Por ERIKA MORAIS

Última parte dos excertos do ensaio: História Oral de Vida: Um diálogo do documentário de Eduardo Coutinho com o Jornalismo Literário

 A opção pelo anônimo e o contexto social narrado em Peões

Como vimos anteriormente, o cinema de Eduardo Coutinho possui clara influencia do cinema-verdade europeu, com a intervenção direta do cineasta e sua equipe de filmagem. Coutinho ganhou fama por captar a presença da equipe e aparato fílmico em seus documentários. Porém, como foi dito na apresentação deste ensaio, o trabalho de Eduardo Coutinho nunca é tão previsível e em algumas entrevistas o cineasta demonstrou insatisfação por colocarem seus métodos de filmagem como “exemplos” a serem seguidos por jovens cineastas.

O método de exposição da equipe desaparece em Peões, porém a meta-linguagem que mostra a feitura do documentário, não. Logo no início do filme vemos Coutinho em reunião com alguns sindicalistas solicitando ajuda no reconhecimento de pessoas que participaram do movimento operário, em filmes antigos sobre as greves de 1978, 1979 e 1980**, na região do ABCD paulista*** e fotografias da época. O prazo curto para a realização do filme fez com que Coutinho, diferente de seus filmes anteriores, tivesse que se envolver nas pesquisas para a realização de Peões.

O filme foi produzido junto com Entreatos, de João Moreira Salles, que retrata os bastidores da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para presidência da República. A idéia inicial era de que Coutinho e Salles trabalhassem juntos em um mesmo filme, porém, o interesse de Coutinho sempre foi relacionado ao personagem “anônimo”, o que fez com que, no final da campanha, com excesso de material, seria necessário fazer, no mínimo, dois filmes. Podemos perceber, mais uma vez, a aproximação com a História Oral de Vida quando o cineasta revela sua opção por filmar os operários que conviveram com Lula, no momento em que este estava prestes a se tornar presidente (LINS, 2004):

“Todo fato histórico tem uma dimensão que é cotidiana, das pessoas que estão na massa, se dissolvem na massa. Você pode jogar essa idéia em qualquer quadro histórico: pega, virando 180 graus, um comício do Hitler, com cem mil carinhas: quem são esses caras? Festejos do fim da Segunda Guerra Mundial, e você vê aqueles anônimos; quem eram? O que me interessa é esse lado.”

Da mesma forma que em Edifício Master, em Peões, Eduardo Coutinho não pretendia mostrar uma “classe”, como não fez com o primeiro um “retrato” da “classe média”, no segundo não traz uma história da “classe operária” brasileira, apesar dos personagens fazerem parte de um grupo com um interesse histórico representativo.

Enquanto João Moreira Salles executa, em Entreatos, um cinema influenciado pelo cinema-direto norte-americano, com sua câmera de bastidores, sem interferência direta com os personagens, Coutinho mergulha na busca de seus personagens, que de preferência não seriam ex-metalúrgicos que assumiram cargos públicos. Sem deputados, sem vereadores, sem pessoas públicas, Eduardo Coutinho queria saber quem são aqueles metalúrgicos que participaram de alguns dos maiores movimentos de greve do século XX, como vivem hoje, quais são suas lembranças desses momentos, como se relacionavam uns com os outros e com suas famílias, como é foi conviver na militância com quem estava prestes a se tornar o primeiro presidente da República oriundo da classe trabalhadora, um ex-metalúrgico.

Apesar das imagens no cinema recente de Eduardo Coutinho serem quase que exclusivamente focadas nas falas de seus personagens, no momento em que elas acontecem, em Peões imagens de filmes da época e fotografias são utilizadas no decorrer do filme, porém, é válido esclarecer, que as imagens não são usadas como habitualmente nos documentários “clássicos”, com o objetivo de esclarecer ou justificar uma fala, por isso as imagens que não são as captadas pelas lentes do cineasta são utilizadas com seu som original, de forma separada das falas dos personagens “atuais”.

