Por SUZANA VIER

Pedrinho

“Paranauê, Paranauêêê, Paraná…. Paranauêêê, Paranauê, Paraná… Paranauêêê, Paranauê, Paraná….”

O berimbau de Mestre Formiga já tilintava há um bom tempo, quando o aluno mais jovem da capoeira da AACD (Associação de Assistência à Crianças Deficientes) entrou na sala. Ele desceu do elevador entusiasmado, manobrando sozinho sua cadeira de rodas de pouco mais de meio metro. Naquela tarde de quinta-feira, em meio a dezenas de crianças e jovens praticando capoeira, a camiseta de superman que Pedrinho usava combinava muito bem com sua audácia. A calça branca, traje habitual dos capoeiristas, estampada com o logotipo do grupo de capoeira, não duraria muito tempo tão limpa…

A mãe, Luciana, assim que chegou com o pequenino correu pro banheiro e voltou com a roupa apropriada para o exercício. Nem se preocupou com Pedrinho, porque todos, um a um, pararam seus exercícios de aquecimento e foram beijá-lo, abraçá-lo ou simplesmente bater em suas costas.

Mestre Formiga de longe deu as boas-vindas “Fala Pedroca”.

O batuque era empolgante. A ginga das crianças da AACD inacreditável. Todos em roda, jogavam capoeira dois a dois. Uma jovem loirinha, de cabelos crespos e longos, tirou as pernas mecânicas, que começavam pouco acima dos joelhos e foi brincar com um rapaz na cadeira de rodas. Ela, agitada, jogou as pernas pra todo canto, girou o corpo, ficou por segundos fora do chão. Uma perfeita capoeirista; alegre e determinada. O rapaz, com muito mais limitações motoras, conseguia manobrar a cadeira de rodas no ritmo das palmas e do atabaque e vez ou outra levantava as pernas há dez centímetros da cadeira.

Independente das dificuldades e limitações, todos na roda jogaram capoeira, cantaram e bateram palmas com a música. A maioria parecia sorrir de dentro pra fora. Eram sorrisos espontâneos e verdadeiros.

Alguns pais e principalmente as mães acompanham os filhos às aulas na AACD. Antes de Pedrinho chegar, vi criança por criança entrar na sala, recebi beijos de cada uma delas e conversei com alguns pais. Impressionou-me especialmente uma mulher de 27 anos, com ar e alegria de menina, mãe de gêmeos, que joga capoeira para incentivar a filha, portadora de necessidades especiais. O filho, sem necessidades especiais, vai junto para dar força à irmã. “A garota”, diz a mãe, “é muito inteligente e tira as melhores notas da escola particular onde ambos estudam. Só ela nasceu com algumas debilidades, que hoje não significam nada perto do sofrimento que toda a família já enfrentou”. A filha, de 7 anos, tem os braços curtos e as mãos viradas para dentro, além de problemas de rim. A mãe, de uma alegria comovente, me diz que não a trata de forma diferente. “Ela e ele são iguais. Na verdade, ela é mais dedicada e exigente consigo mesma, por isso nem preciso exigir muito. Mas se é necessário imponho castigos iguais para ambos”.

Pedrinho, depois dos paparicos, começa a fazer os exercícios com ajuda da mãe. Luciana levanta lentamente os braços do pequeno, tenta flexioná-los para os lados, para frente e para cima. Levanta de leve as perninhas. Todos os movimentos iniciais de alongamento de Pedrinho são feitos pela mãe, até que começa a roda e todos têm que de alguma forma jogar capoeira.

Segundo mestre Formiga, se diz “jogar capoeira”, porque embora ela seja a única luta marcial brasileira, o objetivo é exercitar-se, ter equilíbrio na vida e brincar, realmente brincar com os movimentos, sem menção alguma à violência.

“Põe no chão”, pede ele pra mãe. E Pedrinho entra na roda, mas fica pouco, sai logo e se locomove por todo lado.   Luciana fica. Sem cadeira de rodas e sem movimentar as pernas, Pedrinho levanta todo o corpo a partir das mãos e vai pra frente e pra trás. Graças ao impulso das mãos e à força dos braços, ele vai se arrastando pelo salão. Vai com um, vai com outro. Vem no meu colo, sorridente como sempre, olhinhos brilhando.   Logo que o pego nos braços, me abraça e diz:

— “Oi tia”.

— “Você lembra da tia Su?”. Ele responde sacudindo a cabeça em sentido positivo.

Me dá um longo abraço apertado, muitos beijos e começa a brincar de roçar o nariz no meu. A brincadeira se estende por 1 minuto no máximo, até que ele cansa e pede novamente: “me põe no chão”. E lá vai ele pra outro lado; volta pra mãe; vai à direção do instrutor; não sossega um minuto.

Para o pequeno superman tudo é festa. A calça branca, em poucos minutos fica extremamente suja. As mãozinhas, molas para seu caminhar, ficam escuras e vermelhas. Mas, ninguém se importa quando o pega no colo. Ele afaga os cabelos, passa a mãozinha no rosto das pessoas, aperta o nariz; tudo com a mão num estado calamitoso de sujeira, porém com muito carinho.

Ao fim da aula, ele volta para a cadeira de rodas, recebe novos afagos de todo mundo e espera junto com a mãe a hora de ir embora.

A família não tem carro: nem o pai, nem a mãe. Uma viatura da prefeitura, do projeto Atende, transporta mãe e filho para a AACD três vezes por semana. Às terças, ele passa por acompanhamento psico-pedagógico, às quintas tem capoeira e às sextas-feiras pratica natação. Tudo feito com prontidão e alegria por mãe e filho.

Observador e curioso, enquanto esperava o Atende, Pedrinho olhava para todos que passavam e conversava com a mãe o tempo inteiro.

A roupinha imunda da brincadeira da tarde não ofusca a alegria do garotinho oriental. O cabelinho grosso e espetado dá um ar de molecagem à feição de Pedrinho. Os olhos levemente rasgados, típicos de descendentes de japoneses, são escuros e espertos; o queixo levemente avantajado e fino e a sobrancelha grossa e alta completam o rostinho sempre receptivo e alegre. Os parentes comentam “nunca vimos o Pedrinho de cara fechada. Ele até reclama de uma coisa ou outra, mas o natural dele é sorrir”. O sorriso de Pedrinho acompanha os olhos espertos. “Parece que nasceu pra sorrir. É espontâneo e afável”, comenta a tia Marlene – tia por parte de mãe.

* A história de Pedrinho tem continuidade no dia 1° de outubro. Até lá!

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