O contato inicial que tive com os escritos do jornalista de Kentucky Hunter S. Thompsom foi no ano de 1999, época em que passava todas as noites no curso preparatório para o vestibular. Em um lugar onde todos estavam se dedicando ao máximo aos valiosos ensinamentos acadêmicos que lhes garantiriam um “x” assinalado de maneira correta em algumas das provas, e em um momento em que a leitura dos grandes clássicos da literatura nacional era obrigatória, também em função dos exames, Hell’s Angels: Medo e Delírio Sobre Duas Rodas caiu como um luva para uma mente que já aspirava a típica rebeldia da juventude.

Até chegar ao pai do jornalismo gonzo, percorri certo caminho literário, esbarrando vez por outra em alguns autores marginais. Nessa estrada, tive como guia um professor de literatura dos tempos de escola, que se apegou ao meu interesse natural por posturas que iam contra o sistema. Em nosso último encontro, há poucos anos, depois de muito tempo sem ter sequer notícias um do outro, ele me confidenciou que na época enxergava em mim um quê revolucionário e, frustrado por ter sua própria chama apagada pelos percalços e necessidades da vida adulta, resolveu investir seu tempo e colocar uma causa na minha rebeldia. Ele não escondeu a cara de decepção quando lhe contei que minha chama também havia, de certa forma, apagado.

Comecei com Rimbaud e Baudelaire, por influência do rock feito no final dos anos 60, que eu sempre gostei de escutar. Depois, fui para Aldous Huxley. Conheci Bukowski e, por conseqüência, John Fante, um dos meus preferidos na ficção. Na seqüência, me entreguei à literatura beatnik, com Kerouac, Burroughs, Ginsberg, entre outros. Então, fui apresentada a Thompson. Na época, me forçava a ler um exemplar no idioma original: Hell’s Angels – A Strange And Terrible Saga of the Outlaw Motorcycle Gangs. Era o único disponível e, tropeçando em uma ou outra palavra, por conta da falta do conhecimento pleno da língua inglesa, consegui finalizar a leitura, sem me dar conta, ainda, de que se tratava de um texto jornalístico. Naquele tempo, jornalismo para mim era o que se fazia no Jornal Nacional, na Folha de São Paulo, no Estadão e nas diversas revistas semanais. Não tinha conhecimento de que era possível escrever de maneira tão mais atrativa e verdadeira, sem se prender as amarras da formalidade, e, mesmo assim, ser considerado jornalista. Tampouco tinha conhecimento sobre os trabalhos publicados dentro da escola do New Journalism ou na revista Realidade, que existiu aqui no Brasil. Minha única pretensão era entrar em uma faculdade, concluir o curso de jornalismo e ingressar em uma redação de revista, cobrindo qualquer assunto relacionado à produção cultural. E ponto. Do alto dos meus 18 anos, era assim que minha carreira seria definida. Ainda bem que nessa idade nos enganamos quase que o tempo inteiro.

Depois de Hell’s Angels, fui procurar conhecer a história e o currículo do autor, bem como outras de suas obras e títulos dos jornalistas que deram início a essa nova maneira de escrever. Assim, me deparei com o fabuloso caminho do Novo Jornalismo, dos elementos apaixonantes que permitem aos autores especialistas do gênero contar histórias de maneiras tão intensas e com tantos sentimentos. Por conta do andamento da carreira e das necessidades financeiras que a tal vida adulta acaba impondo à grande parte dos rebeldes, tenham eles uma causa ou não, se torna necessário se render ao noticiário tradicional, frio e objetivo. Ainda assim, a busca pelas histórias mais pulsantes continua valendo.

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Com essas linhas comecei a redigir meu ensaio final para o curso de pós-graduação em Jornalismo Literário, que questionava se o estilo de Thompson poderia ser considerado um gênero a parte, que também teve suas origens intrinsecamente ligadas ao New Journalism, ou apenas a manifestação de sua voz autoral dentro do contexto do JL. Até pensei em publicar o restante do material aqui, talvez um dia o faça, no entanto, me dei conta de que o mais importante, a essência, está aí. Hoje, em contato com meu texto novamente, me enchi de esperança de que talvez possa estar no caminho certo: tortuoso, cheio de dificuldades, mas com objetivos serenos e preciosos. A brisa da juventude anda batendo por aqui. De novo! E isso é muito bom. E nada melhor do que exibir tal sensação nesse espaço, que serve de válvula de escape para a competência de todos esses amigos listados ao lado.

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