Uma característica fundamental no cinema do Eduardo Coutinho é o respeito pelas falas dos personagens. Não há cortes de edição por alguma resposta não sair conforme o “gosto” ou a “necessidade” do cineasta. Não existe uma verdade única e as possíveis contradições nas falas refletem as contradições da natureza humana. Quando o personagem João Chapéu, em Peões, diz com orgulho que seu filho, quando pequeno, dizia cada vez que via passar um caminhão da Mercedes Benz: “Pai, aquele caminhão tem uma peça que o senhor fez” mostra o orgulho do bom operário, do bom profissional, que vemos durante a maioria das falas no filme e que, segundo Consuelo Lins: “(…) (possui um) orgulho distante da concepção marxista de alienação do operário em relação ao que ele produz, de que o objeto produzido se opõe ao trabalhador, ‘lhe é hostil e estrangeiro’” (LINS, 2004).

Na fala final do filme, o operário Geraldo diz que não quer que seus filhos sejam metalúrgicos, que passem o que passou. Trabalhando por contrato temporário, com mais de 40 anos de idade, as dificuldades de um emprego fixo fica cada vez mais difícil. Muitas fábricas fecharam e nas que permanecem em funcionamento grande parte do trabalho executado pelos metalúrgicos hoje é feito em larga escala por máquinas.

A fala de Geraldo vem para acabar com o romantismo existente em cima de uma profissão que ficou massivamente conhecida e valorizada no final dos anos 1970 e começo dos anos de 1980 por sua organização enquanto classe. “É duro, é duro”, diz Geraldo, o ainda operário que foi companheiro de Lula. Geraldo define o “peão” dos anos 1970 e o “peão” de hoje. Aquele peão que conhece seu ofício como poucos e que sem a fábrica não existiria e este peão que a fábrica não mais mantém.

“O Fim e o Princípio”: a memória em um filme que educa “sem querer”

Em O Fim e o Princípio Eduardo Coutinho inova mais uma vez quando abre mão da pesquisa prévia e segue para o sertão da Paraíba, sem saber o que iria acontecer, e lá, descobre nas redondezas de São João do Rio dos Peixes o sítio de Araçás, onde decide que será seu ambiente de filmagem.

Com a ajuda de Rosa, agente da Pastoral da Criança da região e que conhece bem o lugar e seus moradores, Eduardo Coutinho nos apresenta personagens que desfilam mais do que um modo de vida, mas que abrem suas portas e nos revelam suas rotinas, a presença da religiosidade e muito da solidão de cada um.

Como não foi feito pesquisa prévia, fomos conhecendo os personagens junto ao diretor. Acompanhada por Rosa e em alguns momentos a equipe de filmagem, a câmera adentrava em cada um dos quintais e casas simples do grande sítio. Inevitavelmente vamos percebendo que a expressiva maioria dos personagens moradores da região é composta por idosos.

Os rostos enrugados pela velhice são impossíveis de não comover, mesmo quando o sorriso toma conta da face. A passagem do tempo carimbada nesses personagens encontra em suas falas histórias de vidas, de infâncias, namoros, casamentos, nascimentos e mortes.

Como dito anteriormente, a memória é condição básica no método de História Oral de Vida e muito do que ouvimos nos depoimentos de O Fim e o Princípio permanece na transmissão oral, pois não há, em muitos casos, registros escritos. Para Meihy:

“Uma das mais bonitas expressões da História Oral é a tradição oral. (…) ela remete às questões do passado longínquo que se manifestam pelo que chamamos folclore e pela transmissão geracional, de pais para filhos ou de indivíduos para indivíduos.” (MEIHY, 1996).

Eduardo Coutinho traz para o documentário a importância da oralidade por meio das conversas, onde na entrevista, que se baseia na oralidade, é quando identificamos processos sócio-culturais nas informações relatadas por indivíduos sobre as suas experiências de histórias de vida. No dicionário, memória significa “lembrança”, “reminiscência”, “recordação” e é por meio da memória que o personagem de O Fim e o Princípio traz à tona os sentimentos que nos levam com freqüência a pensar no fim da vida, no princípio da ausência.

Muito já foi dito sobre a propriedade que tem Eduardo Coutinho no ato da entrevista, porém, como nos alertou o depoimento de João Moreira Salles neste ensaio, Coutinho antes de tudo sabe escutar, é um bom ouvinte. Com a paciência que deve ter todos que se prestam a retratar de alguma forma a vida de outras pessoas, Coutinho consegue excelentes depoimentos pelo fato de saber o momento do “não falar”. Como qualquer ser humano “erra” e por interromper uma fala perde uma boa história, e mesmo que a pergunta se repita a espontaneidade não será mais a mesma, perde-se o ineditismo momentâneo na fala entrecortada.

