Por ANDRÉ KAMEDA

Quando o oficial de justiça chegou/ Lá na favela/
E contra seu desejo/ Entregou pra Seu Narciso/
Um aviso/ Pruma ordem de despejo/ Assinada seu doutor/
Assim dizia a petição/ Dentro de dez dias/
Quero a favela vazia/ Os barracos todos no chão/
É uma ordem superior

Ordem de Despejo – Adoniran Barbosa

Logo que comecei a publicar neste espaço a história de Severino, a primeira sensação que tive foi a de que um desfecho não poderia NÃO ser escrito. Isso porque seria uma inumanidade deixar para trás a luta de toda uma vida e adotar o mesmo procedimento da grande imprensa em casos como este. Honrosa exceção seja feita a um repórter de um jornal popular de São Paulo, o único a retomar a história de nosso personagem. Além disso, depois de um ano e meio, o prédio foi desocupado, algumas famílias mudaram-se para outra ocupação e outras tantas foram morar em cortiços no centro de São Paulo.

Atualmente, Severino e Roberta estão morando em Itapecerica da Serra, município da Grande São Paulo localizado na divisa com a zona oeste da capital. O imóvel foi emprestado por uma amiga que teve o primeiro contato com o casal na Ocupação Prestes Maia. É uma chácara de 100 m², com piscina, horta e vários cômodos. Um luxo se comparado aos ‘barracos’ em que residiam no prédio da ocupação. Para se ter uma idéia, num único andar moravam 14 famílias que tinham de compartilhar um banheiro coletivo. Na nova casa, eles podem se servir de cinco banheiros, um para cada morador. “Essa cozinha é do tamanho do barraco onde morávamos”, diz Severino.

Mas isso não é o mais importante. O que realmente interessa é que Severino não se acomodou com todo o conforto da residência e foi imediatamente atrás daquilo em que sempre acreditou. Quando se mudou em definitivo, em 15 de junho deste ano, tratou de estruturar uma nova biblioteca com os livros que juntou ao longo de anos. A inauguração da “Biblioteca em Homenagem a Machado de Assis” foi no último domingo, dia 16, aniversário de 57 anos de Severino. Estiveram presentes muitas pessoas que costumavam freqüentar o Prestes Maia: artistas, documentaristas, amigos, enfim, gente que simpatizou com a causa dos moradores daquela ocupação. Além deles, moradores da região que passavam em frente à casa no dia também se juntaram à pequena festa.

A biblioteca ainda está em fase de estruturação, mas já é possível emprestar livros. Até ontem, 21 pessoas já haviam feito empréstimos de material, a maioria crianças e adolescentes. São 6 mil livros à disposição do público, além de 3 computadores e diversas fitas de vídeo. Os usuários podem pegar quantos livros quiserem e podem devolver quando lhes convier. É tudo na base da confiança. Severino pretende ainda ampliar o espaço, criando salas de leitura, de informática e um mini-cinema. Ele também quer, num futuro próximo, promover saraus, encontros e outros eventos. A idéia é transformar a casa num espaço cultural, um lugar onde os jovens podem esquecer a violência tão presente naquela região. E, mais do que tudo, um local onde se possa refletir sobre isso. “Nós trabalhamos para a comunidade, por isso que é importante uma biblioteca aqui em Itapecerica. Às vezes, penso até que é melhor aqui do que era no Prestes Maia, porque lá no Centro as pessoas têm mais acesso a tudo”, diz Severino.

***

Severino deixou de recolher materiais recicláveis e está fazendo bicos como pintor, carpinteiro e pedreiro em São Paulo. Atualmente, está pintando uma casa na região do aeroporto de Congonhas. Acorda às 6h, pega duas conduções e, depois de uma hora e meia de viagem, chega ao local de trabalho. Volta para casa somente à noite. Enquanto está fora, quem cuida da biblioteca é a filha e a companheira Roberta. Além delas, duas meninas que moram na região estão ajudando, por vontade própria, a organizar o acervo de livros.

Quanto ao livro que estava escrevendo, Severino diz que o emprestou a uma pessoa que nunca mais devolveu. Por isso, interrompeu a escritura, mas pretende retomá-la algum dia.

A casa em que estão morando está à venda. O casal espera que a pessoa que a comprar tenha sensibilidade o bastante para manter a biblioteca. Os moradores da região, no pouco tempo de funcionamento do espaço, já demonstraram que farão o possível para que o lugar não pereça. Enquanto isso, permanece a sensação angustiante de que, a qualquer momento, aquela casa pode não ser mais a morada deles. Como escreveu Severino em seu livro não-publicado, “a vida caminha sem casa”.

Quem quiser doar livros, equipamentos de informática, fitas VHS, DVDs ou mobiliário pode entrar em contato comigo ou entregar pessoalmente na Estrada das Piúvas, 47, Chácara Santa Maria, Itapecerica da Serra (SP), CEP 06857-830.
Quem quiser doar livros, equipamentos de informática, fitas VHS, DVDs ou mobiliário pode entrar em contato comigo ou entregar pessoalmente na Estrada das Piúvas, 47, Chácara Santa Maria, Itapecerica da Serra (SP), CEP 06857-830.

Este é o epílogo de Vida Severina.
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