Por LUCIANA TADDEO

Quando entrei na sala, os dois estavam frente a frente. De um lado, o nigeriano Rasaq Shodiya. Virado para ele, o padre Firto Régis, haitiano.

Falavam e tentavam reconhecer palavras ou sons comuns em seus idiomas. Debruçados na mesa que ocupava o centro da sala, o mestre de capoeira Louvadeus e o dono da escola Jordi Ferre ouviam os falares nativos dos dois professores.

O padre tagarelou em creóle, língua oficial de seu país, sem que ninguém entendesse. Louvadeus riu.

— Tá me xingano, rapaz?

Os dois descobriram curiosidades, como “aiebobô” significar “mundo” no idioma nigeriano yorubá e ser uma espécie de aclamação no creóle. Mas não foram tantas as semelhanças como Jordi supôs ao ouvir Firto pronunciar “a sètè eka li reveye ankò, tou sèzi lè li wè ki lè li ye” (às sete ela acordou, assustada com a hora) e sugerir a conversa entre os professores.

 Ao perceber o avanço da hora, Rasaq se despediu para que Firto retomasse as lições do ponto em que parou na aula anterior.

*

Largo da Batata, bairro de Pinheiros, São Paulo. O cinza da poluição que entra pelas narinas, as buzinas dos carros e o bafo do dia quente irritam. Camelôs atrapalham o andar apressado dos pedestres, que mal imaginam o que acontece a uns lances de escada acima dali.

Portinha espremida entre as lojas da movimentada rua Butantã, o número 129 é um mundo à parte. Nem o dentista que lá aluga uma das salas, nem o comerciante de ouro ao fundo do corredor conseguem tirar o ar de exotismo do local. A sensação ao subir as escadas para chegar à sala é a de ser diferente pelo simples fato de estar ali.

Cosmopolita ao oferecer aulas de idiomas pouco usuais, como aymara, quéchua, creóle haitiano, yorubá, catalão, japonês e guarani, a Sala Sequóia é, ao mesmo tempo, conservadora a ponto de, na sua Babel organizada, resgatar raízes históricas e culturais – muitas vezes desconsideradas pelos próprios brasileiros -, na contramão das tendências globalizantes.

*

— Onè! – exclama a fotógrafa Brígida Rodrigues ao chegar, após dar três batidinhas na porta.

— Respè! – respondem todos.

Após os cumprimentos à haitiana, que significam “honra” e “respeito”, a fotógrafa senta-se à mesa. Atrás dela, em uma estante, livros, apostilas, dicionários de japonês, inglês, catalão e revistas National Geographic dão cor ao cenário. Na prateleira mais alta, uma bandeira da Bolívia.

Nas paredes, tecidos com desenhos indígenas dividem espaço com diversos cartazes de movimentos políticos, onde se lê:

“Marcha Mapuché
¡¡ Libertad a los presos políticos de mapuche!!
La liberación de nuestra tierra es la herencia para nuestros hijos.”

“Haiti
Basta de ocupación economica  y militar.”

“Vamos ouvir a voz dos que não têm vez.
Audiência pública sobre a situação dos povos indígenas.”

Perto da porta, um móvel está coberto com um aguayo boliviano – tecido grosso, feito à mão, que as mulheres utilizam para carregar os bebês nas costas.

Devido ao calor, a porta fica aberta. A música sertaneja vinda da rua invade o ambiente, disputando com a voz do professor. Em pé, Firto discorre, com seu português quase perfeito, sobre a oficialização do creóle como idioma, em 1987. Falada por 90% dos haitianos, a língua nasceu da mistura do francês colonizador com os idiomas dos escravos africanos.

Esse é o curso com mais público da escola, com seis alunos. Como as taxas de mensalidade variam entre R$ 40 e R$ 60, Jordi intera o salário dos professores com verba própria. O projeto sai caro, mas, além de saciar suas necessidades culturais, ele sabe que a iniciativa ajuda imigrantes que não têm vida fácil no Brasil.