Também graças a sua capacidade de escutar pacientemente, Coutinho ganha a confiança de seus personagens que falam abertamente para este simpático senhor, desconhecido para eles. Esta confiança faz com que Coutinho passe por momentos em que não havendo tempo para uma resposta mais elaborada, é pego de surpresa por alguns de seus entrevistados pelo menos uma vez em cada um dos filmes citados neste ensaio. Em O Fim e o Princípio é perguntado por um dos personagens se ele acredita que existe Deus, e escapa de uma possível polêmica dizendo que isso é “algo muito complexo” e devolve a pergunta com algo do tipo: “e você o que acha?”.

O Fim e o Princípio, junto com todos os outros filmes de Eduardo Coutinho, é educativo no sentido em que nos mostra uma história “não-oficial”, quando nos apresenta, mais especificamente no caso de O Fim e o Princípio, um país distante das grandes cidades, uma sabedoria sertaneja tão diferente e ao mesmo tempo tão parecida com tantas histórias espalhadas por diferentes regiões, com diferentes sotaques desse país.

O filme também educa e permite reflexões filosóficas, sociológicas, antropológicas e psicológicas, já que trata de temas como existencialismo, solidão, religiosidade, sentido da vida e morte.

Um dos momentos mais importantes do relacionamento nascido entre Eduardo Coutinho e sua equipe com os moradores de Araçá está registrado nos “extras” do DVD de O Fim e o Princípio. É quando Coutinho cumpre a promessa e volta ao sito depois do filme terminado para uma sessão pública para os moradores da região, principalmente os personagens do filme.

Percebe-se nestas imagens da volta, a relação de proximidade e até amizade que surgiu durante o processo de realização do filme. É quando fica mais claro o resultado final, cheio de depoimentos emocionantes, divertidos, tristes, incrédulos, crentes, surpreendentes e cheios de vida, das vidas desses personagens.

Durante a primeira despedida, alguns personagens alertavam para si e para Eduardo Coutinho da possibilidade de não estarem mais presentes quando o cineasta voltasse com o filme pronto. Dois dos personagens faleceram no interregno, Zé de Souza e Leocádio.

Conclusão

Com este ensaio, concluo que a recente obra do documentarista Eduardo Coutinho, possui características técnicas e filosóficas diretamente ligadas, em maior ou menor grau de acordo com cada filme, com os métodos de História Oral de Vida para o Jornalismo Literário. Neste caso, entenda-se que o Jornalismo Literário é possível de ser realizado em diversos meios de comunicação, entre eles o áudio-visual.

Dentro da “árvore”: Pesquisa Qualitativa> História Oral> História de Vida> Jornalismo Literário> Documentários, identificamos uma profundidade de relacionamentos, onde cada “galho” coexiste e se completam, chegando aos resultados experimentados por Eduardo Coutinho em seus documentários, em especial os citados neste texto.

Eduardo Coutinho nos mostra em seus filmes, que antes da indumentária técnica, é necessário ao “entrevistador” respeito, paciência, empatia e disponibilidade perante o seu “entrevistado”. Assistir atentamente a seus filmes, pode servir de inspiração aos jornalistas que se permitem quebrar os paradigmas da urgência e o mito da objetividade; de “espelho” a historiadores que acreditam que a história pode e deve ser contada por testemunhas cotidianas, por anônimos esquecidos pela “história oficial”; de “laboratório” para psicólogos que pretendem entender um pouco mais dos sentimentos humanos; enfim, o documentário de Eduardo Coutinho emociona o grande público, que se identifica com personagens que, muitas vezes, possuem os mesmos dramas, as mesmas alegrias, dúvidas e vivências, sentimentos universais de todo ser humano.

*leia aqui: Parte I e Parte II

**Os filmes analisados e que aparecem durante todo o documentário são: “Linha de Montagem”, de Renato Tapajós, “ABC da greve” de Leon Hirszman e “A greve”, de João Batista de Andrade.

***Região formada pelos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano e Diadema.

Para ler o ensaio completo, com todas as referências bibliográficas, entre em contato com a autora: erikamorais@yahoo.com.br

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