Por WAGNER HILÁRIO

Que bom amanhecer
com as cores da sua tez,
o toque da sua seda,
sob a tenda do nosso amor…

Seu rosto revela nas rugas o tempo que não foi suficiente para surrupiar seu riso. Olímpio tem 64, mas a magreza inata lhe dá um aspecto de leveza juvenil. Como um senhor dessa idade trabalha como vigia noturno? Penso nele como uma amostra de fenômeno social em que os jovens não conseguem emprego, e os velhos agregam às suas aposentadorias um “bico” quase sempre penoso.

Resolvo fazer um perfil dele, que topa com um riso tímido no rosto moreno. Suas respostas no início são monossilábicas, mas depois de uma hora ganham fôlego, e logo Olímpio está entusiasmado a contar sua história. História que começa em Recife, capital de Pernambuco. História de amor, mais do que de labor.

O vigia da rua, de paralelepípedo, Santa Tereza, na Vila Milton, bairro de classe média erigido num morro de Guarulhos e de onde se vê a vizinha São Paulo de cima, inclusive as antenas da Avenida Paulista piscantes feito estrelas no chão, sem saber muda minha pauta… O sono que me domina na noite invernal de sábado se perde no horizonte de luzes residenciais. O sereno que cai também pinta, impressionista, a paisagem urbana. Escrever de amor tem muito mais sabor do que falar de desarranjos sociais.

“Só uma vez fui extrovertido mesmo”, conta Olímpio, natural de Bonito (PE), num sotaque nordestino jocoso, cujo tempero que põe nas palavras parece dotá-las de uma graça suassúnica. Esse “extrovertismo” se deu há 45 anos, se não lhe falha a traiçoeira memória.

“Não sei o que me deu, cara. A mulher me deixou doido. A verdade é que sou doido por ela até hoje”, do contrário, talvez não passasse as madrugas sob o perigoso sereno. Do contrário, talvez não tivesse trabalhado duro ao longo da vida em cerâmicas, fábricas de tênis e de sapato, fábrica de cal com picareta calejando as mãos, com enxada em punho para abrir acostamentos em estradas de terra e também no serviço militar.

Aliás, foi de farda que conheceu Maria José…

Em frente ao quartel em que Olímpio cumpria os oito meses de serviço militar obrigatório havia uma praça pela qual à noite as moças – suponho – de vestidos longos, floridos, bordados e feitos à mão encontravam os moços fardados. A maioria atirava sem precisão seu charme, gastava munição sem avareza nas ofensivas de sedução. Mazé e Olímpio, não. Sem nunca terem trocado palavras, ela o paquerava do edifício onde trabalhava em um dos apartamentos, visível do quartel, como empregada doméstica. Ele correspondia. Para aquela noite, tinham combinado o encontro por mímica.

“Então, foi. Antes dela, tinha namorado umas quatro moças, mas nunca senti o que senti por Mazé. Assim, de bate pronto, ela me encantou. Bonita, viu?” Olímpio parece, mesmo após quarenta e tantos anos de convívio com Mazé, surpreso com o que lhe ocorrera naquela praça. “Foi como se eu já soubesse tudo o que ia acontecer, sabe?”

Beijaram-se logo no primeiro encontro. “E fizemos outras coisas mais, né?”, revela, rindo e violando a própria timidez, a primeira peripécia de um casal que hoje soma doze filhos e treze netos…

Olímpio já namorava Mazé havia quase dois anos quando ela lhe disse que estava grávida. “A notícia me deixou feliz como nunca. Sempre quis ser pai; meu maior sonho.”

Mas nem tudo era a alegria. Após cumprir o tempo de serviço militar obrigatório, Olímpio engajara como estafeta, mas, por recusar uma transferência para Fernando de Noronha, foi demitido. Ele não iria em hipótese alguma para uma ilha no meio do Atlântico, queria ficar perto de Mazé e da filha.

“Sou um sujeito chorão. Chorei quando vi a criança recém-nascida. Me escondi para que não me vissem chorar. Bobeira, né? Que mal tem chorar por isso?”

Sem farda, Olímpio não fugiu à luta. Trabalhou por um bom tempo numa cerâmica na cidade de Gravatá (PE) até ter de carregar o fardo do desemprego. “Minha dona, como sempre, foi valente. Mesmo com o bucho pela boca, quase nove meses de grávida, trabalhava para manter a família.”

Sem poder dar à mulher e aos filhos a vida que gostaria, Olímpio partiu para São Paulo. Em meados da década de 1980, chegou sozinho à capital paulista de carona num caminhão. Logo conseguiu emprego numa sapataria em Guarulhos e a família pôde vir também. “Ganhei tão bem que em pouco tempo aluguei uma boa casinha.” Na Grande São Paulo, Olímpio criou quase toda a filharada.

“Não tenho do que me queixar dos meus filhos. Todos viraram gente trabalhadora. Cada um tem sua casa. Só o mais novinho mora comigo.” E na casa alugada em que vivem, os três trabalham…

Olímpio inicia a vigília da rua Santa Tereza às 19 horas e termina às 3 da manhã. Faz isso de segunda a sábado. Ele me revela que sofre de insônia. “Para mim, quatro horas de sono tá bom”. Por isso, gosta de trabalhar de madrugada. Reclama um pouco do frio e do sereno. Usa uma blusa de agasalho, cujo capuz prende à cabeça com seu boné de vigia.

“Seu Olímpio, não era para você já ter se aposentado?”, pergunto, para matar a curiosidade.

“Eu já fui no INSS. Eles me disseram que só posso aposentar quando tiver com 65. A lei mudou. E também eu tô bem ainda!” Ri um riso inocente e orgulhoso…

“Garoto, vai pra casa”, aconselha, paternal. “Cê vai pegar uma gripe.” É verdade, a garganta já me começa a doer, e o vento dá força ao sereno.

“Acho que vou mesmo.”

Despeço e desejo um bom trabalho. Sigo pelas ruas de paralelepípedo do bairro de aspecto rústico com suas belas casas silentes. Olho para trás e vejo Olímpio sentando em uma velha cadeira – ainda não lhe deram uma guarita –, encolhido e com as mãos no bolso do agasalho. Não sei se me vê: a sombra da aba do boné escurece seu rosto.

Lembro que só tomará o caminho de casa dentro de três horas; andará por volta de quarenta minutos sob sereno; chegará em sua casa, a uns cinco quilômetros dali, lavará as mãos, o rosto e, como faz há quase meio século, deitará ao lado de Mazé.

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