*

Quando Rasaq, dono de uma pele quase azul de tão negra, fala português rápido, suas frases ficam ininteligíveis. Mas seu aluno, Paulo Oliveira, parece entender. Quieto, escuta o professor e repete os sons quando solicitado. Ao pronunciar cada dia da semana em yorubá, Rasaq explica os seus significados. Quarta é o dia em que o bem e o mal andam juntos:

— Num dá presente, poiquê num sabe si o mal vai cruzar caminho. Num sabe pra qui vai usar.

Paulo lê nas anotações no caderno a seqüência que acabou de aprender:

— Ajé, ichegun, Ru, bo, êti, abametá, aicu e ojó isimí.

Para quem freqüenta o curso há menos de um mês, já mostra familiaridade com o idioma. Professor de português de uma escola municipal, ele acredita que o contato com o yorubá pode ajudá-lo na busca das raízes da língua falada no Brasil.

*

Aos domingos, na feira da Kantuta, que reúne a comunidade boliviana no Canindé, Indio Arcol** pode ser visto assoprando instrumentos musicais incas feitos de bambu ou recitando versos em aymara, língua que falava até os sete anos, quando morava num povoado em Puno, às margens do lago Titicaca, no Peru. Como a escola local só oferecia ensino até a terceira série do primário, foi estudar em Moho, distrito vizinho, onde os professores proibiram o uso do seu “dialeto”, que atrapalhava o aprendizado do castelhano.

Alvo de piadinhas dos colegas de pele mais clara, Arcol passou a sentir vergonha de si mesmo, das roupas simples que vestia e de seus costumes. Muito ouviu ser um “índio de mierda”.

Crescido, envolveu-se com o Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro do Peru, conhecido pela violência com que conduzia suas ações e apontado como terrorista pelo governo, mas que tinha expressivo apoio popular entre camponeses devido à distribuição de terras.

Apesar de apoiar a ideologia, Indio Arcol garante que apenas abrigou companheiros e armas em sua casa. Foi preso e torturado e está exilado político no Brasil há cinco anos.

As aulas na Sala Sequóia o ajudam no orçamento mensal, resultado da quantidade de calças que costura diariamente para um coreano, num regime de “semi-escravidão”, no Bom Retiro. Mas sua maior motivação é outra:

— É muito gratificante saber que alguém no Brasil quer aprender meu idioma e conhecer minha cultura.

*

Meia hora depois do início da aula de Arcol, Daniela La Chioma – alta, maquiada, elegante – entra esbaforida pela porta. Tira da bolsa um folheto da exposição na Pinacoteca do Estado “Os Tesouros do Senhor de Sipán”, sobre a cultura Mochica, uma civilização pré-colombiana, e comenta com entusiasmo contagiante:

— Conheci ontem o arqueólogo que descobriu essa tumba. Vocês viram esse brinco? Olha o que eles já faziam, naquela época!

Prestes a se graduar em história, ingressou em um programa de Iniciação Científica de Arqueologia e estuda os povos dos Andes por instrumentos musicais achados suas nas tumbas. Lê vorazmente escritores andinos e, após a aula de aymara no sábado, encara mais duas horas de quéchua, língua também falada no Peru e na Bolívia.

— São nossos vizinhos e não sabemos nada deles! – lamenta.

O pai de Daniela, técnico de computação, formado em letras em português e armênio, aprende o aymara por curiosidade e garante:

— Nossa próxima viagem será para os Andes.

Destino, por incrível que pareça, inédito para os dois. Se Daniela nunca foi para lá, de onde vem tanta paixão e brilho nos olhos?

Talvez algum aluno da Sala Sequóia consiga responder essa questão.
 

* Texto de 2006. Em 2007, a Sala Sequóia mudou para a rua Sebastião Caleiro, na Vila Madalena. Mais informações no site www.salasequoia.net

** O nome foi trocado para preservar a identidade da personagem.

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